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07/11/2004

Fim da eleição deixou muita gente com raiva

The New York Times
Damien Cave

Em Nova York
Steven Stosny, um psicólogo e especialista em raiva de Washington, começou a tratar pacientes com problemas de raiva política durante a batalha para o impeachment do presidente Bill Clinton. Após a eleição presidencial de terça-feira, ele começou novamente a receber telefonemas de democratas lívidos, incluindo uma funcionária da campanha de Kerry que disse estar furiosa com George Bush, e estava descontando em seu marido.

"Estas famílias políticas estão entrando em colapso na linha de chegada", disse Stosny, autor de livros de auto-ajuda como "The Powerful Self". "Elas não suportam mais."

Ambos os partidos políticos poderiam provavelmente passar algum tempo no divã: terapeutas dizem que a campanha de 2004 foi uma das disputas mais perturbadoras, cheias de ódio, já registradas. Os eleitores da esquerda freqüentemente admitiam lutar pela eleição do senador John Kerry simplesmente por quererem "qualquer um, menos Bush". Os conservadores, em sites de Internet e na televisão, questionavam regularmente o patriotismo de Kerry e o que consideravam sua carência de crenças básicas.

Mas agora pode ser o momento de reconciliar. Afinal, estudos médicos mostraram que a raiva pode levar a doenças cardíacas. E é difícil fazer algo se você odeia as pessoas com quem trabalha.

"Se você permanecer neste lugar negativo, ela terá um ônus", disse Redford Williams, diretor do centro de pesquisa de medicina comportamental da Universidade Duke. "Ocorreu um trauma aqui, e se não nos recuperarmos -se continuarmos ruminando a respeito- haverá conseqüências sociais e de saúde."

Williams, autor de "Lifeskills", um guia para prevenção de conflitos, ofereceu várias formas de lidar com a emoção negativa. Socar um travesseiro não é uma delas; respirar profundamente é. Sugestões para redirecionar a emoção negativa para ações construtivas -até mesmo escrever uma carta ao Congresso, por mais débil que possa parecer- agora predomina na literatura terapêutica.

Mas tais soluções podem exigir uma força de vontade épica. Para alguns, a frustração tem se acumulado desde os anos 60. Fred Siegel, um membro sênior do Instituto de Política Progressiva, um centro de pesquisa centrista, disse que muitos democratas ainda remoem as derrotas do partido para Richard Nixon e Ronald Reagan. Muitos sentiam na semana passada que tinha chegado a hora de uma vitória, após a luta contra o impeachment do Clinton, a vitória de Bush em 2000 e a ascensão de Arnold Schwarzenegger. A mais recente derrota, ele disse, deu aos democratas uma sensação de injustiça de proporções quase bíblicas.

"Isto é Jacó e Esaú", disse ele, citando a história do Velho Testamento dos filhos rivais de Isaac. "O senso de Esaú de ser o herdeiro de direito era de certa forma legítimo, mas mesmo assim ele não recebeu o prêmio. Como tal tipo de ressentimento é aplacado?"

A divisão partidária tende a tornar a raiva particularmente intratável. Considere a palavra "polarização".

"Há duas definições", disse Jonathan Lear, professor de pensamento social da Universidade de Chicago. "Uma é a idéia padrão de ambos os lados do país terem se deslocado para os extremos. Mas óculos de sol 'polarizados' permitem a entrada de menos do que há do lado de fora. Parte da polarização é não aceitar certas coisas."

A tendência cegante costuma tornar a raiva autoperpetuante. Cada lado se agarra às falhas do outro. As emoções são agitadas a um estado febril; a auto-análise se perde.

Aparentemente, ninguém está imune. Peter Wolson, um psicanalista de Beverly Hills, Califórnia, disse que vários colegas em uma recente conferência acusaram o governo Bush de ser intolerante e fascista, enquanto "eles mesmos estavam vilificando em massa o Partido Republicano".

"Era uma divisão preto-e-branco irracional", disse ele. "Os mocinhos e os bandidos. Para os democratas, os 'bandidos'se tornaram os republicanos."

A raiva pode parecer justificada e a certo ponto de direito após uma derrota política. Mas pense nas conseqüências de saúde. Vários estudos associam a raiva ao aumento do risco de doença cardíaca. Um estudo que acompanhou 13 mil pacientes, publicado na revista "Circulation" em 2000, revelou que os participantes que demonstravam muita raiva apresentavam uma probabilidade três vezes maior de sofrer ataques cardíacos ou necessitarem de ponte de safena do que aqueles com menos.

"Se alguma eleição tem o potencial de ativar esta tendência prejudicial à saúde", disse Williams, da Duke, "esta é ela".

Para sorte dos Incríveis Hulks na população, que podem explodir a qualquer momento com intensidade de história em quadrinhos, há formas de administrar a raiva. Os terapeutas variam o foco, mas todos parecem concordar no que não se deve fazer.

Desista de atirar dardos na foto do candidato que você odeia, por exemplo, ou socar o travesseiro. Estudos mostram que tais ações violentas "criam o hábito de ser agressivo", disse Stosny. "Você está treinando o seu cérebro para ser mais ofensivo."

Também não vale a pena se preocupar com os erros cometidos por aqueles fora de seu controle, sejam eles Kerry ou os jovens eleitores que não foram votar como esperado. O álcool, um depressor, também não ajudará.

Em vez disso, disseram os especialistas em raiva, os democratas devem redirecionar sua raiva para uma ação construtiva. Phil Towle, um terapeuta cuja intervenção junto aos membros em conflito do Metallica foi assunto de um documentário neste ano, disse que a intensidade emocional só pode ser valiosa quando apontada corretamente.

"Uma das coisas que fizemos com o Metallica foi ajudá-los a entender que podiam criar música provocadora motivada por amor e paixão em vez de desrespeito ou ódio uns pelos outros", disse Towle. "As pessoas que perdem ou vencem -os dois lados na verdade- precisam pegar sua energia e encontrar um forma de manter a raiva viva por meio da paixão, por meio da convicção, por meio da crença."

Um primeiro passo: expandir sua atenção além da política eleitoral. "O que você pode fazer é escrever cartas ao Congresso", disse Towle. "Você pode mudar seu próprio comportamento. Você pode mudar seu ambiente. Você pode pegar qualquer questão com a qual se importe e encontrar uma forma de fazer algo."

Williams, em "Lifeskills", descreve táticas de conversa que podem prevenir conflitos que levam a explosões de raiva. "A primeira é falar claramente de forma a aumentar a probabilidade de sua mensagem ser escutada", disse ele. "Errado: 'Você só quer dar uma grande isenção de impostos para seus amigos ricos'. Melhor: 'Eu acho que dar 40% de redução de impostos para pessoas que ganham mais de US$ 200 mil por ano dificilmente produzirá o aumento de consumo que precisamos para ajudar a economia'."

Habilidade de escutar, disse ele, também pode desarmar temperamentos explosivos. As pessoas devem ficar quietas até a outra pessoa terminar, "algo que Ann Coulter é constitucionalmente incapaz de fazer", disse ele, após admitir que ele também está um pouco irritado com a eleição.

Partidários furiosos também devem parecer interessados no que aqueles do outro lado estão dizendo. "Quando eles terminarem, diga o que você ouviu", disse ele, e permaneça aberto para os argumentos contrários. "Esteja preparado -apenas fique aberto para a possibilidade, você não precisa mudar- para ser mudado pelo que você ouvir."

Esta linha de ação presume que os democratas furiosos desejam falar sobre política. Mas este pode não ser o caso. Matt Aydelott, um administrador acadêmico do Sul da Califórnia, disse que começou a sentir sua raiva aumentar quando a apuração dos votos na Flórida começou a pender para Bush. E na tarde seguinte, desespero e descrença se transformaram em raiva.

Como ele colocou em uma mensagem de e-mail durante o discurso de reconhecimento de derrota de Kerry: "Eu não sei se choro ou dou um murro na cara de alguém". Ódio em relação aos republicanos domina eleitores democratas George El Khouri Andolfato

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