UOL Notícias Internacional
 

30/10/2004

Iraque faz os americanos trocarem de candidatos

The New York Times
Katharine Q. Seelye

Em Washington
Richard Linn, um eleitor republicano registrado que vive em Columbus, Indiana, votou em George W. Bush em 2000, por acreditar que ele era o melhor candidato no que se refere à questão de defesa nacional.

Mas, neste ano, Linn, um controlador de tráfego aéreo aposentado, disse que Bush fez tamanha bagunça da guerra no Iraque e da posição dos Estados Unidos no mundo que ele vai votar no senador John Kerry.

"Eu fiquei simplesmente decepcionado com o homem", disse Linn, referindo-se ao presidente. "Atualmente acredito em muito pouco do que ele diz".

Apesar de todas as análises que indicam que a nação está politicamente polarizada, há muita gente mudando de lado, e muitos citam a guerra no Iraque como o motivo que os fez reconsiderar a maneira como votaram em 2000.

Linn é parte de um grupo relativamente pequeno, mas distinto, do eleitorado que está mudando em 2004 para o outro partido, e os dois lados da campanha dizem que estão procurando atingir esse nicho, na busca de qualquer vantagem possível no dia da eleição.

A mais recente pesquisa The New York Times/CBS News, realizada de 14 a 17 de outubro, revelou que 11% das pessoas que votaram em Bush em 2000 disseram que votarão desta vez em Kerry, e que 7% dos que votaram em Al Gore, o candidato democrata em 2000, ficarão neste ano com Bush.

Em entrevistas seguintes, muitos eleitores que apoiaram Bush em 2000, mas que se opõem a ele, disseram estar profundamente pessimistas quanto à guerra. Aqueles que votaram no democrata em 2000, mas que agora votam em Bush, dizem estar relutantes em mudar de comandante-em-chefe enquanto a guerra prossegue.

"Qualquer mudança no gabinete neste momento criaria confusão", diz John Pal, 57, um projetista de interiores de Houston que votou em Gore e que agora apóia Bush. "Tirar o presidente do cargo enviaria aos terroristas um sinal de que estamos enfraquecidos, e isso poderia nos custar muito caro".

Vários dos entrevistados disseram que o processo de tomada de decisão ocorreu no decorrer do tempo e foi árduo. Eles se descreveram como pessoas de tendência política mais ou menos centrista. Ainda que muitos tenham-se registrado em um dos dois principais partidos, eles não se definem como filiados leais, e sim como pensadores independentes.

Eles disseram também que em 2000 viram pouca diferença entre os candidatos e exígua importância na eleição. Mas quase todos disseram que a guerra no Iraque, ainda mais que os ataques terroristas de 11 de setembro, fez com que agora fossem tomados por um senso de urgência.

"Eu não via muita diferença entre Bush e Gore, mas o presidente Bush realmente mudou muito desde então", afirma Larry Howell, 57, engenheiro de software em Columbus, Ohio, que votou em Bush em 2000 e está agora votando em Kerry.

Howell, que diz ter sido "diminuído" em 2001, afirma que a sua preocupação com a economia está vinculada às preocupações com o Iraque.

"Tenho muitas dúvidas quanto às razões que motivaram Bush a fazer a guerra, e agora precisamos desviar centenas de bilhões de dólares para pagar os custos desse conflito", reclama. "Neste momento Bush está no rumo de um futuro muito desagradável, e isso só vai piorar".

Mark Mellman, um especialista democrata em pesquisas que está trabalhando para Kerry, diz que a memória dos eleitores sobre como votaram há quatro anos costuma não ser confiável.

"Se perguntarmos hoje aos eleitores em quem eles votaram em 2000, Bush tem uma vantagem de seis pontos percentuais", diz ele. "Na verdade, o presidente perdeu para Gore no voto popular por uma diferença de meio milhão de votos. É um fenômeno que os especialistas chamam de 'efeito de halo', que consiste em um desejo de se associar ao vencedor".

"Ainda assim, as pesquisas mostraram que há muito mais gente mudando de Bush para Kerry do que de Gore para Bush --a mudança real ocorre entre os independentes, e eles migraram para o nosso lado", diz Mellman. Segundo ele, os votos dessas pessoas serão "decisivos".

Matthew Dowd, principal estrategista da campanha de Bush, diz que um indicador mais confiável dos eleitores que mudam de lado seria a sua filiação partidária, e por esse parâmetro Bush está se saindo melhor entre os republicanos do que Kerry entre os democratas.

"Garantimos 93% dos votos dos republicanos, e eles 87% dos votos dos democratas", afirma. A pesquisas NYTimes/CBS mostra um resultado quase similar.

Um fato interessante quanto aos eleitores que mudam de posição é o grau de dificuldade que eles encontram para tomar uma decisão. Andrew Kohut, do Centro Pew de Pesquisas, diz que a sua entrevista feita em 20 de outubro com eleitores indecisos revelou que 61% daqueles que atualmente estão votando em Kerry disseram que essa foi uma escolha dura.

Kohut disse que isso reflete aquela preocupação com o mudar de cavalos no meio da corrida.

Linn, o republicano de Indiana, que serviu na Força Aérea durante a Guerra da Coréia, disse ter apoiado Bush durante a invasão do Iraque, mas que atualmente está irritado com o presidente.

"Não encontramos arma alguma, e os nossos garotos só estão morrendo por lá", afirma. Ele acrescenta que, apesar de ter apoiado Bush quatro anos atrás, está tão furioso com o presidente que atualmente não votaria nele de forma alguma.

Outros não estão tão certos. Terry Hammer, 44, um enfermeiro de Springfield, Missouri, votou em Bush em 2000 e atualmente está em cima do muro, mas tendendo a votar em Kerry.

"A invasão do Iraque foi mal aconselhada", diz ele. "Mas não podemos voltar no tempo e desfazer o que foi feito, e acho que faz sentido continuarmos no mesmo curso sem hesitação. Creio que mudar de rumo no momento seria uma quebra de continuidade".

Apesar disso, ele diz que está se inclinando para Kerry, em parte porque não gosta do apoio de Bush à idéia de mudar a Constituição para proibir o casamento gay e também porque está preocupado com "o arsenal de explosivos desaparecidos".

"Isso reforça a minha crença em que a guerra do Iraque não tornou o mundo mais seguro, e sim mais perigoso", diz ele.

Craig Boehnen, 36, um açougueiro de Fort Worth, Texas, diz ter apoiado Gore em 2000, mas que atualmente apóia Bush por temer que Kerry seja demasiadamente fraco.

"Minha principal preocupação com Kerry é saber como ele vai reagir ao terrorismo", diz Boehnen. "Se alguém vem até minha casa e prejudica minha família, penso em vingança. Não creio que Kerry seja tão forte quanto Bush. Acredito que ele reduziria os orçamentos das forças armadas e da CIA".

Pal, o projetista de Houston, diz ter preocupações similares. Ele disse ter escapado da Romênia em 1980 e que apoiou integralmente aquilo que entende como a determinação de Bush em disseminar a liberdade pelo mundo.

"Este é o meu país e eu o defenderei", declara. Pal diz estar ensinando aos seus três filhos "os valores da liberdade e que às vezes é necessário lutar por ela".

Myrtle Dettman, 81, de Evergreen, Alabama, diz que está mudando de Gore para Bush porque "Bush tem um pouco mais de experiência por já estar ocupando o cargo". Ela disse ainda que pouco sabe sobre Kerry, e que vê em Bush "um homem bom, ético e cristão".

Entre os ex-apoiadores de Bush, poucos são os que têm algo de positivo a dizer a respeito de Kerry. "Estou me afastando de Bush; não estou sendo atraído por Kerry", diz Howell. Qualquer sentimento pró-Kerry é secundário com relação à insatisfação com a guerra.

Rick Snyder, 47, farmacêutico de Northampton, Pensilvânia, e eleitor independente que votou em Bush, disse que tem um amigo com Mal de Parkinson e que apóia Kerry agora porque este promoverá pesquisas com células-tronco. Mas o seu principal motivo para abandonar Bush é, segundo ele, o fato de estar "muito desapontado com a guerra no Iraque".

De forma similar, Joan Deane, 78, de Scarborough, Maine, um republicano registrado que simpatiza com a família Bush, disse achar Kerry "Lincolnesco", mas que foi o seu sentimento negativo com relação ao atual presidente que a motivou a votar agora no senador.

"George W. não é tão inteligente quanto outros candidatos", diz ela. "Ele possui um repertório de cerca de dez frases que usa sem parar. Ele é um pouco arrogante no andar. E foi tão tolo ao invadir o Iraque. Dêem uma olhada na Bíblia. Eles lutam por aquele terrível pedaço de terra desde o início dos tempos". Guerra faz eleitores de Bush votarem em democratas e vice-versa Danilo Fonseca

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