UOL Notícias Internacional
 

04/11/2004

Reeleição de Bush provoca resignação no mundo

The New York Times
Patrick E. Tyler

Em Londres
Foi uma corrida pela qual o resto do mundo se interessou enormemente. E à medida que a contagem dos votos presidenciais se inclinava cada vez mais em direção a Bush, líderes, diplomatas e cidadãos de todo o mundo reagiam com um misto de desapontamento ou resignação. E também algum elogio.

Alguns analistas olharam atentamente para o cenário doméstico para entender o impacto potencial de um segundo mandato de Bush, enquanto outros fizeram uma avaliação mais ampla, concentrando-se nas conseqüências da reeleição para a segurança global e a estabilidade econômica.

E houve questões espinhosas, relativas à superação de relações abaladas com o primeiro mandato de Bush, especialmente na França e na Alemanha, onde muita gente se perguntava se é possível haver uma retomada das boas relações entre os líderes da Europa e dos Estados Unidos após os desentendimentos quanto à guerra no Iraque.

A primeira reação da França, nesta quarta-feira (3/11), foi: Oui, é possível.

Mas havia também uma ansiedade extrema no ar.

Na Turquia, empresários se preocupavam com a possibilidade de que a reeleição de Bush disseminasse instabilidade nas fronteiras do país com o Iraque e o Irã.

Na China, alguns analistas se perguntavam se a política dos Estados Unidos poderia encorajar o movimento de independência em Taiwan por meio da venda de armamentos, enquanto que autoridades japonesas e sul-coreanas questionavam como Bush agiria no próximo confronto relativo ao programa de armas nucleares da Coréia do Norte.

Michael Muller, vice-diretor do grupo União Social Democrata na legislatura federal alemã, disse que os norte-americanos colocaram de volta um "fundamentalista" na Casa Branca e que isso "não é bom nem para o mundo nem para a democracia dos Estados Unidos".

Políticos e analistas independentes se sentiram compelidos a oferecer conselhos não solicitados --das esquinas das ruas, parlamentos e palácios-- sobre como um segundo mandato de Bush poderia ser mais efetivo com relação à política externa, ao fortalecer as relações de trabalho dos Estados Unidos com seus aliados e, no Oriente Médio, ao possibilitar o cumprimento de uma antiga promessa de pressionar para que haja um acordo permanente de paz entre israelenses e palestinos.

Charles Grant, diretor do Centro pela Reforma Européia, um grupo não partidário, disse em uma carta aberta a Bush: "Os seus melhores aliados potenciais são os europeus e já é hora de fazer as pazes com eles".

Ele pediu a Bush que desistisse da idéia de dividir o continente entre a "nova" e a "velha" Europa a fim de enfraquecer o poder europeu, e reclamou: "A Europa geralmente ficará do seu lado, ajudando a resolver os problemas mundiais, já que a maior parte dos interesses e valores fundamentais dos europeus é similar aos seus".

Pat Cox, o diplomata irlandês que renunciou ao cargo de presidente do Parlamento europeu no outono passado, disse: "Os líderes europeus precisam viver no mundo real da reeleição de Bush".

Mas ele acrescentou que o estilo Bush de governar criou "fissuras" na Europa que persistirão durante o segundo mandato do presidente e perpetuarão a "tensão subjacente na dinâmica européia".

Muitos estrangeiros questionam se Bush ajustará as suas estratégias agora que não está mais acossado pelas pressões para ser reeleito.

Giuliano Gerrara, um proeminente comentarista conservador e editor do diário italiano "Il Foglio", chamou isso de "a lógica do segundo mandato", significando que Bush pode, em um segundo mandato, se dar ao luxo de assumir riscos políticos e de firmar compromissos.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Tony Blair, o maior aliado internacional do presidente, não teceu comentários até Bush fazer o seu discurso de vitória em Washington.

Mas, em uma sessão no Parlamento, Blair já sofreu pressões de membros do Partido Trabalhista --que está no poder-- para exercer maior influência sobre Bush para que haja uma intervenção equilibrada e resoluta pela paz entre israelenses e palestinos.

Segundo eles, tal passo ajudará a reduzir o nível crescente de raiva e alienação que, segundo vários especialistas, está alimentando o terrorismo.

Em resposta, Blair disse que ele e Bush "compartilham uma visão clara" segundo a qual os atuais planos israelenses para a retirada de tropas e colonos israelenses da Faixa de Gaza são apenas um "primeiro passo" que será seguido por outros, que conduzirão a negociações com o objetivo de possibilitar que se chegue a um acordo final.

Mas ele não disse quando pressionará Bush para que este estimule a implementação de tais medidas.

Antes mesmo de o senador John Kerry admitir a derrota na quarta-feira, alguns líderes estrangeiros pensavam em voz alta na perspectiva de ter Bush por mais quatro anos no timão da superpotência norte-americana.

"Se Bush vencer, ficarei satisfeito com o fato de o povo norte-americano não se ter deixado intimidar por terroristas e tomado uma decisão apropriada", disse Vladimir V. Putin, o presidente russo que se tornou um aliado notavelmente ligado a Bush, apesar das diferenças quanto à guerra no Iraque e à venda de tecnologia de reatores nucleares da Rússia para o Irã.

O primeiro-ministro conservador da Itália, Silvio Berlusconi, que estava visitando Putin no Kremlin, pareceu ver justificado o seu forte apoio a Bush.

"A continuidade de Bush na política norte-americana torna as coisas mais fáceis para nós", disse ele, acrescentando que a Itália está esperando ver um líder norte-americano que "continue com a política de atribuir aos Estados Unidos o papel de defensor e promotor da liberdade e da democracia".

Europa

Para a Europa, que durante o primeiro mandato de Bush se transformou em um campo de batalha ideológica quanto à predominância norte-americana no que diz respeito ao estabelecimento da agenda internacional, ao papel da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e de instituições como o Tribunal Criminal Internacional, a questão imediata era saber se as velhas desavenças poderão ser colocadas de lado.

O ministro das Relações Exteriores francês, Michel Barnier, indicou que a França está pronta para um "novo cenário".

"Vamos trabalhar com a nova administração dos Estados Unidos", disse ele. "Temos muito a fazer a respeito das crises atuais --no Iraque, no Oriente Médio, no Irã, e no continente africano-- e da renovação do relacionamento transatlântico".

O ministro alemão do Interior, Otto Schily, disse que o Iraque é a única tarefa crítica pela frente. "Apesar das nossas posturas diferentes no passado, temos todos que contribuir para garantir que a situação no Iraque se estabilize", disse ele.

Na Polônia, cujo governo enviou tropas ao Iraque para apoiar os Estados Unidos, o presidente Aleksander Kwasniewski disse que Bush "é um líder bastante decisivo que está certo, simplesmente certo" na campanha antiterrorista. Ele acrescentou que a reeleição de Bush foi "uma notícia realmente boa".

Ásia

No Japão, onde o primeiro-ministro Junichiro Koizumi e os líderes do situacionista Partido Democrata Liberal declararam apoio a Bush antes da eleição da terça-feira nos Estados Unidos, muitos japoneses sentiram que se beneficiarão do fato de terem apoiado o vencedor.

"Creio que Bush é melhor para o Japão porque ele é amigo de Koizumi, e o Japão está mais bem protegido pelos Estados Unidos, incluindo no que se refere à forma como conteremos a Coréia do Norte", disse Kiyoko Okaeada, enquanto esperava o seu ônibus em Yokohama.

Mas a dona de casa de 80 anos acrescentou: "Já é hora de os Estados Unidos adotarem uma via pacífica nas relações internacionais. Sinto isso especialmente porque me recordo da guerra. Eu me oponho completamente à guerra", disse ela.

Na vizinha Coréia do Sul, Yun Kuk-min, professor de relações internacionais, observou que na sua campanha antiterrorista Bush deve enfatizar mais o combate às causas primárias do terror.

"A criação de um clima de paz e estabilidade é algo que não pode ser feito apenas pelos Estados Unidos. É preciso haver cooperação internacional", afirmou. Resultado da eleição também desperta alguns elogios a americanos Danilo Fonseca

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