UOL Notícias Internacional
 

05/11/2004

Reeleição é vitória do fundamentalismo alienado

The New York Times
Thomas L. Friedman

Colunista do NYTimes
Bem, como vovó costumava dizer, pelo menos eu ainda tenho a minha saúde.

Eu sempre começo a escrever minhas colunas me entrevistando. E foi o que eu fiz nesta quarta-feira (3/11), me perguntando: Por que será que eu não me senti totalmente deprimido depois que George H.W. Bush, o pai, derrotou Michael Dukakis em 1988, ou mesmo quando George W. Bush, o filho, suplantou Al Gore em 2000? Por que eu acordei nessa quarta-feira profundamente arrasado?

Resposta: Fossem quais fossem as diferenças que eu tivesse em relação ao Bush mais velho, se tratava de questões sobre quais eram as políticas mais corretas. E, no final das contas, eu acabei admirando muita coisa que ele fez.

E quando George W. Bush foi eleito há quatro anos sob a plataforma do conservadorismo com compaixão, após ter concorrido como um candidato moderado, eu achei que o mesmo fosse acontecer com o filho. (Estava errado.)

O que me perturbou na quarta-feira foi a sensação de que essa eleição foi decidida porque houve muito apoio a George Bush de pessoas que não apenas acreditam em políticas diferentes das minhas --eles acreditam numa nação totalmente diferente daquela em que acredito. Nós não discordamos apenas sobre o que os Estados Unidos deveriam estar fazendo; discordamos sobre o que os Estados Unidos são.

Será que é um país que não se intromete nas preferências sexuais das pessoas e no tipo de uniões matrimoniais que elas querem fazer? Será que é um país que permite a uma mulher ter o controle sobre o seu próprio corpo? Será que é um país onde a linha que divide a Igreja e o Estado, que nos foi legada pelos Fundadores da Nação, deve ser atravessada? Será que é um país onde a religião não embarga a ciência? E, o mais importante, será que é um país cujo presidente mobiliza suas profundas energias morais para nos unir --em vez de nos dividir e nos separar do mundo?

Num certo nível, essa foi uma eleição sobre o nada. Nenhum dos problemas reais que afligem a nação foram realmente discutidos. Mas num outro nível, e sem nenhum aviso prévio, na verdade se tornou uma eleição sobre tudo. Em parte porque há muitas vagas na Suprema Corte que agora serão preenchidas. E em parte porque havia tanta pressão da base de Bush para legislar sobre questões sociais e estender os limites da religião que parecia que estávamos reeescrevendo a constituição, e não elegendo um presidente. Senti que, quando me registrei para votar, a Convenção Constitucional é que estava em questão.

Os resultados da eleição confirmam essa impressão. Apesar de um desempenho de guerra absolutamente incompetente no Iraque e da economia estagnada, Bush manteve o domínio básico sobre os mesmos Estados onde ele havia vencido há quatro anos --como se nada tivesse acontecido. Parecia até que as pessoas não estavam votando no desempenho dele. Parecia que estavam votando no time deles.

Essa não foi uma eleição. Foi uma identificação ou reconhecimento de canal. Aposto qualquer coisa que, se as cédulas eleitorais não tivessem os nomes de Bush e Kerry mas simplesmente perguntassem: "Você assiste à TV Fox [que apóia os republicanos] ou lê o jornal The New York Times [aliado dos democratas]?", o Colégio Eleitoral teria o mesmo resultado.

Meu problema com os fundamentalistas cristãos que apóiam Bush não tem a ver com a energia espiritual ou com o fato de que eu professo uma fé diferente da deles. O problema é a maneira com que ele e eles usaram essa energia religiosa para promover divisões e intolerância em casa e no exterior. Eu respeito essa energia moral, mas gostaria que os democratas encontrassem uma maneira de reverter esse processo.

"Os democratas cederam aos republicanos o monopólio das fontes morais e espirituais da política americana", observou o cientista político da Universidade Harvard, Michael J. Sandel.

"Eles jamais se recuperarão como um partido até que voltem a ter candidatos que possam atender a esses anseios morais e espirituais --e a convertê-los em objetivos progressistas, no que diz respeito à política doméstica e aos assuntos estrangeiros."

Eu sempre obedeci a uma regra simples em termos de política: Nunca se coloque numa posição em que seu partido vença apenas se o seu país fracassar. Esta coluna absolutamente não irá "secar" George Bush e desejar que fracasse para que os democratas possam voltar.

Se os democratas voltarem, não será por "default", porque o país caiu num caos generalizado, mas porque indicaram um candidato que possa ganhar com uma mensagem positiva, que se conecte com o "coração da América".

Enquanto isso, muitos acreditam que Bush agora tem um mandato por conta de suas políticas de extrema-direita. Sim, ele tem um novo mandato, mas ele também tem um compromisso --um compromisso com a história.

Se Bush puder salvar a guerra no Iraque, puder forjar uma solução para lidar com nossa crise dos títulos --o que só poderá ser feito com uma abordagem bipartidária e com uma política fiscal mais sadia-- se ele aumentar a competitividade dos Estados Unidos, evitar a política nuclear do Irã, e produzir uma solução para nossa crise de energia, a história dirá que ele usou seu mandato com grande eficácia.

Mas, se ele ainda empurrar mais cortes nos impostos e falhar em resolver nossos problemas reais, seu compromisso com a história será bem desagradável --não importa qual mandato ele tenha. Direita religiosa prefere impor regra na vida privada a ver realidade Marcelo Godoy

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