UOL Notícias Internacional
 

05/11/2004

Estrategista de Bush conduzirá ações do governo

The New York Times
Todd S. Purdum* e

David D. Kirkpatrick

Em Washington
A vitória pode ter milhares de pais, mas se o triunfo do presidente Bush nesta semana teve um Grande Pai, ele é sem dúvida Karl Rove --o vidente, estrategista e sério estudante de política e presidência ao qual o próprio e agradecido Bush se referiu como arquiteto de sua campanha vitoriosa.

E com a reeleição de Bush, Rove não apenas consolidou sua reputação como um dos mais astutos gurus de campanha em uma geração, mas também colocou a si mesmo na posição de moldar as políticas de segundo mandato, que poderão ajudar a concretizar sua antiga meta de consolidar uma ampla maioria eleitoral republicana por toda uma geração.

"Ele é um mestre do jogo", disse com respeito uma rival democrata, Donna Brazile, que cuidou da campanha de Al Gore em 2000.

Mark McKinnon, o especialista-chefe de mídia de Bush, disse simplesmente: "Karl está à altura de sua ficção. Eu acho que as pessoas tendem a atribuir muita sabedoria e genialidade a Karl, e grande parte disto é verdade".

Ao longo dos últimos quatro anos, Rove tornou a si mesmo o rosto do esforço da Casa Branca para atrair os protestantes evangélicos e outras "pessoas de fé", que podem ter ajudado a conduzir Bush à vitória na terça-feira. Líderes conservadores disseram que ele foi infalivelmente atencioso a suas preocupações e queixas, mesmo nos febris dias e semanas finais de campanha, no qual ele contava em atrair até as urnas um grande número de simpatizantes do presidente.

"Eu enviei a ele um e-mail às 5h da manhã de domingo, e ele me respondeu às 7h30", disse Paul Weyrich, fundador do movimento conservador moderno e presidente do Fundação Congresso Livre. "Ele nunca deixou de responder, mesmo quando estava no Força Aérea Um. Eu recebia respostas dele mais rapidamente do que do meu próprio pessoal."

Para grande parte da imprensa e do público, a mão de Rove tem sido mais sentida do que vista. Isto não valeu nesta quinta-feira (4/11), quando ele jovialmente fez caretas para a câmera pouco antes de Bush iniciar sua coletiva de imprensa na Casa Branca, aparecendo atrás do correspondente da CNN na Casa Branca, John King, que estava transmitindo ao vivo e se virou para perguntar: "Vejam, Karl Rove, ele não está orgulhoso como um pavão?"

No final do dia Rove não falava mais, mas o consenso era de que ele tinha o direito de se orgulhar. Bill McInturff, um pesquisador republicano veterano, notou que, quando ele começou a trabalhar na política republicana em 1980, "nós estávamos 14 pontos percentuais abaixo dos democratas em identificação partidária entre os eleitores, a minoria das minorias".

Agora, disse McInturff, "nós temos maiorias estáveis na Câmara e no Senado, a maioria dos governadores e a presidência americana pelo segundo mandato. É hora de declarar vitória e ir para casa? Não, mas esta seria uma transformação inimaginável em uma geração quando Ronald Reagan foi eleito pela primeira vez".

Diferente de James Carville, que ajudou a eleger Bill Clinton, ou Lee Atwater, que foi o conselheiro político do primeiro presidente Bush, Rove trabalha na Casa Branca como assistente do presidente, e como chefe de fato da política doméstica. Presume-se que sua influência se estenda a decisões políticas grandes e pequenas, seja redução de impostos ou sobretaxas sobre o aço, pesquisa de célula-tronco ou investimento em contas privadas para o Seguro Social.

Ele é o mentor por trás das filosofias de campanha e governo que estabelecem uma série de políticas centrais a serviço da política partidária de forma incomumente direta. Alguns elementos nesta abordagem são de tom e simbólicos, enquanto outros --como a redução de impostos sobre dividendos ou o benefício de medicamentos prescritos para o Medicare-- são mais concretos.

"Nós precisamos reunir soluções reais, práticas, para sua vida", disse o ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich, ele mesmo um personagem importante na consolidação do poder republicano. "De forma que você acredita que somos a maioria de governo certa porque estamos lhe dando o que você deseja."

William Kristol, o editor do "The Weekly Standard", disse que o feito singular de Rove não foi apenas mobilizar a base conservadora republicana, mas reconhecer que temas geralmente considerados socialmente conservadores poderiam também atrair os eleitores independentes, como os católicos e os latinos, que podem gostar dos programas de bem-estar social, mas são muito mais contrários ao aborto e ao casamento gay.

"Os eleitores independentes não são eleitores socialmente moderados", disse ele. "Os eleitores independentes são eleitores em conflito."

Base estreita

O modelo de Rove é Mark Hanna, o prócer político de Ohio que ajudou o republicano William McKinley a chegar à Casa Branca em 1896 --e a estabelecer o domínio republicano em Washington até o New Deal (excetuando-se os mandatos de Woodrow Wilson, de 1913 a 1920)-- indo além das grandes empresas, a base natural do partido, e buscando ter apelo junto aos imigrantes do Nordeste e Meio-Oeste e aos moradores das cidades, que tinham medo da agitação trabalhista e estavam alienados pelo democratas agrários da época.

Uma biógrafa de McKinley, Margaret Leech, escreveu que Hanna, "cínico em sua aceitação das práticas políticas contemporâneas", foi "atraído pelos idealismos de McKinley como um homem calejado do mundo que se torna apaixonado pela inocência virginal". Rove conhece o presidente há mais de 30 anos, e associados detectam uma dinâmica semelhante em ação.

O dr. Richard Land, presidente da Comissão de Liberdade e Ética da Convenção Batista do Sul, conheceu Rove no final dos anos 70, quando ambos estavam buscando reviver o Partido Republicano do Texas, Land como oponente ao aborto e Rove como consultor político e especialista em mala direta. Rove não aparentava beber e nem falava palavrão, disse Land, mas ele também não parecia particularmente interessado em religião.

"Eu acho que o presidente teve mais impacto em Karl Rove do que Karl Rove influenciou o presidente", disse Land. "Karl está muito mais sério sobre assuntos de fé do que quando eu o conheci, e eu acho que isto se deve a George W. Bush."

Enquanto Rove presidia no fim de semana as reuniões do comando de campanha à base de bacon e ovos preparados em sua casa, no noroeste de Washington, ele foi cuidadoso --como Hanna-- em dar pleno crédito ao seu chefe por conceber a estratégia vencedora.

"O presidente disse em dezembro de 2002 que não queria cometer o erro que os presidentes em exercício sempre cometem facilmente, que é levantar dinheiro, fazer as propagandas de TV e voar por todo o país no grande pássaro azul", disse Rove em um conversa por telefone, na quarta-feira. "Ele disse que nós vencemos em 2000 e 2002 porque contamos com a energia de nossos voluntários por todo o país."

Foi Rove quem propôs inserir Bush nas disputas pelo Congresso dois anos atrás, medida que produziu ganhos significativos de meio de mandato. Foi Rove e seus colegas Mark Mehlman e Matthew Dowd que conceberam esta estratégia para a eleição geral, e organizaram uma rede de 1,4 milhão de voluntários para atrair os eleitores republicanos em campos de batalha cruciais na terça-feira.

As metas de Rove incluíam vencer decisivamente no voto popular, aumentando as maiorias republicanas no Congresso, e aumentar a participação de Bush no voto dos eleitores católicos, hispânicos e negros. Ele conseguiu todas menos a última, apesar dos esforços agressivos e parcialmente bem-sucedidos dos democratas de ampliar o comparecimento do eleitor.

Alguns republicanos --incluindo alguns dentro do círculo de Bush que só falaram na condição de anonimato por temerem enfurecer Rove-- expressaram preocupação de que Rove corre o risco de alienar os moderados ao apelar tão fortemente à base conservadora do presidente em questões como casamento gay e aborto. Rove rejeita a idéia de que o apelo do presidente é tão estreito.

"Cinqüenta e oito milhões de pessoas", disse ele, se referindo ao total de votos que Bush obteve na terça-feira. "Em 1996, Bill Clinton conseguiu 47 milhões de votos. Al Gore conseguiu 50 milhões. Este presidente conseguiu 58 milhões. Agora, você está sugerindo que conseguimos isto tendo apelo junto a uma base muito pequena, estreita?"

Futuro

Rove é uma fonte de paralelos históricos, contagens de votos por distrito e grandes idéias, assim como é avesso a suportar idiotices, dissensão ou deslealdade. Weyrich disse que Rove lhe telefonou pessoalmente para repreendê-lo por ter criticado publicamente o número de moderados programados para falar na Convenção Nacional Republicana neste verão, e Weyrich retirou posteriormente tal crítica.

"Ele é um homem cristão, mas ele é o que chamo de cristão severo", disse o dr. Jerry Falwell, fundador da Maioria Moral. "Eu já o escutei ao telefone falando com alguns homens poderosos e explicando a eles como as vacas comem milho", o que Falwell descreveu como "uma forma sulista de dizer 'não faça isto de novo'".

Há quatro anos, quando ele falou na criação de um "realinhamento" republicano no governo em todos os níveis, Rove não tinha idéia de que os ataques de 11 de setembro e as guerras no Afeganistão e no Iraque iriam transformar Bush em um presidente de tempo de guerra, com os fardos pesados e os grandes compromissos em política externa que prejudicaram seus índices de aprovação e limitaram sua atenção aos problemas domésticos.

Mesmo agora, Rove terá que esperar por um grau maior de estabilidade no Iraque para que Bush possa buscar suas propostas ambiciosas, mas ainda apenas esboçadas, de reforma do código tributário e do Seguro Social. Em breve, as eleições de meio de mandato limitarão as opções políticas de Bush e terá início a disputa entre os candidatos republicanos pela Casa Branca em 2008.

Tais candidatos incluem o amigo de Rove, o senador Bill Frist do Tennessee, o líder da maioria. Mas mesmo se um novato contar com sua musa para ocupar o papel de Rove, Grover R. Norquist, o presidente do conservador Americanos pela Reforma Tributária, disse que "a musa e o candidato seriam sábios em passar o máximo de tempo proveitoso que Karl puder passar com eles."

*Com reportagem de David D. Kirkpatrick e Elisabeth Bumille, de Washington, e Todd S. Purdum, de Nova York. Karl Rove seguirá à frente do projeto de expansão dos republicanos George El Khouri Andolfato

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