UOL Notícias Internacional
 

06/11/2004

Europa deve aceitar vitória de Bush, afirma Blair

The New York Times
Patrick E. Tyler

De Bruxelas, na Bélgica
No momento em que os líderes europeus se reúnem pela primeira vez desde as eleições americanas, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, pediu para que eles se ajustem à "realidade" de que George W. Bush estará no governo por mais quatro anos, mas sinais de antigos ressentimentos permaneciam em comentários privados sobre a sabedoria da iminente ação militar americana no Iraque.

Alguns líderes europeus sugeriram que a campanha militar contra Fallujah, a fortaleza das forças rebeldes a oeste de Bagdá, poderá resultar em um grande uso de armas pesadas, criando baixas civis substanciais e um revés político.

"Se Fallujah for incinerada pelos americanos com o apoio de Tony Blair, isto dificultará ainda mais a preparação das eleições no Iraque", disse uma importante autoridade européia.

Mas em seus comentários oficiais, os 25 líderes que representam os países da expandida União Européia disseram que "esperam trabalhar estreitamente" com Bush, disse o presidente da França, Jacques Chirac, em comentários separados de que os Estados Unidos fortes reforçam a necessidade de uma Europa "política e economicamente" mais forte em um "mundo cada vez mais multipolar", uma frase que Chirac usa para enfatizar que ele fala em um mundo não dominado pelos Estados Unidos.

"Eu acredito que a coesão européia é naturalmente a forma certa de lidar com o que algumas pessoas podem considerar como preocupações ou temores conseqüentes do resultado eleitoral americano", disse ele, e então deixou cedo a reunião de cúpula, não participando de um almoço para o primeiro-ministro interino do Iraque, Ayad Allawi.

Chirac disse que não pretendia esnobar Allawi, mas que estava partindo para Abu Dhabi para participar do funeral do presidente dos Emirados Árabes Unidos, o xeque Zayed Bin Sultan Al Nahayan, que morreu na terça-feira.

Outra mudança surpreendente registrada entre os líderes foram os comentários do primeiro-ministro da Noruega, Kjell Magne Bondevik, cujo país, um aliado de Washington, vinha resistindo a se juntar à União Européia desde seu início. Pode ser o momento de reconsiderar, disse Bondevik.

Falando na televisão norueguesa, Bondevik disse que o estilo unilateral de Bush nas questões internacionais estava afastando a Europa dos Estados Unidos, uma tendência que fortaleceria o argumento de colocar a Noruega mais firmemente no campo europeu.

"A distância entre americanos e europeus continua crescendo após um longo período", disse ele, acrescentando que isto levará "a uma maior consolidação na Europa".

Ainda assim, apesar da falta de entusiasmo com o segundo mandato de Bush, havia cordialidade e reconhecimento de que a Europa e os Estados Unidos enfrentam uma série de tarefas difíceis nos próximos meses, que exigirão uma coordenação estreita: eleições no Iraque, potencial proliferação nuclear no Irã e violência entre israelenses e palestinos.

O chanceler Gerhard Schroeder da Alemanha, falando em uma coletiva de imprensa, disse que falou com Bush por telefone, na sexta-feira, em uma conversa que se concentrou no futuro.

"Nós dois somos da opinião de que agora devemos olhar para frente", disse ele. "Tanto a América quanto a Alemanha estão interessadas em um relacionamento amistoso, intacto, entre ambos os países. Isto também fortalece o relacionamento transatlântico", disse ele.

O estado crítico das questões no Iraque e o rápido declínio da saúde do líder palestino, Iasser Arafat, tiveram enorme peso nas discussões em Bruxelas.

Blair, que se encontrou separadamente com Allawi, foi quem mais se concentrou no Iraque, especialmente após a morte de três soldados britânicos em uma emboscada, na terça-feira.

Os líderes europeus concordaram em oferecer US$ 38,6 milhões ao governo de Allawi para ajudar a financiar as eleições de janeiro, e US$ 33 milhões adicionais para as forças de segurança protegerem o pessoal da ONU no Iraque. Os especialistas em eleições também serão considerados. A Europa já prometeu US$ 371 milhões em ajuda de reconstrução neste ano.

Mas o envolvimento europeu no Iraque continua marginal. Tanto Chirac quanto Schroeder nutrem profundas reservas sobre o envolvimento de tropas da Otan lá. O plano da aliança de estabelecer uma grande missão de treinamento para um novo exército iraquiano tem sido atrapalhado por atrasos, assim como por preocupações de segurança e logística. Os chefes de Estado da Otan aprovaram um plano para enviá-la no encontro de cúpula de junho passado.

Schroeder descartou qualquer envio de soldados alemães ao Iraque, e Chirac, falando em Madri, Espanha, em setembro, se referiu ao conflito como uma "caixa de Pandora" que as forças ocidentais têm sido "incapazes de fechar".

Allawi, fazendo uma parada no quartel-general da Otan aqui, pediu aos líderes ocidentais que ajam mais rapidamente na ajuda para a formação de um exército iraquiano, que poderá eventualmente assumir o controle da segurança no Iraque.

"O tempo é essencial", disse ele para os líderes da aliança. "Há uma batalha real no momento no Iraque. Atrasos medidos em horas e dias podem custar vidas." Ele pediu para que "executem seus planos o mais rapidamente possível".

Blair também buscou pressionar por um maior papel europeu no Iraque, mas as esperanças de Blair de exercer um papel chave como ponte entre os Estados Unidos e a Europa foram reduzidos por sua exclusão do "triunvirato" que ele tentou formar no ano passado, com Chirac e Schroeder, para orquestrar o curso da Europa.

Nesta sexta-feira, os líderes francês e alemão se reuniram com o primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Rodriguez Zapatero, para planejar a estratégia do encontro de cúpula.

Blair pareceu não desencorajado.

"O fato é que temos no Iraque um governo que está tentando desesperadamente promover a estabilidade, a esperança e a democracia", disse Blair, tendo Allawi ao seu lado. Isto exigirá a ajuda da Europa, ele acrescentou.

Quando lhe foi pedido para explicar os comentários que ele fez na quinta-feira, de que alguns líderes europeus estavam "em negação" sobre a vitória de Bush, Blair disse: "Está bastante óbvio que há algumas pessoas que não querem aceitar as mudanças que aconteceram".

"Eu não vou começar a apontar dedos para as pessoas", ele continuou. "O que estou realmente dizendo é que temos que seguir em frente agora. Há uma nova realidade, então vamos trabalhar com esta realidade."

Mapa do caminho

Os líderes europeus também buscaram reunir apoio para um novo esforço pelo processo de paz entre israelenses e palestinos.

Eles endossaram uma série de propostas desenvolvidas por Javier Solana, o conselheiro de política externa da União Européia, que estabelecem uma série de passos para reformas políticas e de segurança que preparariam o terreno para as eleições palestinas, a retomada da ajuda econômica e um retorno ao plano de paz, freqüentemente chamado de "roteiro para a paz" (map of the road), e negociações que visam atender a meta de Bush de criação de um Estado palestino em paz com Israel.

Em um memorando para os ministros das relações exteriores europeus, Solana disse que "entre agora e o final do ano, uma série de eventos precisará ser ativamente administrada" para explorar o plano de retirada israelense e, com a doença de Arafat, a possibilidade de uma nova liderança palestina.

"Há uma certa confluência de elementos e nós devemos aproveitar esta oportunidade", disse um assessor de Solana.

Em uma declaração dirigida aos palestinos, os líderes expressaram seu apoio "neste momento difícil" e saudaram a aprovação pelo Knesset israelense do plano de retirada do primeiro-ministro Ariel Sharon. Mas os líderes avisaram os israelenses de que a retirada deve ser "o primeiro passo no processo geral" de retomada do roteiro para a paz e das negociações para um acordo permanente.

*Walter Gibbs contribuiu de Oslo, Noruega Para o premiê britânico, líderes nacionais devem encarar realidade George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host