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08/11/2004

Marajó é uma ilha equatorial, selvagem e curiosa

The New York Times
Larry Rohter

No Pará
Até mesmo para os brasileiros, que exploraram quase todos os cantos do seu país, a ilha de Marajó, na foz do Rio Amazonas, parece ser um ponto remoto e exótico.

Do tamanho da Suíça, Marajó é cheia de vida selvagem, florestas, praias, lagoas, manguezais e planícies alagadas, mas possui poucos moradores permanentes e está permeada de uma aura de fim do mundo. Assim, não é de se admirar que o programa "No Limite" - o equivalente brasileiro do reality show norte-americano "Survivor" - tenha sido filmado em determinada ocasião em Marajó.

No entanto, para os aventureiros e curiosos, Marajó e o grupo de ilhotas que a rodeiam consistem em uma atração quase irresistível. Raramente a natureza, em toda a sua majestade intimidadora, parece estar assim tão próxima: duas gigantescas massas d'água, o Oceano Atlântico e o Rio Amazonas, se entrechocam e, juntos, moldam a vida humana em uma batalha de outro tipo, tendo ao fundo a sufocante exuberância dos trópicos.

O que não significa que as condições de vida em Marajó sejam necessariamente espartanas. De fato, o luxo é algo difícil de se obter, mas nas três viagens que fiz à ilha nos últimos cinco anos, o que mais me impressionou foi a forma como os visitantes são mais bem recebidos no arquipélago hoje do que à época da minha primeira viagem, em 1978. Com a construção de vários hotéis nos últimos anos, atualmente é possível presenciar as belezas da vida selvagem e, depois, retornar ao conforto de um quarto onde há ar-condicionado e uma bebida gelada.

Foi essa exatamente a rotina que segui durante a minha última visita, em outubro. Após passear ao longo de uma praia isolada, onde as ondas se quebram sobre areias brancas, eu retornava ao meu hotel, o Ilha de Marajó, e relaxava à beira da piscina ou jogava pingue-pongue. Após a mudança da maré, eu retornava ao mesmo ponto da praia, apenas para constatar que, como resultado da eterna luta pela supremacia entre o Amazonas e o Atlântico, aquilo que anteriormente era água salgada, agora era água doce, e vice-versa.

Para aqueles que dispõe de tempo e dinheiro, há ainda a possibilidade de se alugar um barco por meio de uma agência de viagem e tentar presenciar a pororoca, a onda sem fim do Rio Amazonas. Um fenômeno mensal vinculado ao ciclo lunar, a pororoca surge quando a maré do Oceano Atlântico avança rio adentro por centenas de quilômetros, na forma de uma onda gigantesca que viaja a velocidade superiores a 30 km/h.

As pororocas são uma ocorrência freqüente nos rios de toda a Amazônia oriental, mas algumas das ondas mais espetaculares, de mais de três metros, ocorrem próximas à costa norte de Marajó, como bem sabem os habitantes locais, que utilizam canoas a remo ao invés de barcos a motor.

Tanto para moradores quanto para visitantes, a vida da ilha tende a se concentrar na porção nordeste, onde as cidades de Salvaterra e Soure, ambas na Baía de Marajó, se defrontam, separadas por um plácido trecho de pouco menos de dois quilômetros do Rio Paracaury, que pode ser atravessado por ferryboat ou táxis aquáticos. Os principais hotéis ficam neste local, margeando a baía. E muitas das fazendas que oferecem hospedagem aos turistas e uma amostra da vida rústica dos caubóis de Marajó também ficam ali perto, a menos de meia hora de carro.

A experiência nas fazendas é parte essencial de qualquer visita a Marajó, e o mais confortável dos estabelecimentos rurais disponíveis para turistas é o Marajó Park Resort Hotel, que fica, na realidade, na Ilha Mexiana, ao norte da ilha principal, separada desta por um canal estreito. A linha do equador passa sobre Mexiana, e a ilha é repleta de uma variedade de vida selvagem tropical, de uma maneira difícil de ser imaginada, da qual fazem parte desde os jacarés e bagres gigantes nos rios, até os barulhentos e belamente emplumados tucanos no ar.

As excursões pelo cenário natural a partir dos hotéis são lideradas por experientes caboclos, ou nativos ribeirinhos. E o meu passeio, no ápice da estação seca, não me desapontou. Iguanas de mais de um metro de comprimento corriam pelas estradas de barro enquanto eu e os meus companheiros de viagem nos aproximávamos em um jipe.

E quando paramos em um canal para jogar uma tarrafa, capturamos quase que imediatamente vários pirarucus adultos, um peixe que chega a medir mais de dois metros de comprimentos e a pesar mais de cem quilos. E isso não é história de pescador.

Certa vez, eu estava em uma canoa com o nosso guia, Raimundo, que me avisou para não entrar na água, que estava cheia de arraias, lampreias e peixes-elétricos. Ao retornar à terra, a primeira coisa que vimos foi uma vara de porcos selvagens, pôneis de Marajó e capivaras, um roedor semi-aquático grande e desprovido de cauda, nativo da Amazônia, e um bando de macacos que, das copas das árvores, gritavam para nós.

Podemos ouvir também ruídos de animais na selva próxima, e considerando que estávamos em uma área conhecida por ser o habitat de onças, foi interessante ficar pensando que animal poderia o responsável por tal barulho.

Os integrantes do meu grupo eram, em sua maioria, turistas franceses que conheciam a Amazônia pela primeira vez, e que não cessavam de emitir frases de admiração: "C'est magnifique! Fantastique! Incroyable! Vraiment, c'est le top!", foi o que ouvi sem parar enquanto eles disparavam as suas câmeras fotográficas.

E eu não poderia discordar. Durante 26 anos viajando por toda a região amazônica, nunca vi tanta vida selvagem concentrada em uma só área, com a exceção de um zoológico em Manaus, que é operado pela escola de guerra na selva do Exército Brasileiro.

Mas o animal que é a marca registrada de Marajó, por mais estranho que possa parecer, é o búfalo aquático, que teria chegado aqui acidentalmente da Indochina Francesa nos anos 20, quando um navio que seguia para a Guiana Francesa naufragou próximo à costa. De fato, a ilha possui atualmente um número de búfalos quatro vezes maior que o de pessoas - 600 mil contra 140 mil - e a presença dos animais permeia a vida da ilha.

A polícia local, por exemplo, patrulha a região em búfalos aquáticos, e não em cavalos, e os turistas que visitam qualquer fazenda podem montar essas bestas, que, apesar da sua aparência feroz, são dóceis. O búfalo aquático é mais comum nas planícies inundadas às quais estão perfeitamente adaptados, mas eles também vagam pelas ruas de Salvaterra e Soure, e a sua carne faz parte dos menus dos restaurantes como uma iguaria local.

A carne do búfalo pode não parecer particularmente apetitosa, mas ela é magra e possui, segundo um boletim do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, "40% menos colesterol, 55% menos calorias, 11% mais proteínas e 10% mais sais minerais" do que a carne de boi. O queijo de búfala, uma outra iguaria de Marajó, também demonstrou ser mais saboroso do que eu imaginara. Os dois ingredientes são combinados em um prato conhecido como Filé Marajó, que consiste em uma bisteca grelhada de carne de búfalo com queijo derretido por cima. Mas os restaurantes locais servem também muito peixe (especialmente tucunaré e bagres) e caranguejo.

Com toda essa vida animal, às vezes é fácil esquecer que Marajó também fascina os arqueólogos e outros interessados em culturas ameríndias. A partir do século cinco, a ilha foi habitada por um povo famoso pela sua cerâmica, que exibe complicados desenhos geométricos, na maior parte das vezes em vermelho e preto, além de figuras antropomórficas.

Embora esse grupo tenha desaparecido, amostras da cerâmica marajoara, parte dela recuperada pelos caboclos quando estão engajados em seus trabalhos nas fazendas e na pesca, podem ser vistas no incomum Museu de Marajó, uma ex-unidade de produção de castanhas-do-pará na vila de Cachoeira do Arari, no meio da ilha. A minha única queixa contra o museu é que para chegar até ele é necessária uma viagem de mais de uma hora por uma estrada precária em meio à selva, com atrasos ocasionais nas margens do rio motivados pela espera das barcas que fazem as travessias.

O museu era o orgulho de um padre italiano, o reverendo Giovanni Gallo, que morou em Marajó por muitos anos, até a sua morte em 2003, e que escreveu vários livros sobre a cultura marajoara. O museu é uma curiosa caixa de surpresas:

Há exibições focadas em lendas e folclores amazônicos (infelizmente, explicadas por textos somente em português) e uma coleção de animais empalhados, incluindo preguiças, papagaios, quatis, tamanduás e tatus.

Mas a mostra de cerâmica é notável e variada. Ela inclui um tipo de urna funeral grande conhecida como igaçaba, que os índios utilizavam em um processo ao qual os arqueólogos se referem como sendo um enterro secundário. Isso significa que dentro de cada urna existe um pequeno compartimento contendo os ossos dos mortos e um objeto associado a ele ou a ela: por exemplo, uma boneca para uma criança, ou um machado para um homem.

Conforme meu táxi passava pela exuberante floresta tropical, me ocorreu que Miami estava a pouco mais de cinco horas de vôo, e o Rio de Janeiro a menos de quatro horas. O meu motorista, Seu João, disse que nunca conheceu outro lugar e quis saber se a vida nesses locais é, de alguma forma, semelhante àquela de Marajó.

"Não", respondi. "Não existe nenhum lugar na face da Terra como Marajó".

Pode-se chegar a Marajó pelo ar ou pela água, e, entre essas duas opções, a viagem de barco é definitivamente a mais interessante e agradável.

Uma embarcação de dois andares deixa Belém, cidade de 1,5 milhão de habitantes do outro lado da baía, todas as manhãs por volta das 7h, e a jornada de três horas até Marajó oferece uma rara oportunidade para se observar os pescadores e moradores da floresta que têm no rio e na selva as suas precárias fontes de subsistência. A passagem de ida custa cerca de US$ 4, considerando um câmbio de cerca de três reais por dólar, e as reservas podem ser feitas pelo telefone (91)257-0299.

As agências de viagem em Belém podem fazer arranjos (e oferecer os melhores negócios) para viagens a Marajó por barco ou ar. Os vôos são feitos apenas em pequenos aviões, geralmente com capacidade para seis passageiros. A viagem de ida a partir de Belém custa cerca de R$ 210.

Em Soure, o melhor local para hospedagem é provavelmente o Hotel Ilha de Marajó, à margem do rio, entre as ruas Sete e Oito. O telefone do hotel é (91)241-3218 e o site na Internet é www.iaraturismo.com.br. Ele possui 36 quartos, uma piscina, e quadras de tênis e de vôlei. Um quarto de casal custa cerca de US$ 40, com café da manhã incluído.

Para os que visitam a ilha pela primeira vez, o aconchegante Paracauary Eco-Resort, na Avenida Prado, 6, Soure, telefone (91)222-6442 e website www.paracauary.com.br que foi inaugurado em 2001 e que possui oito quartos, é uma boa pedida. O quarto de casal custa US$ 40, com café da manhã, e há um desconto de 25% para temporadas de mais de dois dias.

O relativamente luxuoso Marajó Park Resort, de 80 quartos, na Ilha Mexiana, ((91)213-7043, www.marajoparkresort.com.br), oferece somente pacotes para vários dias, a partir de US$ 800 por pessoa, incluindo a viagem aérea com partida de Belém, todas as refeições e excursões com um guia.

O restaurante Paraíso Verde, na Travessa 17, 2135, Soure, (91)3741-1581, é especializado em pratos regionais como pato, caranguejo e carne de búfalo em porções generosas, servidos em meio a uma atmosfera amigável, condizente com o seu apelido, Paraíso Verde. O almoço ou jantar custam cerca de US$ 25, incluindo cerveja. Ele abre o dia todo, até a meia-noite.

À primeira vista, o Delícias da Nalva, na Rua Quatro, 1051, em Soure, não tem nada de restaurante. Isso porque a proprietária, Nalva, montou o estabelecimento na sua própria residência, concentrando-se nos pratos feitos com carne de búfalo e queijo. Uma refeição para dois custa cerca de US$ 20, incluindo a cerveja. Ele fica aberto até às 22h. O restaurante não tem telefone, e o pagamento só pode ser feito em dinheiro vivo.

Nos últimos anos, houve um retorno do interesse pela cerâmica marajoara. Dois locais em Soure que vendem réplicas de itens tradicionais, de jarros d'água a vasos e urnas (preços a partir de US$ 15), são a Arte em Barro, na Travessa 20, entre as ruas Três e Quatro, e, logo na eqüina entre a Rua Três e a Travessa 18 e 19, a Sociedade Marajoara das Artes. Até mesmo para os brasileiros, o vasto território parece ser exótico Danilo Fonseca

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