UOL Notícias Internacional
 

06/11/2004

Assimetria de poder é risco até para republicanos

The New York Times
William Safire

Colunista do NYTimes

Em Washington
Ninguém "furou". As campanhas de Kerry e Bush funcionaram ambas com sucesso e convocaram suas tropas, resultando na espécie de voto em massa --a maior porcentagem de eleitores participantes desde 1968, também uma eleição em tempo de guerra-- que pode deixar o país orgulhoso.

O partidarismo ferrenho, enraizado em desacordos políticos e impelido pelo ressentimento de "fomos roubados" de 2000, matou a antiga apatia do eleitor. A competição acalorada deste ano serviu a um grande objetivo, ao colocar mais milhões de pessoas em autogoverno.

Mas existe um ritmo na política --uma época para dividir e uma época para unir. O discurso sentido e eloqüente de Kerry na quarta-feira, reconhecendo a derrota e esperando "superar a divisão partidária", foi um forte contraste com o tiroteio da última vez. O presidente Bush, reeleito com uma maioria popular substancial, respondeu adequadamente com "um novo mandato é uma nova oportunidade de alcançar todo o país".

Seria tolice negar que na realidade essa divisão continua. Sobre política externa, ela coloca falcão contra pomba, idealista contra realista, unilaterais contra multilaterais.

Sobre assuntos domésticos, liberais e conservadores terão choques, agora mais unilaterais, sobre impostos e paternalismo. Sobre valores culturais, 11 Estados se levantaram contra o casamento gay, o que teve muito a ver com a mobilização da direita evangélica.

Bush pode se ater aos princípios que o elegeram enquanto remove parte do veneno da atmosfera política? A atrofia das verificações e balanços habituais exige uma certa contenção interna.

O perigo vem da tentação de ser prepotente que sempre aguarda um governo assimétrico. Bush relegitimou o poder da Casa Branca apoiado por uma Câmara de Deputados mais à direita, agora reforçado por um Senado com uma maioria republicana de 55 a 45. Além dessa demonstração de músculo político, uma Suprema Corte já ligeiramente inclinada à direita em breve estará pronta para uma infusão de novos juízes.

Esse desequilíbrio em última instância vai acionar a lei de Rayburn: "Quando você consegue uma maioria grande demais, imediatamente encontra problemas", disse o presidente da Câmara Sam Rayburn, um democrata, depois da avalanche de Franklin D. Roosevelt em 1936.

Outro perigo para a autocontenção republicana é a divisão ideológica do Partido Democrata após Clinton, o principal motivo de suas perdas generalizadas este ano. A esquerda ligada a Dean, isolacionista e financiada por sindicatos, atribuirá injustamente a derrota de Kerry a sua ambivalência sobre o Iraque. Isso vai erodir a disciplina da minoria que foi aplicada durante uma década pelo líder democrata no Senado, Tom Daschle, que ficou preso na avalanche senatorial do Partido Republicano.

Os republicanos esperam que os democratas escolham o senador Harry Reid de Nevada, um político competente e apreciado que só é justo na televisão, para substituir Daschle como líder da minoria. Uma opção mais forte para falar pelos democratas e negociar com o líder da maioria, Bill Frist, compromissos sobre iniciativas de Bush, seria Chris Dodd, de Connecticut.

A opção mais forte seria o conhecido John Kerry, debatedor de primeira na TV, que agora entende onde está o centro de poder da nação. (Bush deveria oferecer um cargo no gabinete doméstico a Daschle, um político compreensivo que certamente o recusaria.)

Quais iniciativas superariam a divisão enquanto manteriam as promessas de campanha?

A legislação para estabelecer contas pessoais de aposentadoria na previdência social, juntamente com a indicação de uma comissão que recomendaria aumentar para 70 anos a idade de aposentadoria dos que hoje têm menos de 50.

No Iraque, seguir o conselho de campanha de Kerry para atacar Fallujah, o enclave terrorista, e aceitar a sugestão dele para uma cúpula cordial com Chirac, Schroeder e outros aliados, buscando uma reaproximação antes de seus próprios testes eleitorais temíveis.

Então eu sugeriria um maior avanço no compromisso feito pelo presidente dois anos atrás, de garantir apoio federal para pesquisa usando linhagens descartadas de células-tronco embrionárias. Isso não trairia a base de Bush; pelo contrário, seria uma progressão natural de sua política ética cautelosa. E, para a Suprema Corte, encontrar uma mulher hispânica inteligente, moderada e de interpretação rígida, de Massachusetts.

As eleições são coisas surpreendentes. Os perdedores de eleições apertadas ontem, como me lembro de 1960, podem voltar e ganhar noutro dia. No momento estamos em uma série eleitoral democrática: as recentes vitórias de John Howard na Austrália, de Hamid Karzai no Afeganistão e de Bush nos Estados Unidos são bons presságios para uma eleição democrática daqui a alguns meses no Iraque.

Nas democracias o pêndulo sempre oscila. Animem-se, perdedores entristecidos desta semana, e acautelem-se, vencedores eufóricos desta semana --a campanha de recuperação de Hillary Clinton já está em curso. Hegemonia pode estimular disputa interna na Câmara e no Senado Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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