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09/11/2004

Bush venceu devido à ignorância dos americanos

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
A chamada questão dos valores, pelo menos como vem sendo divulgada popularmente, está sendo superestimada.

A eleição da semana passada foi extremamente disputada e uma alteração modesta em qualquer número de fatores poderia ter modificado o resultado.

Se o clima estivesse melhor em Ohio . . .

Se a fila para votar não fosse tão longa em certos redutos democratas . . .

Ou talvez se aqueles eleitores jovens tivessem realmente votado . . .

Creio que se pode alegar que a ignorância desempenhou um papel pelo menos igual ao dos valores para o resultado da eleição. Uma pesquisa recente feita pelo Programa de Atitude Relativas à Política Internacional, da Universidade de Maryland, revelou que quase 70% dos eleitores do presidente Bush acreditam que os Estados Unidos descobriram "claras evidências" de que Saddam Hussein estava trabalhando em conjunto com a Al Qaeda.

Um terço dos apoiadores do presidente acredita que foram descobertas armas de destruição em massa no Iraque. E mais de um terço acredita que uma maioria substancial da população mundial apoiou a invasão liderada pelos Estados Unidos.

Isso é algo assustador. Como fazer um apelo político racional a pessoas que desligaram parte dos seus cérebros? Não é de se admirar que Bush tenha vencido.

A pesquisa, e um relatório que a acompanhou, demonstrou que existe muita tolice em meio àquela multidão preocupada com os valores. "Está claro que os eleitores do presidente têm maior propensão a incorrerem em equívocos do que aqueles que se opuseram a ele", disse o relatório.

Após a eleição, não ouvi nenhum comentarista falando da ignorância e dos seus efeitos sobre os resultados. O que ouvi a todo momento foi uma argumentação centrada na questão dos valores. Democratas traumatizados cerram os punhos e tentam descobrir como apelar aos eleitores que alegaram arrogantemente estar em um patamar moral superior e que não conseguem parar de se gabar dessa autoproclamada superioridade. Candidatos potenciais estão se agarrando a novas preces e arrumando lugares nos bancos frontais das igrejas.

Mas os democratas adotariam uma abordagem mais prática caso acrescentassem certas lições aos seus esforços. Qualquer coisa capaz de reduzir as fileiras dos tolos ajudaria.

E se alguém não acredita que essa questão dos valores tenha saído de controle, basta pensar no primeiro parágrafo de um artigo de opinião publicado na edição da última sexta-feira do jornal "The Los Angeles Times". O texto é de Frank Pastore, ex-jogador profissional de beisebol que atualmente é apresentador de um programa cristão da estação de rádio KKLA.

"Os cristãos, na política e no evangelismo, não são contrários ao povo ou ao mundo. Mas somos contrários às falsas idéias que cativam as pessoas boas. Na terça-feira, esta nação rejeitou o liberalismo, basicamente porque o liberalismo foi aprisionado pela esquerda. Desde 1968, a esquerda aprisionou milhões de pessoas, e precisamos ajudar aqueles democratas que realmente querem ser livres a se libertarem de fato dessa ideologia maligna", diz Pastore.

Ele continua a sua pregação, exortando os cristãos conservadores a rejeitarem toda e qualquer voz que possa pedir que eles "façam acordos com os derrotados". O que isso tem a ver com valores?

Aqui no The New York Times da quinta-feira, Richard Viguerie, o diretor conservador de mala direta, declarou: "Agora vem a revolução. Os liberais, vários deles inseridos na mídia e no Partido Republicano, estão pedindo ao presidente que 'unifique' o país descartando os aliados que lhe deram mais quatro anos".

É claro que Viguerie repudiaria qualquer medida perigosa rumo a uma reconciliação.

É preciso ter cuidado ao mencionar a palavra "valores" por aí. Nem todos os valores são criados iguais. Alguns democratas cravam olhares cobiçosos nos eleitores cujos valores, em vários casos, são francamente repulsivos. Faz sentido para os elementos progressistas da nossa sociedade minar as suas próprias crenças profundas na tolerância e na justiça em um esforço para abraçar aqueles que procuram deliberadamente dividir?

O Partido Democrata necessita acima de tudo de uma mensagem clara e de um candidato enérgico e convincente. A mensagem precisa convencer os norte-americanos de que estes estariam em melhor situação se seguissem uma visão democrata progressista do futuro.

O candidato precisa ser uma pessoa de integridade capaz de conquistar o respeito e a afeição do povo norte-americano. E isso é algo factível. Al Gore e John Kerry não foram candidatos exatamente brilhantes, e ambos por muito pouco não derrotaram Bush.

Os democratas não necessitam de um candidato que deseje moldar os seus valores a fim de se adaptarem às análises provavelmente incorretas dos analistas da última eleição. Para início de conversa, valores que se modificam de acordo com as circunstâncias não são de fato valores. Não foram os "valores", alguns repulsivos, que lhe deram a vitória Danilo Fonseca

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