UOL Notícias Internacional
 

02/11/2004

Kerry se solta e mostra confiança no último dia

The New York Times
David M. Halbfinger

Em Detroit, Michigan
Agora vai se encerrando sua campanha presidencial de quase dois anos de duração, e ele está na etapa final de viagens antes da eleição, num percurso de 20 horas da Flórida até o Wisconsin, de leste a oeste pelos Grandes Lagos. O senador John Kerry se encontrava no meio do caminho para fazer seu discurso debaixo de chuva na cidade de Milwaukee, quando parou para saudar uma multidão ensopada e destemida.

"Vocês estão aí e parecem maravilhosos, molhados, encasacados e todos aconchegados", ele disse a milhares de democratas do Wisconsin, que sorriam para ele, usando capas impermeáveis e sacos de lixo na cabeça, com cabelos emaranhados e cartazes de Kerry-Edwards agora já desmanchando sobre suas cabeças.

O presidente Bush acabara de fazer um discurso a poucos quarteirões, num ambiente fechado, seco e quentinho, e a carreata de Kerry pôde ser observada do avião presidencial Air Force One, que decolava da cidade enquanto o democrata chegava. E a multidão vista do palanque, na esquina das ruas State e Water --e põe "water" nisso!-- fez com que o senador ficasse repentinamente sentimental, gritando: "Vocês são os melhores!"

Ele depois se dirigiria a Detroit, onde Stevie Wonder iria abrir o comício para ele numa arena lotada de caminhoneiros e metalúrgicos, e depois para Cleveland, onde teria a companhia de Bruce Springsteen. Mas Kerry pareceu mais emocionado em Milwaukee, ao ver a multidão, com seus dedos indicadores apontados para cima, urrando: "Só falta um dia! Só falta um dia!"

Kerry sorriu, captando o entusiasmo: "Inacreditável. Eu digo: podemos estar a apenas um dia da minha eleição, mas eu prometo uma coisa para vocês. Jamais esquecerei esse comício na chuva aqui em Milwaukee. Inacreditáveis, vocês são inacreditáveis!"

De Orlando, na Flórida, para Milwaukee, depois Detroit, Cleveland e Toledo, Ohio, e depois de volta para La Crosse, Wisconsin. Foi assim que Kerry passou as últimas horas de seu último dia antes da eleição que, segundo amigos, ele sonhou disputar a vida inteira.

"Eu ouvi vocês sobre suas lutas, e compartilhei suas esperanças", ele disse à multidão de Milwaukee. "E juntos temos a possibilidade de levar os Estados Unidos adiante, para começar a fazer a diferença nas vidas de tantos milhões de americanos, e no próprio caráter da nação. É isso que está em jogo".

Nesse último dia antes da eleição, ele se cercou da família --as filhas Alexandra e Vanessa ficaram ensopadas junto com ele em Milwaukee, e a irmã de Kerry, Peggy, estava com ele na Flórida.

O estrategista do Partido Democrata, o geralmente evasivo Bob Shrum, disse estar bem convencido de que Kerry iria conquistar a Pensilvânia, e de que o Ohio e a Flórida também estavam se encaminhando para ele.

Quando disseram a Shrum que Karl Rove e outros assessores de Bush estavam contando a história de maneira bem diferente, o estrategista democrata disse: "Eles acreditam que anunciar uma vitória lhes ajuda a vencer". E quando lhe perguntaram se ele não estaria fazendo a mesma coisa, disse: "Eu realmente acredito que iremos vencer".

Kerry pareceu tão à vontade quanto todos ao seu redor, envolvendo as platéias a cada passo, puxando gargalhadas enquanto ironizava a linguagem corporal de Bush nos debates, e se inflamando a cada grito de "Você é o cara, John!" e "Nós amamos você!"

Quando ele disse a milhares de pessoas em Detroit que os três grandes nomes para o atual governo não eram a Ford, a Chrysler e a General Motors (fábricas da cidade), mas sim "Halliburton, Enron e as indústrias farmacêuticas", a multidão vaiou em peso na arena Joe Louis.

"Uau", disse Kerry. "E em vez de vaiar --vocês estão prontos para mudar a situação?" E a platéia deixou claro que o apoiava.

Kerry começou o dia com orações, e foi atraindo votos de boa sorte em cada parada do dia. Depois de assistir à missa numa igreja católica apostólica romana em Orlando, ele ganhou um longo abraço de um amigo de longa data: William Zaladonis, membro de seu esquadrão naval no Vietnam, que já há alguns meses está em campanha para o candidato democrata.

Após um rápido discurso para uma pequena multidão --feito, na verdade, para as câmeras dos noticiários das televisões locais-- Kerry deixou a Flórida pela última vez antes da eleição.

Em Milwaukee, com o boné do time de beisebol Red Sox enterrado na cabeça, Kerry agradeceu ao time Green Bay Packers por ter derrotado os Redskins em Washington no domingo, arriscando uma profecia:

"Em toda eleição presidencial desde 1936, quando os Redskins perdem o presidente em exercício também perde". Milhares de partidários gritaram, e ele então disse: "Eu quero agradecer os Packers e Wisconsin pela ajuda".

E em Detroit, ele pegou um cartaz feito a mão, onde estava escrito "As crianças do Nick escolhem Kerry por 57%", e disse que a pesquisa feita entre as crianças pelo canal a cabo Nickelodeon "nunca errou".

Mas foi mesmo em Milwaukee que Kerry pareceu mais relaxado, com aquele típico humor auto-depreciativo, mais satisfeito e grato por ter feito uma longa jornada, que enfim estava se aproximando do final. E até ameaçou fazer um daqueles seus discursos bem estridentes. Se não fosse pela chuva, ele poderia estar com um olhar meio embaçado.

"Esse é uma espécie de momento mágico, que vivemos nas últimas horas que antecedem um dos dons mais abençoados que temos sobre a face do nosso planeta: nossa democracia; o seu voto. Vocês têm a possibilidade de escolher e de mudar a direção da nossa nação. Amanhã, a escolha de toda uma geração estará lá naquela cédula".

Na rua, Alissa Gonyea, 33 anos, professora num jardim de infância, protegia da chuva seu sobrinho, Connor Erickson, 8 anos.

"Esse é o nosso terceiro comício de Kerry", ela disse, deixando claro que Connor é que é o grande fã de Kerry na família. "Brincando de Halloween, ontem ele se recusou a pedir doces em casas que tinham cartazes pró-Bush. E dizia: 'Eu não quero o doce deles'".

Connor não disse nada, mas sorriu com vontade. Democrata se empolga com uma multidão sob chuva em comício Marcelo Godoy

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