UOL Notícias Internacional
 

04/11/2004

Defesa de valores morais determinou a reeleição

The New York Times
Todd S. Purdum

Em Nova York
Não foi uma vitória esmagadora, nem um realinhamento, ou sequer um choque sísmico. Mas foi uma vitória decisiva, e só é possível entender a reeleição do presidente Bush, acompanhada da conquista de maiorias republicanas ainda mais amplas em ambas as casas do Congresso, como a mais clara confirmação até o momento de que este é um país de centro-direita --dividido, sim, mas dotado de uma inquestionável maioria unida em torno da sua liderança.

Pesquisas feitas com eleitores que saíam das urnas revelaram que a maioria acreditava que a situação da economia nacional não é muito boa, que as reduções de impostos nada fizeram para melhorar tal situação e que a guerra no Iraque ameaça a segurança nacional.

Mas um quinto dos eleitores disse se preocupar acima de tudo com "valores morais" --uma quantidade igual às do que se preocupam com terrorismo e com a economia-- e oito em cada dez desses eleitores escolheram Bush.

Em outras palavras, enquanto Bush continua sendo uma figura polarizadora em ambas as costas e nas grandes cidades (onde perdeu), ele demonstrou ser uma personalidade de popularidade unânime nos centros geográfico e político do país.

Ele expandiu a sua porção do eleitorado entre mulheres, hispânicos, idosos e até mesmo entre as populações citadinas em relação a 2000, obteve pequenos ganhos entre católicos e judeus e transformou aquilo que na eleição anterior foi uma derrota por 500 mil votos populares em uma vitória por 3,6 milhões de votos na última terça-feira (2/11).

O principal estrategista do presidente, Matthew Dowd, divulgou um comunicado na quarta-feira observando que Bush se tornou agora o primeiro presidente republicano a ser reeleito com maiorias na Câmara e no Senado desde Calvin Coolidge, em 1924, e o primeiro presidente de qualquer partido, desde Franklin D. Roosevelt, em 1936, a ser reeleito obtendo mais cadeiras em ambas as casas parlamentares.

"Creio que há bastante evidência de que o povo norte-americano apóia esse presidente", diz Ralph Reed, um ex-líder da Coalizão Cristã que foi coordenador regional no sudeste da campanha de Bush neste ano.

"Há uma grande parcela de eleitores, não só no sul, mais também no coração do país, que não acha mais que o Partido Democrata fale por eles ou pelos seus valores, e que se constitui em um sério obstáculo aos democratas em uma campanha como a que acabamos de presenciar".

Em capitais estaduais e no Congresso, os republicanos obtiveram ganhos na última terça-feira. Onze propostas estaduais para proibir o casamento gay foram facilmente aprovadas, até mesmo no progressista Estado de Oregon (onde Kerry ganhou), e aparentemente inspiraram o comparecimento maciço às urnas que ajudou Bush.

William Bennett, o ex-secretário da Educação que fez uma cruzada pelos valores morais, observou na National Review Online que foi Ohio, que talvez tenha sido o Estado que mais perdeu empregos sob a administração Bush, que deu ao presidente a vitória no Colégio Eleitoral.

O ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich, que liderou o movimento que resultou em um Congresso Republicano há dez anos, disse: "Creio que todos os principais temas abordados por este presidente se encaixam muito bem em um conceito de uma maioria de centro-direita. Se pensarmos no John Kerry caçador de gansos, no John Kerry coroinha e no John Kerry defensor dos Estados Unidos, dá para entender em um nível profundo que é impossível sair de uma posição de centro-direita e vencer".

Gingrich acrescentou ainda com relação a Kerry: "Creio que ele fez o melhor que podia. Acredito que ele chegou até a superar o seu patamar natural de votação por quatro ou cinco votos. Temos que lhe dar algum crédito".

Durante toda a campanha, o guru político de Bush, Karl Rove, argumentou que, se o presidente fosse capaz de mobilizar os milhões de conservadores e cristãos evangélicos que ficaram em casa quatro anos atrás, ele poderia ganhar, auxiliado também pelas alterações populacionais que acrescentaram votos ao Colégio Eleitoral nos Estados do "Cinturão do Sol" (Estados do sul e sudoeste do país), nos quais o presidente sempre teve um bom desempenho.

O vice-presidente Dick Cheney, ao apresentar Bush em um comício de vitória em Washington na tarde desta quarta-feira, disse que o seu patrão já apresentou uma "presidência de resultados" e que os eleitores se sentiram atraídos pela sua "agenda clara".

Agora, as maiores questões parecem dizer respeito apenas a quais partes dessa agenda Bush decidirá implementar, e quantas brigas vai comprar com os seus adversários liberais ou os seus correligionários conservadores.

Será que Bush irá se mobilizar para criar contas de investimentos privados para o Social Security, uma medida condizente com uma idéia que ele defendeu pela primeira vez há quatro anos?

Ele vai gratificar os ideólogos do livre mercado, frustrando os conservadores fiscais que se preocupam com quanto ele pagaria pelo plano, e atormentando os políticos que temem tocar em uma questão tão polêmica? Será que ele vai comprar brigas ao nomear juízes antiaborto, ou exercer pressões para a adoção de uma emenda constitucional proibindo o casamento de pessoas do mesmo sexo?

Na quarta-feira, Bush divulgou uma nota conciliatória. "Um novo mandato é uma nova oportunidade para alcançar toda a nação", afirmou. "Temos um país, uma constituição, e um futuro que nos unem". A filha de Cheney, Mary, e a sua namorada de longa data, Heather Poe, apareceram juntas no comício da vitória.

O poder de um presidente em segundo mandato tende a se dissipar rapidamente e Bush será limitado logo no início devido ao fato de carecer de cinco votos republicanos para alcançar os 60 necessários no Senado para impedir iniciativas democratas de adiar as votações.

O senador Arlen Specter, o republicano da Pensilvânia que deve liderar o comitê judiciário, advertiu Bush na quarta-feira para que não nomeie juízes "que retirem o direito de as mulheres decidirem, alterando a decisão da Suprema Corte, de 1973, sobre o aborto".

James A. Thurber, diretor do Centro de Estudos Congressuais e Presidenciais da American University, observa: "Apesar de todos os ganhos dos republicanos, a outra história é que a nação está paralisada, especialmente no Senado, quanto a saber quais são as questões mais importantes e como lidar com elas".

Mas Grover R. Norquist, presidente do grupo conservador Americans for Tax Reform, diz que o Partido Republicano não é mais aquilo que era há 25 ou 30 anos: "Um grupo de pessoas concorrendo por conta própria".

Ele acrescenta: "Ao invés disso, existe hoje no partido uma visão coerente, e em grande parte os eleitores são capazes de dizer que os republicanos não vão elevar os impostos, promover reformas injustas ou o livre comércio". Ele diz que se não fosse pela guerra no Iraque, Bush provavelmente teria vencido por uma maioria mais ampla.

Democratas arrasados

Bush se tornou o primeiro candidato presidencial a obter mais de 50% dos votos populares desde que o seu pai conseguiu a mesma façanha em 1988. E ele recebeu uma porcentagem de votos populares mais elevada do que a de qualquer outro candidato democrata desde Lyndon B. Johnson em 1964.

Todos esses números são arrasadores para os democratas. No início da campanha, Kerry atraiu críticas ao afirmar em voz alta que os democratas seriam capazes de conquistar a Casa Branca sem os votos do sul.

Mas, apesar de toda a sua esperança de que o sudoeste pudesse ser o seu novo reduto eleitoral, os democratas tiveram que encarar o fato de que nos últimos 28 anos, só Jimmy Carter e Bill Clinton, entre os candidatos democratas, realizaram tal proeza, e ambos contavam com apoio sulista e evangélico. Kerry, que é católico, se empenhou com freqüência durante a campanha para falar da sua fé ao eleitorado.

"Bill Clinton e Jimmy Carter se elegeram porque se sentiam confortáveis com sua fé", diz o ex-assessor de Clinton, o deputado Rahm Emanuel, de Illinois, um ex-assessor de Clinton.

"O que aconteceu foi que uma parte do eleitorado se abriu para aquilo que Clinton e Carter tinham a dizer sobre tudo o mais --saúde, meio-ambiente, e outras questões-- porque acreditavam que Clinton e Carter não apenas não desdenhavam do seu estilo de vida, como o respeitavam".

Ele acrescentou: "Precisamos de um candidato e de um partido que não tenham problemas com fé e valores. E se contarmos com tal candidato, então todo o trabalho intenso que tivemos para implementar o Social Security, para melhorar a posição dos Estados Unidos no mundo, ou para elevar o nível da educação superior será reconhecido. Mas o povo não vai ouvir o que temos a dizer até que saiba que não o abordaremos como Margaret Mead o faria em uma experiência antropológica". Com discurso conservador, George Bush atraiu milhões de eleitores Danilo Fonseca

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