UOL Notícias Internacional
 

30/10/2004

Vídeo com bin Laden abala campanha nos EUA

The New York Times
Jodi Wilgoren*

Em Milwaukee, Wisconsin
A exibição de um novo vídeo com Osama bin Laden abalou a campanha presidencial nesta sexta-feira (29/10), provocando reações rápidas tanto do presidente Bush, que prometeu que os americanos "não serão intimidados nem influenciados", como do senador John Kerry. O candidato democrata disse que os americanos "estão absolutamente unidos em nossa determinação de caçar e destruir" os terroristas.

Os dois candidatos, que estavam se atacando vigorosamente, cada um questionando a competência e o preparo do adversário para o cargo, soaram nitidamente semelhantes diante da reaparição de bin Laden.

Bush, numa aparição diante das cameras de televisão na pista do aeroporto de Toledo, Estado de Ohio, disse ter certeza de que Kerry compartilhava seus sentimentos, de que o país não seria intimidado "por um inimigo de nossa nação".

E Kerry adotou uma das linhas de argumentação típicas do presidente, declarando que os Estados Unidos fariam "o que fosse necessário" para lidar com bin Laden e a organização Al Qaeda.

Mas o senador também criticou Bush por permitir que bin Laden esteja solto.

"Lamento que, quando George Bush teve a oportunidade no Afeganistão e em Tora Bora, ele não optou por usar as tropas americanas para caçar e matar Osama bin Laden", disse Kerry numa entrevista a uma afiliada da rede ABC em Milwaukee, no Wisconsin, logo depois de ser informado sobre o vídeo.

"Bush terceirizou essa missão para os novos dirigentes afegãos. Eu jamais teria feito isso. Acho que foi um erro enorme, e que hoje estamos pagando por isso".

Bush respondeu ao democrata em seu último compromisso do dia, sugerindo que Kerry estava errado e que o adversário estaria politizando uma questão de segurança nacional. "Foi uma péssima jogada dele. E é especialmente vergonhosa à luz desse novo video do inimigo dos Estados Unidos".

O vídeo, exibido pelo canal árabe Al Jazeera, se materializou enquanto os dois candidatos começavam a fazer seus apelos finais ao eleitorado, numa nação amargamente dividida, trazendo novas incertezas a uma disputa que já estava apertada.

Ambos os lados imediatamente começaram a avaliar as oportunidades políticas e os perigos em potencial, que podem surgir a partir do que parece ser um esforço calculado de bin Laden para influenciar a opinião pública americana, a quatro dias da eleição.

Para Bush, que começou o dia com um discurso em que fazia de sua resposta aos ataques do 11 de setembro o motivo central de sua aspiração a um novo mandato, o novo vídeo comprova que o tema do terrorismo irá dominar os últimos dias da campanha.

Para Kerry, que argumentava durante um discurso no início da sexta-feira que a atuação de Bush no Iraque "desviou nosso foco de Osama bin Laden e da verdadeira guerra contra o terror", o vídeo proporciona uma boa e nova oportunidade de comprovar sua tese de que o governo falhou na tarefa de aumentar a segurança da nação.

Se não é exatamente a "surpresa de outubro" que há muito se especulava --os críticos mais emocionais de Bush previram sempre que a Casa Branca iria exibir o líder terrorista acorrentado, nessa altura da campanha-- a decisão de bin Laden de entrar na campanha é o último exemplo de como essa disputa, que já estava tão apertada que não admitia prognósticos de resultado, está sendo moldada pelos acontecimentos externos.

Bush esteve na defensiva durante toda a semana, após os relatos de que os Estados Unidos podem ter falhado na manutenção de cerca de 400 toneladas de fortes explosivos no Iraque, durante e imediatamente depois da invasão, no ano passado.

No começo da sexta-feira, as organizações das duas campanhas duelavam sobre a avaliação das estatísticas economicas recém-divulgadas, se elas mostravam que a economia estava mais forte ou mais fraca.

Ambas as campanhas tomaram decisões rápidas sobre a melhor forma de responder às observações de bin Laden --e logo começaram a se acusar de estar tentando transformar o assunto numa questão política.

Mike McCurry, principal porta-voz de Kerry, disse que a campanha democrata não iria mudar de rumo e continuaria a contestar Bush, tanto sobre os assuntos domésticos como sobre a maneira com que o presidente lidou com o terrorismo: "Estamos muito confiantes de que atingimos o tom certo e de que terminaremos a campanha do jeito que imaginamos".

Por sua vez, Dan Bartlett, diretor responsável pela comunicação da Casa Branca, acusou a candidatura Kerry de mostrar intenção de deflagrar "um enorme ataque político" a partir das declarações de bin Laden, e disse que "o povo americano terá que julgar se essa é a atitude mais apropriada".

Bartlett arrematou: "Acreditamos que foi muito vergonhoso".

Os candidatos iniciaram o dia começando a arrematar suas discussões com os eleitores, com Kerry exigindo "uma nova atitude" sobre segurança nacional e política doméstica, e Bush discorrendo sobre o caráter, as convicções e a consistência necessárias a um presidente.

Faltando apenas quatro dias, os candidatos se movimentaram em direção a um final de semana frenético, de comícios e corpo-a-corpo, principalmente nos chamados estados decisivos do meio-oeste e na Flórida.

"Nós iremos soar os sinos da liberdade, da mudança e da renovação", afirmou Kerry, o desafiante democrata.

Cercado na cidade de Manchester por sobreviventes do 11 de setembro, atentados terroristas que tanto deram o tom à sua presidência e que tanto influenciam a estratégia de sua reeleição, Bush afirmou: "Chegamos até aqui, fizemos muito, mas nosso trabalho ainda não acabou".

Os candidatos visitaram Ohio, Flórida e New Hampshire, três dos doze Estados transformados em pontos focais durante todo esse ano eleitoral.

Numa atitude surpreendente, o vice-presidente Dick Cheney foi despachado para o Havaí --e por lá também estão o vice-presidente Al Gore e a filha mais velha de Kerry, Alexandra. O Havaí tradicionalmente é um Estado democrata, mas uma nova pesquisa indica que ele pode entrar no rol dos indecisos.

Ambos os lados apostaram no carisma das estrelas: o governador Arnold Schwarzenegger da Califórnia trouxe seu magnetismo testado nas bilheterias a um comício de Bush em Columbus, enquanto Bruce Springsteen acrescentava mais uma parada em sua turnê pró-Kerry, cantando algumas canções em Miami.

"O negócio é o seguinte", Kerry começou a falar, nessa manhã de sexta-feira em Orlando. "Se vocês acreditam que precisamos de uma nova atitude no Iraque, se você acredita que podemos criar e manter novos trabalhos aqui nos Estados Unidos, melhores que os que estamos perdendo em outros países, se você acredita que precisamos de previdência social a custos acessíveis para todos os americanos, se você acredita nas pesquisas das células-tronco, se você acredita que nossos déficits estão muito altos e que dependemos demais do petróleo do Oriente Médio --aí então eu peço que me acompanhem, porque juntos mudaremos os Estados Unidos".

Mais tarde, em West Palm Beach, ele disse que "essa era a oportunidade de julgar George W. Bush".

Começando o dia na cidade de Manchester, Bush mudou a rotina recente, de sempre contestar o preparo de Kerry para atuar como comandante-em-chefe. Ele nem sequer mencionou o nome do democrata, nem mesmo se referiu a Kerry, como faz sempre, como "meu adversário". Em vez disso, Bush argumentou que ele e a nação, para sempre modificados pelo 11 de setembro, estão unidos numa batalha épica, e que ele teria o direito de levá-la adiante.

"Já aprendi como é difícil enviar moços e moças para a batalha, difícil mesmo quando o motivo é correto", disse Bush. "Fui alertado que o mundo olha em direção aos Estados Unidos buscando liderança, e que é fundamental para um presidente americano ser consistente. Aprendi que um presidente deve basear suas decisões em princípios e convicções básicas, sem se desviar de seu objetivo.

As questões mudam, e os desafios também mudam, a cada dia. As pesquisas sobem e descem, mas as convicções do presidente devem sempre ser consistentes e verdadeiras".

Já na tarde da sexta-feira, os dois candidatos começavam a responder a Osama bin Laden.

"Agora eu quero deixar claro, bem claro --como americanos, estamos todos absolutamente unidos na determinação de caçar e destruir Osama bin Laden e os terroristas", disse o democrata Kerry na pista do aeroporto em West Palm Beach, Flórida, a caminho de Miami em sua terceira escala do dia no Estado.

"Eles são uns bárbaros. E nada irá me demover da intenção de caçar, capturar e matar os terroristas, aonde quer que eles estejam, custe o que custar, é isso".

E Kerry aproveitou para falar do fracasso do governo Bush em capturar o líder terrorista.

Bush também fez rápida aparição diante das câmeras. "Hoje mais cedo fui informado da existência de um video, que agora está sendo analisado pela comunidade da inteligência americana". E Bush afirmou: "Vou deixar algo bem claro: os americanos não serão intimidados, nem influenciados, por um inimigo do nosso país. E eu tenho certeza que o senador Kerry concorda comigo".

Bush completou: "Também quero dizer ao povo americano que estamos em guerra contra esses terroristas, e que tenho confiança na nossa vitória".

Colaboraram Richard W. Stevenson e Elisabeth Bumiller, em Columbus, no Estado de Ohio. Kerry promete que vai matar terrorista; Bush adota tom conciliador Marcelo Godoy

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