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08/11/2004

Santa Catarina é o paraíso das praias no Brasil

The New York Times
Victoria Gomelsky

The New York Times
Os brasileiros amam suas praias tanto quanto os russos amam suas saunas e os ingleses, seus bares. Por isso que, no Brasil, a busca pela praia perfeita é uma obsessão nacional.

A sabedoria convencional diz que Ipanema é a mãe de todas as praias festivas; o clássico da bossa nova está aí para provar. As costas em torno de Salvador, no Nordeste, se vangloriam de vistas perfeitas de cartão postal e uma rica herança afro-brasileira. Os conhecedores se reúnem nas areias de Búzios, tornada famosa por Brigitte Bardot.

Meu voto, entretanto, vai para a costa do Estado de Santa Catarina, cerca de 650 km ao sul da costa do Rio de Janeiro, onde as praias oferecem ondas para surfe de porte mundial e um ambiente de boemia -pense no Havaí, cerca de 1983- que tornam essa região do Brasil a próxima onda. Turistas argentinos, carnavalescos e surfistas freqüentam essas areias desde o início dos anos 90, para escapar da cena enlouquecida tipicamente associada com o carnaval do Rio de Janeiro e Salvador.

O porto de chegada mais conhecido da região é a capital do Estado, Florianópolis. É o portal da Ilha de Santa Catarina, onde os descendentes de pescadores açorianos abriram o caminho para modelos brasileiras e playboys internacionais, solidificando a reputação da ilha como o ambiente mais legal o ano inteiro na América do Sul.

Santa Catarina, colonizada no século 19 por agricultores alemães e italianos, é um dos Estados mais ricos do país. Alguns puristas desprezam-na como colônia européia, destituída da verdadeira alma brasileira. Com a ajuda de três amigas, em março, depois de um triste inverno em Nova York, eu estava determinada a provar o contrário. O plano era passar alguns dias em aquecimento no Rio, voar para Florianópolis, alugar em carro e dar a volta na cidade no sentido horário, começando por Canavieiras, balneário na costa norte.

Essa era minha terceira viagem ao Brasil, mas contei com a Anna, amante e residente do Brasil, para negociar o itinerário, inclusive a estadia de seis dias que reservamos para Santa Catarina. Além disso, toda vez que eu ficava com a língua presa, meu cérebro automaticamente lançava amenidades e espanhol. "Gracias", no lugar de "obrigada". "Que pasa?" em vez da saudação brasileira universal "tudo bom?"

Minutos depois de nossa chegada, compreendemos que a cidade congestionada é a resposta de Santa Catarina a Cancun: tantas lojas de camisetas, tão pouco tempo. A concentração de cafés com Internet, varandas com cerveja e aposentados não era exatamente o que esperávamos.

Na manhã seguinte, juntamos-nos às massas na praia, em frente de nosso hotel, e vimos uma parada sem fim de vendedores. Um carrinho carregado com todos os ingredientes para fazer caipirinha, a bebida nacional brasileira era acompanhado de música hippy-hoppy (como é chamada aqui na terra da vogal sem fim) gritando de seus minúsculos auto-falantes. Logo atrás, uma vovozinha com um turbante branco carregava uma grelha portátil. Instantaneamente fomos atraídas pelo cheiro de seu "choripan", uma salsicha argentina saborosa e salgada, servida com pão.

A farra se estendia até as águas rasas da praia, onde passageiros hilariantes enchiam um bote inflável. Se tivéssemos ido à ilha para brincar e festejar 24 horas por dia, essas imagens talvez acelerassem nosso ritmo cardíaco. Barra da Lagoa, uma comunidade de pescadores na beira da Lagoa da Conceição, prometia ser a salvação. Empilhamos-nos no carro alugado e partimos para a costa oeste da ilha, um percurso de 45 minutos, 50 km, ao longo de pequenas estradas.

No século 16, Floripa, como é conhecida a cidade, era um acampamento espanhol estratégico para o transporte de ouro e prata do Peru para a Europa. Em 1675, os portugueses lutaram pelo controle, montando o palco para imigrantes dos Açores que chegaram no século 18. Hoje, seus descendentes ainda cruzam as águas quentes da lagoa em barcos de cores vibrantes, procurando garoupa e camarão. Isso sim se aproximava do que buscávamos.

Depois de nos acomodarmos em uma pousada rústica, na Praia Mole, cerca de 10 minutos de carro depois da Barra da Lagoa, não resistimos e fomos tentar o esporte mais bizarro de Floripa: surfar nas dunas da ilha.

O surfista que administra a loja de aluguel apresentou-se como Carlos. Generosamente, ofereceu-se para levar minha prancha cor de melão para cima da duna íngreme. Uma nuvem de areia fina, pegajosa com o ar tropical, levantava-se enquanto eu me arrastava atrás dele. Quando chegamos ao topo, ele disse que tinha uma pousada do outro lado da rua e sugeriu que fossemos lá tomar uma bebida. Fingi não entender seu português cheio de gírias.

Por um momento, admirei o contraste entre a duna branca de cegar e as nuvens negras na praia da Joaquina, local da mais famosa competição de surfe do Brasil. Elas deram à tarde uma sensação elétrica e quente. Assim como o Adonis bronzeado de brinco no nariz ao meu lado, preparando-se para velejar no precipício. Ele estaria bem ambientado em Oahu ou Vail.

Em vez de marcar minha trilha pela duna, amarelei e usei a prancha como tobogã. Carlos pareceu desapontado quando acenei para me despedir, lá de baixo.

Naquela noite, a evidente aliança no dedo de Carlos gerou uma conversa entre um grupo de quatro sobre o casamento brasileiro, acompanhada de martinis de litchia e mojitos de manga, no Fusion Bar e Restaurante, situado no topo de um morro com vista para a Lagoa da Conceição.

À 1h da manhã, fomos para outro ponto quente de Floripa, o bar Confraria das Artes, que também serve de empório de arte e móveis. Aberto quatro meses antes, atraiu DJs estrangeiros além brasileiros viajados do Rio e São Paulo. Gisele tinha sido avistada. (Mas, infelizmente, Leo não).

Já ao estacionar, ouvimos a batida constante de música house. Uma recepcionista de pernas longas e minissaia cor de rosa levou-nos para um jardim de inverno. Brasileiros vestidos com estilo esticavam-se em poltronas antigas esquisitas, estofadas com cores de pedras preciosas: água-marinha, granada, turmalina. Os móveis, inclusive as mesas de café de madeira manchadas e luminárias de pé, que enchem o bar, estavam à venda.

Depois de uma rodada de caipiroskas, a versão mais leve da bebida nacional, com vodka, decidimos mudar nosso itinerário. Em vez de fazer nosso amigo brasileiro Roberto Srivastava vir até Floripa para nos encontrar nos nossos três últimos dias de férias, desceríamos a costa para encontrá-lo. Desde fevereiro, ele estava surfando na Praia do Rosa, uma cidade na costa de Santa Catarina, uma hora ao sul de Floripa. Popular durante o verão e inverno, quando as baleias do sul procriam, a praia em forma de meia lua foi eleita recentemente uma das 10 mais por uma revista brasileira.

Na manhã seguinte, partimos da Praia Mole, descendo a BR-101, nervosas depois de saber que a estrada tinha sido batizada a estrada da morte. O número de caminhões que nos ultrapassava na estrada de duas pistas explicou a razão.

Os hippies descobriram a Praia do Rosa nos anos 70. Lentamente, a notícia chegou a surfistas e turistas da Argentina e do sul do Brasil. A cidade ainda não tem ruas pavimentadas, mas há muitas pousadas refinadas, além de restaurantes de peixes e cozinha asiática.

Fazenda Verde nos pareceu melhor situada, com suas cabanas dando para o oceano, com fácil acesso às ondas. Deixamos nossas bagagens e corremos para o bar da praia, onde Roberto nos esperava com sua amiga Gabriela. "Bem vindas à praia da minha vida!" gritou Roberto.

Ele estava umas 10 vezes mais bronzeado do que a última vez que o vi.

David, instrutor de surfe do lugar, apresentou-se. "Se estiverem interessadas, posso lhes ensinar a surfar", disse ele.

Fazenda Verde oferecia passeios a cavalo e ioga, mas para realmente entrar na onda do lugar, a oferta de David era o bilhete de entrada.

A aula para iniciantes do dia seguinte, na lagoa de água doce, provou-se exaustiva e excitante. Nada me preparara para a sessão de surfe: nunca comi tanta areia. Quando carreguei minha prancha para fora da água, havia uma roda de moradores bronzeados e fortes com caras de espanto.

Em casa, talvez me sentisse envergonhada pela minha ginástica aquática pouco graciosa. Em vez disso, finalmente entendi porque os brasileiros dão tanta importância ao seu relacionamento com a praia: em um país conhecido tanto por sua abordagem saudável à vida quanto por suas favelas cheias de crime e pobreza, a praia é uma grande régua equalizadora. Tudo que importa é com quanta confiança você tira a areia de seu maiô.

Logo, era hora de nosso jantar de despedida na Lua Marinha, um restaurante de bambu, famoso por seus frutos do mar: tigelas de camarões gigantes e apimentados, direto da lagoa de Ibiraquera.

De volta à mesa, a conversa tinha se voltado para os biquínis. Gabriela e Roberto queriam saber se nos sentíamos confortáveis em nossos recém adquiridos pedaços minúsculos de lycra, costurados a mão e decorados com desenhos ao estilo de Pucci, em tons pastéis.

"Tudo bom?" Gabriela perguntou enquanto eu devorava meu último camarão gigante. Sim, tudo estava bom.

Como poderia explicar que depois de três visitas ao Brasil eu tinha finalmente encontrado meu lugar em Santa Catarina? Que caminhando pela costa de Floripa e Praia do Rosa em meu biquíni, tinha descoberto o estilo brasileiro e minha alma? Que nada cura o frio do inverno melhor do que uma brincadeira na areia?

Tudo bom.

Sol, surfe e o espírito do samba.

A temporada na Ilha de Santa Catarina, popularmente chamada de Floripa, começa no final de novembro e tem seu pico no Carnaval, em fevereiro, quando escasseiam as acomodações. A páscoa é o final tradicional do verão.

Onde ficar?

Ilha de Santa Catarina: The Palace Praia Residence, Avenida das Nações, 01, Praça República do Líbano, Praia de Canasvieiras; (55-48) 266-4111, fax (55-48) 266-4647, www.palacepraia.com.br. Hotel moderno de 60 quartos de frente para a principal praia de Canasvieiras. Não deixe de visitar a cobertura. Quartos duplos a partir de US$ 70 (em torno de R$ 210).

Um complexo esportivo, spa e inúmeras instalações de recreação para crianças tornam atraente para famílias o Costão do Santinho, Resort e Spa, Estrada Vereador Onildo Lemos 2505, Praia do Santinho; (55-48) 261-1000, fax (55-48) 261-1200, www.costao.com.br. São 695 apartamentos, 14 chalés e um hotel. Os quartos duplos nos chalés custam a partir de US$ 187 e vão até US$ 585 (entre R$ 560 e R$ 1.750 aproximadamente), para um apartamento de quatro quartos. Outros quartos começam em US$ 338 (em torno de R$ 1.014), o casal. Todas as tarifas incluem duas refeições por dia.

Praia do Rosa: A praia fica a metros de distância da Fazenda Verde, Estrada Geral da Praia do Rosa; telefone e fax (55-48) 355-7272, www.fazendaverdedorosa.com.br. Um eco-resort com três restaurantes, piscina e bar, tem oito estúdios, 11 apartamentos de quarto e sala e 18 chalés de dois quartos. O chalé custa US$ 100 (em torno de R$ 300); quartos duplos são entre US$ 34 e US$ 75 (entre R$ 100 e R$ 225).

A Pousada Solar Mirador, Estrada Geral da Praia do Rosa; telefone e fax (55-48) 355-6144, www.solarmirador.com.br tem uma vista que domina a praia do topo do morro. As 12 suítes, com varandas, redes e café da manhã variam entre US$ 116 e US$ 144 (entre R$ 350 e R$ 430, aproximadamente), na alta temporada.

Onde comer e beber:

Ilha de Santa Catarina: Confraria das Artes, (55-48) 232-8512, o empório de artes e lounge pretensioso com DJ, fica na praia da Joaquina. Uma rodada de mojitos para quatro pessoas e uma fatia de bolo de chocolate custaram US$ 22 (em torno de R$ 66). Aberto para almoço e jantar. Fechado às segundas.

Praia Moles Fusion Bar e Restaurante, (55-48) 232-1797, tem uma vista excelente da lagoa de Floripa, além de saborosos coquetéis tropicais. Jantar para dois de figos com gorgonzola, risoto de camarão, salmão com pistache e quatro coquetéis custou US$ 52 (em torno de R$ 150).

Praia do Rosa: Fazenda Verde tem várias opções de jantar casual na beira do mar. O Restaurante Tigre Asiático, (55-48) 355-7045, tem um ambiente adorável de bambu e o mais extenso cardápio pan-asiático, com cozinha japonesa, malásia e tailandesa. Um jantar para quatro saiu por US$ 84 (aproximadamente R$ 250), inclusive uma garrafa de malbec argentino. Aberto diariamente a partir 18h.

Longe do burburinho, Lua Marinha (55-48) 354-0543, é a opção mais romântica de jantar da Praia do Rosa. Tigelas de ostras e camarões para seis, inclusive uma rodada de sangria, custaram US$ 60 (em torno de R$ 180). Aberto de quarta a domingo, à noite. Praias locais oferecem ondas para surfe e ambiente de boemia Deborah Weinberg

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