UOL Notícias Internacional
 

06/11/2004

EUA preparam a maior ofensiva desde a invasão

The New York Times
James Glanz* e

Dexter Filkins

Em Fallujah
Veículos blindados americanos atravessavam as aldeias que cercam Fallujah, a cidade no coração da insurreição sunita no Iraque, enquanto aviões bombardeavam posições rebeldes e as forças de terra aceleravam seus preparativos, nesta sexta-feira (5/11), para o que parece ser um ataque iminente à cidade.

Dentro de Fallujah, os rebeldes que se escondem de dia entre a população cada vez menor e amargurada, montaram um perímetro defensivo ao redor da cidade e disseram que derrotarão os americanos ou morrerão em uma causa que consideram justa.

Os marines que se reuniam fora da cidade praticavam combate de casa em casa, enquanto algumas equipes americanas adaptaram pás frontais em seus veículos blindados, projetadas para revelar explosivos enterrados nos caminhos de entrada. Os marines dispararam artilharia durante todo o dia e noite contra as posições ao redor da cidade.

"Nós vamos livrar a cidade dos rebeldes", disse o tenente-coronel Gary Brandl, um comandante de batalhão encarregado de cerca de 800 marines em uma base fora da cidade. "Se eles lutarem, nós os mataremos."

Os oficiais da inteligência militar disseram que entre 75% e 80% dos 250 mil habitantes da cidade fugiram. Tal estimativa é consistente com os relatos vindos de dentro de Fallujah.

Enquanto prosseguiam os preparativos para a batalha, os principais comandantes americanos no Iraque e importantes autoridades do governo Bush em Washington realizavam suas próprias análises finais.

No retiro presidencial em Camp David, Maryland, o presidente Bush foi informado na manhã de sexta-feira sobre os planos de batalha como parte da reunião com seus altos conselheiros de segurança nacional para discutir o Iraque.

As autoridades americanas disseram que o momento preciso de qualquer operação ficou a critério dos comandantes americanos em campo e do primeiro-ministro do Iraque, Ayad Allawi.

"As pessoas estão perguntando aqui: 'E quanto a isto?'ou 'Você pensou naquilo?', mas fora isto, eles deixaram o planejamento aos cuidados das pessoas em terra", disse um alto oficial militar em Washington.

Visitando os líderes da União Européia em Bruxelas, na sexta-feira, Allawi reiterou seu alerta de que "a janela está realmente se fechando" para uma solução pacífica para o conflito. Os negociadores dos dois lados não se encontram há mais de uma semana.

Enquanto isso, na ONU, o secretário-geral Kofi Annan confirmou que expressou formalmente preocupação sobre os efeitos que qualquer invasão em Fallujah teriam sobre a estabilidade do país antes das eleições previstas para janeiro.

Suas preocupações poderão atrapalhar as possibilidades de um grande papel da ONU no Iraque nas eleições e após elas. Allawi e as autoridades americanas têm insistido que precisam retomar o controle de Fallujah rapidamente para poder preparar o caminho para as eleições.

Fallujah está dentro de uma região do país dominada pelos árabes sunitas, um grupo minoritário cuja participação nas eleições é considerada crucial para que o resultado possa ser considerado legítimo. Favorecidos no governo de Saddam Hussein, os sunitas, privados de seus direitos, estão agora liderando uma insurreição cada vez mais mortífera.

Do lado de fora da cidade, os americanos estavam montando barreiras militares para fechar as estradas de acesso. Aviões de combate realizaram pelo menos cinco grandes ataques aéreos na sexta-feira.

Enquanto isso, os rebeldes no interior da cidade continuavam seus próprios preparativos, misturados entre a população comum cada vez menor nos mercados e nas ruas.

Um homem que foi encontrado em uma posição fortificada no perímetro da cidade, poucos dias antes, foi visto no centro, na manhã de sexta-feira, vestindo camiseta e calça de agasalho. Ele estava dirigindo uma moto e carregava um enorme saco de pentes de rifle automático.

O homem, que se identificou como sendo Abu Muhammad, disse que os rebeldes são mais numerosos e estão mais bem preparados do que da última vez que enfrentaram os americanos, em abril. "Nós confiamos em Deus", disse ele, explicando o motivo para achar que os rebeldes são fortes. "Nós temos duas opções --vitória ou martírio."

Além de tais sentimentos, os rebeldes parecem ter-se beneficiado de conselhos militares bem sofisticados. Eles montaram um perímetro em várias camadas com pelo menos um anel fortificado interno, que lhes dará um local para onde recuar caso o anel externo seja rompido.

Os comandantes americanos no Iraque expressaram confiança de que poderão concluir seu ataque em questão de dias, mas um alto oficial militar disse na sexta-feira que os planejadores não têm como saber ao certo por quanto tempo os rebeldes resistirão. "No momento, eles esperam que não seja por muito mais do que uma semana", disse o oficial.

Enquanto isso, os rebeldes prosseguiam com seus ataques mortais. Um soldado americano foi morto e cinco ficaram feridos em um ataque contra uma base perto de Fallujah, na sexta-feira, informaram as forças armadas americanas. Os feridos foram "resultado de um fogo indireto", um termo geralmente reservado pelos militares para morteiros e foguetes, por volta das 13h45 (16h45 em Brasília).

Dois marines foram mortos durante operações de segurança ao redor de Ramadi, a oeste de Fallujah, na quinta-feira, enquanto um soldado da 1ª Divisão de Infantaria morreu e outro ficou ferido na cidade de Balad, quando uma bomba improvisada explodiu perto do veículo deles. Balad fica a cerca de 80 quilômetros ao norte de Bagdá, na estrada para Tikrit, a cidade natal de Saddam Hussein.

Enquanto prosseguiam os preparativos para a batalha de Fallujah, eram dados alertas de que ela poderá ter conseqüências devastadoras fora do pequeno território imediatamente afetado.

O jornal "Los Angeles Times" divulgou na sexta-feira que Annan enviou uma carta aos governos da Grã-Bretanha, Iraque e Estados Unidos expressando preocupação de que a continuidade dos ataques militares na cidade dominada pelos rebeldes alienará a população e afetará as eleições. A ONU não divulgou o texto da carta e, em conversas de corredor com os repórteres, Annan confirmou sua existência mas se recusou a discuti-la.

Ao ser questionado sobre que preocupações a ONU tem com o efeito do ataque militar liderado pelos Estados Unidos contra Fallujah sobre as eleições, Kieran Prendergast, o subsecretário para assuntos políticos, disse: "É importante compreender que as eleições não são um evento isolado, que o contexto no qual são realizadas é muito importante caso se queira que tenham o efeito de promover a estabilidade no Iraque".

Em meio a tais preocupações, os oficiais militares americanos disseram que o momento exato de qualquer ataque contra Fallujah depende de uma série de fatores. As autoridades em Washington disseram que Allawi quer mais tempo para discutir com seu gabinete, assim como com líderes religiosos e tribais, as ramificações políticas e militares de uma ofensiva liderada pelos Estados Unidos. Alguns líderes sunitas apelaram para o governo interino iraquiano pedir a suspensão de qualquer ataque.

Os oficiais militares também expressaram a preocupação de que os cidadãos remanescentes em Fallujah recebam um último aviso para deixar a cidade antes do início de qualquer ataque.

O oficial chefe de inteligência dos marines, o coronel Ronald S. Makuta, deu esta descrição em uma mensagem por e-mail de seu quartel-general, no Campo Fallujah, a 5 quilômetros ao leste da cidade:

"Os que permaneceram se enquadram em duas categorias, os que não têm dinheiro suficiente para partir e os que simplesmente não querem abandonar suas casas e bens, por temerem que serão pilhados pelos combatentes estrangeiros, rebeldes locais e criminosos. Os rebeldes continuam promovendo uma campanha brutal de assassinato, terror, seqüestros, coerção e intimidação. Os criminosos também estão se aproveitando da falta de lei na cidade para agir da mesma forma".

A operação está caminhando para ser a maior desde a invasão americana ao país 20 meses atrás. Um alto oficial militar disse que cerca de 25 mil soldados americanos e iraquianos estão cercando Fallujah e Ramadi e o corredor entre as duas cidades. Outro alto oficial militar disse que entre 10 mil e 15 mil destes soldados estão ao redor de Fallujah. Eles estão diante de uma força rebelde iraquiana na cidade que Brandl estimou em poucos milhares de combatentes.

Tudo visa corrigir os eventos desastrosos de abril, quando uma grande força de marines atacou a cidade após a morte e mutilação de quatro funcionários americanos lá.

Apesar de os americanos terem conseguido progresso constante na direção do centro da cidade, eles foram forçados a suspender seus ataques quando os líderes iraquianos ficaram nervosos com os relatos, a maioria não confirmado, de que centenas de civis tinham sido mortos lá.

Naquele momento, a luta em Fallujah ajudou a alimentar levantes armados em outras partes do país contra a presença americana.

Os líderes iraquianos e os comandantes americanos disseram estar preocupados com a possibilidade de levantes semelhantes agora, particularmente em cidades voláteis como Mosul, mas disseram que as circunstâncias mudaram bastante de lá para cá.

Desta vez, com a ocupação americana formalmente encerrada, os líderes iraquianos estão encarregados e dispostos a suportar parte da pressão política resultante das operações.

Além dos próprios rebeldes, os soldados americanos que estão se preparando para entrar na cidade disseram que esperam encontrar bombas caseiras enterradas nas ruas e posições fortificadas ao redor do perímetro da cidade. Os americanos disseram que estão se preparando para combate urbano em espaços fechados, que eles dizem trazer inevitavelmente um alto risco de morte de civis.

"Nós protegeremos a vida civil o máximo possível", disse Brandl. "Mas há casos em que os civis estão próximos demais."

Milhares de soldados iraquianos que se posicionaram juntamente com seus pares americanos deverão participar da operação. Segundo o padrão estabelecido em operações semelhantes em Najaf e Samarra, os soldados americanos realizarão grande parte do combate na entrada, abrindo o caminho para as forças iraquianas assumirem o controle da cidade assim que os rebeldes forem derrotados. Segundo este método, os líderes iraquianos e americanos esperam que a operação em Fallujah ofereça o melhor dos dois mundos: força americana e face iraquiana.

A atuação das forças de segurança iraquianas está sendo vista como particularmente crucial na determinação do sucesso ou fracasso da missão em Fallujah. Em abril, unidades inteiras da polícia e guarda nacional iraquianas se desintegraram diante dos levantes em Fallujah e no Sul do Iraque.

Desta vez, os comandantes americanos disseram ter muito mais esperança, particularmente devido ao intenso treinamento recebido pelas unidades iraquianas.

*Eric Schmitt contribuiu de Washington; Warren Hoge, da ONU; Dexter Filkins, das proximidades de Fallujah; James Glanz, de Bagdá e um empregado iraquiano do The New York Times, de Fallujah. Definida reeleição, Bush prepara grande ataque militar no Iraque George El Khouri Andolfato

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