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03/11/2004

Democratas precisam priorizar o interior dos EUA

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
Após a guerra civil que nossa nação acabou de travar, um resultado é claro: a maior prioridade do Partido Democrata deve ser reconectar com o interior americano.

Eu estou escrevendo isto sob tensão na terça-feira, sem saber com precisão os resultados eleitorais. Mas independente de os eleitores de John Kerry estarem agora procurando asilo no exterior, eles deveriam estar se sentindo péssimos pelos milhões de agricultores, operários de fábrica e garçonetes que acabaram votando --agindo completamente contra seus próprios interesses-- em candidatos republicanos.

Um dos grandes sucessos do Partido Republicano ao longo das últimas décadas tem sido persuadir muitos trabalhadores pobres a votarem pela redução de impostos para bilionários. Os democratas ainda são eficazes em questões básicas como saúde, mas eles passam uma imagem em grande parte do país de arrogantes e fora de sintonia no momento em que a discussão passa para valores morais.

"Nos valores morais, eles realmente não são competitivos no interior", notou Mike Johanns, um republicano que é governador do Nebraska. "Esse tipo de postura elitista, da Costa Leste, no partido é devastadora nos Estados do Meio-Oeste e Oeste. É difícil até mesmo para a sobrevivência de candidatos ao Senado, Congresso e até mesmo locais."

No verão, eu estive em casa --por um breve período-- em Yamhill, Oregon, uma área rural, trabalhadora, onde muitas pessoas se beneficiariam das políticas democratas para impostos e saúde. Mas muitas destas pessoas desprezam os democratas como elitistas que se importam mais com as corujas pintadas do que com os lenhadores.

O problema é que o Partido Democrata virou partido de yuppies.

Thomas Frank, autor do melhor livro político do ano, "What's the Matter With Kansas: How Conservatives Won the Heart of America" (o que há de errado com o Kansas: como os conservadores conquistaram o coração da América), disse que os líderes democratas têm sido tão ávidos em conquistar os profissionais suburbanos que perderam contato com a América operária.

"Há um sabor muito classe média alta no liberalismo, e isto toca o cidadão comum de forma errada", disse Frank. Ele notou que os republicanos utilizaram "questões culturalmente poderosas mas isentas de conteúdo" para se conectarem aos eleitores comuns.

Colocando de outra forma, os democratas mascateiam questões, os republicanos vendem valores. Considere estes quatro: Deus, armas, gays, ambientalistas.

Um terço dos americanos são cristãos evangélicos, e muitos deles vêem os democratas como desdenhosos de sua fé. E, francamente, geralmente estão certos. Alguns evangélicos consideram uma vingança derrotar candidatos democratas.

Então há as armas, uma questão tão emotiva que, dois anos atrás, o candidato democrata de Idaho ao Senado, Alan Blinken, se sentiu obrigado a declarar que possuía 24 armas "e uso elas todas". Ainda assim ele perdeu.

Quanto aos gays, esta é uma rara questão que os democratas conseguiram neutralizar em parte, assim como o aborto. A maioria dos americanos reprova o casamento gay, mas apóia algum tipo de união civil (assim como se opõe aos abortos de "nascimento parcial", mas não quer que garotas adolescentes morram devido a abortos com cabines).

Finalmente, os ambientalistas. Quando visitei Idaho, as pessoas ainda estavam furiosas com a proposta de Clinton de introduzir 25 ursos pardos nas matas do Estado. Não vale a pena antagonizar a maioria da população de Idaho por causa de 25 ursos.

"Os republicanos são mais espertos", refletiu o governador de Oregon, Ted Kulongoski, um democrata. "Eles criaram(...) estas questões sociais para fazer com que a população deixe de olhar para o que está acontecendo a ela economicamente."

"O que antes imaginávamos --que as pessoas votariam em seus interesses econômicos-- não é verdadeiro, e os democratas ainda não descobriram como lidar com isto."

Bill Clinton entendeu intuitivamente o desafio, assim como John Edwards também parece, talvez devido a suas origens de classe operária. Mas o partido como um todo está em grande parte em negação.

Para ter apelo junto ao interior americano, os líderes democratas não precisam portar armas nas missas e atirar em ursos no caminho. Mas um começo seria abandonarem suas inibições sobre falar sobre religião e trabalhar mais com grupos religiosos.

Caso contrário, os esforços do Partido Democrata para melhorar as vidas dos americanos da classe trabalhadora a longo prazo serão bloqueados pelas mesmas pessoas que os democratas desejam ajudar. Opositores de Bush não podem desprezar os valores da população George El Khouri Andolfato

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