UOL Notícias Internacional
 

07/11/2004

Kerry pode liderar oposição do Partido Democrata

The New York Times
David Halbfinger

Em Nova York
Ainda se recuperando da derrota para o presidente Bush na terça-feira (2/11), o senador John Kerry está sendo incentivado por assessores e amigos para assumir um papel de destaque enquanto o Partido Democrata lida com questões como escolher seu próximo presidente e definir sua identidade e seu rumo.

Diferentemente de Al Gore, que fez uma saída torturada da cena pública depois de perder para Bush quatro anos atrás, Kerry tem uma cadeira no Senado para a qual voltará, e não sofre pressões para sumir de vista pelo bem da união nacional e da legitimidade da presidência, segundo seus assessores. Eles afirmam que a continuidade de sua presença no Senado o torna uma figura natural para determinar como os democratas lidam com a Casa Branca.

"Se o presidente Bush realmente quer conquistar o apoio das pessoas que apoiaram Kerry, então provavelmente terá de lidar com Kerry", disse Mike McCurry, que foi um assessor graduado da campanha de Kerry. "A pergunta para Kerry é de certa forma a mesma que a de Bush: o presidente quer liderar estabelecendo um consenso bipartidário no centro, ou quer governar da direita ideológica? Kerry seria a pessoa capaz de ajudá-lo a alcançar isso, senão haverá necessidade de alguém para enfrentar Bush."

Os confidentes de Kerry indicaram sua lista de e-mails de 2,6 milhões de apoiadores --que o ajudaram a angariar mais de US$ 249 milhões, um recorde para um candidato desafiante-- como uma grande vantagem que Kerry poderia usar para projetar sua influência muito além do Senado, e não apenas em termos financeiros. Eles dizem que uma opção seria montar uma nova organização, como fez Howard Dean com seu grupo de ação política Democracia para a América, depois de perder nas primárias democratas.

"Todas essas pessoas estão em busca de orientação", disse David Thorne, o melhor amigo de Kerry, que também dirigiu a operação da campanha na Internet. "Elas vão responder? São interrogações, mas ninguém jamais teve algo semelhante. Você tem um eleitorado. O que você faz? Pode mantê-lo unido, continuar falando com eles e trabalhando com eles."

Cameron Kerry, o irmão do senador, disse: "Cinqüenta e cinco milhões de pessoas votaram nele; elas precisam de uma voz, e ele pode ser sua voz. A discussão sobre qual a melhor maneira de fazer isso está em curso. Ele certamente não vai se afastar para lamber suas feridas".

Mas outros advertiram que Kerry tem pouco tempo a perder. Os democratas no Senado já estão se alinhando atrás do senador Harry Reid de Nevada e do senador Richard Durbin de Illinois como seus novos líderes. E com os senadores Hillary Clinton, John Edwards e Dean à espera como potenciais candidatos democratas à Presidência em 2008, Kerry provavelmente terá uma dura competição pelo leme do partido.

Além disso, terá de afastar aqueles que afirmam que ele é uma opção fraca para a imagem pública do partido, pois deixou de se conectar com muitos eleitores sobre questões habituais dos democratas como empregos e assistência à saúde, disseram estrategistas democratas.

"Eu duvido que algum dos concorrentes aceitasse Kerry como chefe do partido", disse Bob Borosage, co-diretor da Campanha para o Futuro da América, um grupo liberal. "Ele tem o problema adicional de ter perdido, o que prejudica as coisas, mesmo quando você tem o maior número de votos já obtido por um candidato derrotado. Além disso, os democratas são famosos por comer seus feridos. Hillary terá um voto feminista importante, Edwards fará um grande jogo para o lado conservador e os populistas, ouvi falar que Bill Richardson [governador do Novo México] já está iniciando sua campanha, depois há Dean. Vai ter muita gente para quem as pessoas vão querer dar uma chance, e não para Kerry."

Segundo os principais assessores de Kerry, como chefe titular do partido ele teria uma grande influência sobre a escolha de um substituto para Terry McAuliffe, o presidente do Comitê Nacional Democrata.

Mas outros advertiram que em geral só um presidente em função consegue nomear o líder do partido, e enquanto Kerry teria uma influência os líderes trabalhistas, líderes da minoria e outros também teriam, incluindo a chamada ala Clinton do partido. Entre os que já estariam fazendo lobby pelo cargo de presidente está Donna Brazile, que foi diretora de campanha de Gore e é presidente nacional do Instituto de Direitos Eleitorais do partido.

Vários estrategistas democratas afirmaram que o melhor papel para Kerry fora do Senado seria como porta-voz democrata e crítico de relações exteriores e segurança nacional, que são suas áreas políticas de maior peso e que dominaram a campanha presidencial.

"Nunca pensei que em minha vida veria um democrata com uma plataforma forte de defesa nacional", disse Jenny Backus, uma consultora democrata. "Eu vejo Bush como um presidente instável. Os democratas querem estabilizar o país novamente, e John Kerry pode ajudar a fazer isso oferecendo uma voz poderosa de contrapeso para a doutrina Bush, ou falta de plano. Ele pode se tornar um construtor de coalizão, com McCain, Hagel e Lugar. E ele entende Bush mais que qualquer outro membro do Senado."

O enfoque de Kerry para a segurança nacional, como se viu, prejudicou suas iniciativas de penetrar no eleitorado de classe média falando de questões corriqueiras como empregos e assistência à saúde, segundo democratas dentro e fora da campanha, que indicaram vários motivos.

Um deles, disseram, é que Kerry foi ineficaz ao enfatizar a política doméstica, como estava planejado para as últimas semanas da disputa, porque os acontecimentos no Iraque --novas baixas, o desaparecimento de explosivos e outros temas para atacar Bush-- intervinham constantemente.

"A discussão central que aconteceu todos os dias a partir do Dia do Trabalho foi: Nós queremos uma mensagem doméstica, uma mensagem de política externa, ou ambas?", disse um estrategista de campanha que falou sob a condição de anonimato porque não quer ser considerado um crítico de seus ex-colegas ou de seu chefe. "Todo dia tínhamos um plano para o dia seguinte, e todo dia tínhamos de dizer: Vamos reagir aos eventos que interferem com nosso plano ou não?"

"Fomos para Ohio, que perdeu 250 mil empregos, e 15 soldados haviam morrido naquela manhã no Iraque, e pretendíamos falar sobre as perdas de emprego", disse o estrategista. Se Kerry dissesse algumas palavras sobre as baixas do dia, "era isso que a imprensa ia cobrir, e nunca passaríamos nossa mensagem sobre empregos. Por outro lado, como poderíamos fazer um discurso e não falar sobre isso? Todo dia tínhamos de enfrentar esse dilema".

Mas outro grande motivo pelo qual Kerry não conseguiu fechar a venda com os eleitores de classe média, segundo assessores, foi que a campanha Bush-Cheney conseguiu --com a ajuda do próprio Kerry-- fazê-lo parecer de certa forma estranho é muito distante da vida daqueles eleitores para que pudesse compreendê-los.

"Em parte foi seu estilo, seu aspecto, sua maneira de falar, sua mulher, o windsurfe, as casas", disse o ex-estrategista, que como outros oficiais de campanha disse que a soma disso tudo serviu à caricatura republicana de Kerry como vagamente estrangeiro.

"Por isso não acho que houve uma coisa específica, mas uma série de coisas viscerais que dificultaram ainda mais a questão para eles. Nós tentamos tornar sua linguagem mais enxuta, com discursos mais simples, menos estatísticos; nós o fizemos caçar, o colocamos em um bar em Wisconsin para assistir a um jogo de futebol; tentamos humanizá-lo para as pessoas", disse o estrategista.

"Mas afinal o que é provavelmente mais importante na política é que você quer ser tão autêntico quanto possível. Gore cruzou a linha de ser inautêntico e não passou no teste do cheiro. Kerry não cruzou essa linha, mas as pessoas também não se ligaram autenticamente a ele. As pessoas sentiram que podiam se conectar com Bush mesmo que não concordassem com ele, e nas margens isso importa."

Para Kerry e para o partido existe aqui uma velha lição que vale a pena reaprender, disse o estrategista: "Houve e continua havendo uma tendência comum nos democratas a tentar alcançar as pessoas pelo cérebro, e nos republicanos pelo coração. E em política o coração vence". Desafio do senador derrotado é continuar um nome forte na política Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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