UOL Notícias Internacional
 

05/11/2004

Só retorno ao populismo pode salvar democratas

The New York Times
Thomas Frank*

Especial para o NYTimes

Em Washington
A primeira coisa que os democratas devem tentar entender enquanto olham para as ruínas fumegantes da eleição é o poder ainda existente das guerras culturais.

Trinta e seis anos atrás, o presidente Richard Nixon defendeu uma nobre "maioria silenciosa" enquanto seu vice-presidente, Spiro Agnew, acusava os liberais de distorcerem as notícias. Em quase toda a eleição desde então, o liberalismo tem sido vilificado como uma afetação de classe alta, como uma traição, como queimadora de bandeira.

Neste ano os eleitores colocaram "valores morais" como um tema mais importante do que a economia e até mesmo a guerra no Iraque.

Mesmo assim, os democratas ainda não possuem uma base coerente para enfrentar esta queixa crônica, muito menos entendê-la. Em vez disso, eles "triangulam", eles acomodam, eles se declaram convertidos à religião republicana do mercado, eles descartam a Área de Livre Comércio das Américas e a reforma do bem-estar social, eles tentam ser mais linhas-duras do que os militaristas republicanos. E perdem. E perdem de novo.

Enquanto isso, na América Vermelha [Estados republicanos], a revolta populista de direita continua a passo acelerado, sua fúria contra a "elite liberal" não reduzida pelos gestos conciliatórios dos democratas ou pela passagem do tempo.

Como muitos destes movimentos, esta revolta conservadora de longa duração está repleta de contradições. É um levante das pessoas comuns cujo efeito econômico de longo prazo tem sido aumentar a riqueza dos já ricos e degradar as vidas das mesmas pessoas que estão se rebelando.

É uma reação contra a cultura de massa que se recusa a questionar as instituições básicas da América corporativa que tornam a cultura de massa o que ela é. É uma revolução que planeja derrubar os aristocratas reduzindo seus impostos.

Ainda assim, o poder da revolta conservadora é inegável. Ela apresenta uma forma de falar sobre a vida na qual todos nós somos vítimas de uma classe superior arrogante --"os liberais"-- que faz nossos filmes, publica nossos jornais, ensina nossos filhos e julga nos tribunais. Estes liberais geralmente nos dizem como viver nossas vidas, sem qualquer consideração por nossos valores ou tradições.

As guerras culturais, em outras palavras, são uma forma de abordar o sempre poderoso tema da classe social. Elas são uma forma de os republicanos falarem em nome do homem esquecido sem causar qualquer problema para sua base eleitoral das grandes empresas.

E contra esta filosofia militante, magoada e barulhenta, os democratas optaram utilizar o quê?

Seu habitual centrismo brando, criar espaço para este eleitorado e, cuidando para não antagonizar ninguém, se recusando até mesmo a criticar o presidente na própria convenção democrata, é sério. E apesar dos enormes esforços para levar os eleitores às urnas e do caixa imenso, os democratas perderam a batalha da motivação do eleitor antes mesmo dela começar.

Pior: apesar de os conservadores estarem afiando seu senso de vitimização de classe, os democratas praticamente abandonaram o campo. Por algum tempo, o establishment democrata centrista em Washington ficou enamorado pela noção de que, já que a era industrial está chegando ao fim, o partido deve esquecer a classe operária e suas questões e abraçar a classe "profissional".

Durante a campanha de 2004, estes novos democratas amigos dos negócios receberam assistência de importantes magnatas idealistas e abraçaram abertamente as teorias administrativas da moda. Eles se imaginaram o metropartido dos bilionários bacanas, engajados em algum tipo de combate cósmico com os bilionários quadrados do "retrô" Partido Republicano.

Este seria o ano perfeito para dar aos republicanos uma surra trumanesca pelos muitos escândalos corporativos que eles apoiaram e, em alguns casos, autorizaram. Adotar tal posição também forneceria aos democratas uma forma de abordar e talvez até mesmo derrotar o populismo feroz que denuncia as questões de "valores morais", mobilizando ao mesmo tempo a sua base.

Para dar um curto-circuito nos apelos republicanos aos eleitores da classe operária, os democratas devem enfrentar o populismo cultural das questões divisórias com genuíno populismo econômico. Eles precisam tirar o pó de sua própria militância majoritária em vez de reprimi-la; afiar as distinções entre os partidos em vez de minimizá-las; enfatizar as contradições do populismo da guerra cultural em vez de ignorá-las; e falar de forma direta sobre quem ganha e quem perde nas políticas econômicas conservadoras.

Mas o que é mais provável, é claro, é que a cúpula democrata simplesmente verá o desastre desta semana como um motivo para redobrar seus esforços para se deslocar para a direita. Eles simplesmente cederão, digamos, na privatização do Seguro Social ou na "reforma" do imposto de renda, e continuarão sonhando seus sonhos felizes de tornar o partido o da classe corporativa esclarecida.

E ficarão surpresos novamente, daqui dois ou quatro anos, quando os populistas conservadores da América Vermelha, mais pobres e mais irados do que nunca, desferirem outro golpe atordoante no "partido do povo".

*Thomas Frank é o autor do recente "What's the Matter with Kansas? How Conservatives Won the Heart of America" (o que há de errado com o Kansas? como os conservadores conquistaram o coração da América). Se voltar à origem, partido tem chance contra ódio cultural de Bush George El Khouri Andolfato

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