UOL Notícias Internacional
 

05/11/2004

Democratas não sabem o que fazer com os EUA

The New York Times
Andrei Cherny*

Especial para o NYTimes

Em Washington
Na última quarta-feira pela manhã, ao acordarem, democratas de todo o país se depararam com uma situação que não experimentavam desde um período anterior ao New Deal (política econômica implementada em 1933 por Franklin D. Roosevelt): agora, sem dúvida, somos um partido minoritário.

Não temos a presidência. Estamos em desvantagem numérica no Senado, na Câmara, nos governos estaduais e nas assembléias legislativas. E a maioria conservadora na Corte Suprema parece estar cristalizada por uma geração inteira. Esse é claramente um momento que exige séria reflexão.

Tive a honra de trabalhar para Al Gore e John Kerry. Acredito que os Estados Unidos teriam sido afortunados se eles ocupassem o Salão Oval. O fato de nenhum dos dois ter ganhado não consiste primariamente em um depoimento negativo sobre eles.

Suas derrotas não foram resultado de erros, ataques e táticas pelos quais os doutos se sentem eternamente fascinados. São apontados como grandes erros os suspiros de Al Gore nos debates em 2000 e a demora de Kerry para responder aos ataques dos veteranos das lanchas combate em agosto deste ano. Também se critica a ausência de Bill Clinton das campanhas e a maneira como o partido lidou com as controvérsias envolvendo Elián Gonzalez e Mary Cheney.

Qualquer período que os democratas dedicarem nas próximas semanas à discussão dos méritos dos nossos candidatos passados ou das suas equipes de campanha será tempo perdido.

O principal problema que atualmente envolve os democratas é a falta de uma noção clara daquilo que o partido defende. Durante anos essa foi uma fonte de irritação para ativistas. E durante o período em que trabalhei para Gore e Kerry, isso certamente fez com que eu me sentisse incapacitado.

Os democratas possuem uma coletânea de posições políticas que são coerentes e corretas. Kerry deixou isso bem claro. Mas o que não temos, e do que precisamos bastante, é aquilo que o presidente George H.W. Bush ridicularizou, em episódio tão famoso, como sendo "a coisa visionária" --uma visão de mundo que se traduza em argumento temático sobre a direção para o qual os Estados Unidos se dirigem e para onde queremos conduzir o país.

Durante a maior parte do século 20, os democratas apresentaram uma visão arrojada: usaríamos programas governamentais para tornar as vidas dos norte-americanos mais estáveis e seguras. Em 1996, o presidente Clinton nos disse que essa era havia passado, que "a era do grande governo acabou". Ele estava certo --o mundo mudou. Mas o partido não respondeu à questão básica: o que vem depois?

Esse não é o tipo de pergunta que é respondida no calor de uma eleição nacional. Uma campanha presidencial dá a sensação de se estar correndo a toda velocidade em uma corda bamba. Se o indivíduo estiver trabalhando na sua mensagem, ele passará os dias sentado em mesas de conferências, em salas mal iluminadas, rodeado de caixas vazias de pizza, norteado pelos ponteiros do relógio que indicam um outro dia e um outro discurso.

Esse também não é o local para se elaborar uma nova direção temática para o partido. O que se produz nesse ambiente são ironias e críticas, slogans e ataques, além de material propagandístico testado nas pesquisas.

A imprensa também parece supervalorizar aquilo que as mudanças de equipes podem fazer dentro de uma campanha. Muito se falou a respeito dos relatórios do tipo "quem está dentro, quem está fora" sobre a equipe de Kerry, e os repórteres criaram matérias sobre uma suposta "mudança para o centro" ou uma "guinada para a esquerda".

Embora novos assessores possam alterar táticas e formar novas mensagens, os esforços de sua parte para criar uma visão mais ampla fracassarão. Isso precisa ocorrer bem antes das primárias --e exige que o partido saiba para onde está indo.

No decorrer da campanha, os eleitores disseram a jornalistas e entrevistadores responsáveis por pesquisas de opinião que queriam uma mudança, mas que não sabiam "o que Kerry defendia". A nossa resposta foi produzir automaticamente mais discursos sublinhando os detalhes das políticas que seriam, a seguir, anunciadas por Kerry.

É claro que a realidade demonstrou que os norte-americanos não estavam muito interessados nas promessas de campanha de Kerry --talvez porque eles não acreditem mais que os políticos cumpram as suas promessas. Ao invés disso, os eleitores desejavam saber como o candidato via o mundo. E nós jamais lhes fornecemos tal resposta.

Por mais equivocados que possam estar, os republicanos possuem uma visão nítida do futuro dos Estados Unidos. Confrontados com a sua agenda ambiciosa, não decidimos fazer frente a ela.

Ao invés disso, adotamos o velho lema antidrogas de Nancy Reagan, "Simplesmente Diga Não". Assim como "Parem o Ataque de George Bush ao Meio-Ambiente", "Repudiem as Reduções de Impostos de George Bush para os Ricos" e "Acabem com a Política Unilateral de George Bush".

São frases boas. Mas não são suficientes. E os republicanos acabaram definindo John Kerry porque nós não o fizemos.

Eu não tenho a pretensão de saber exatamente o que o partido deve fazer agora. Mas sei que é melhor começar a responder a algumas questões importantes. Qual é a nossa visão econômica em um mundo globalizado?

Como respondemos ao desejo de muitos norte-americanos de fazer escolhas e contar com poder de decisão próprio? Como atendermos aos anseios morais e espirituais dos norte-americanos? Como a nossa visão de segurança nacional pode ser mais ampla do que uma simples crítica à política externa republicana?

Se varrermos essas questões para debaixo do tapete, daqui a quatro anos um outro grupo de pessoas em torno de uma outra mesa de conferência estará lutando com os mesmos problemas que tentamos resolver. E os Estados Unidos não podem suportar o mesmo resultado.

Bem depois da meia-noite, em novembro de 2000, fiquei parado na chuva, em Nashville, e ouvi o chefe da campanha de Gore, William Daley, nos dizer que não haveria um discurso da vitória. Na última quarta-feira, fiquei parado na chuva, em Boston, ouvindo John Edwards nos dizer a mesma coisa. Estou cansado de ficar parado na chuva.

*Andrei Cherny é autor de "The Next Deal", foi diretor de redação de discursos e assessor político especial de John Kerry de fevereiro de 2003 a abril de 2004. Partido erra ao não formular uma alternativa clara aos republicanos Danilo Fonseca

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