UOL Notícias Internacional
 

09/11/2004

Campanha de Bush para os latinos foi mais eficaz

The New York Times
Kirk Johnson
Em Denver
As propagandas do presidente Bush nos canais de televisão de língua espanhola adotaram um tom negativo no outono, atacando o retrospecto de votação do senador John Kerry e sua posição em relação ao aborto. As propagandas de Kerry nos mesmos canais, mantendo o apelo tradicional dos democratas junto aos eleitores latinos há gerações, se mantiveram positivas, raramente mencionando sequer o nome de Bush.

Mas no final, Bush ficou com 44% do voto latino --mais do que qualquer candidato republicano à presidência pelo menos nas últimas três décadas. Tal contagem, mais de 10 pontos percentuais acima do que recebeu em 2000, arruinou a esperança dos democratas de que a crescente população latina ajudaria Kerry a vencer no Colorado ou no Novo México, talvez até mesmo na Flórida.

Poucos especialistas disseram acreditar que Bush conseguiu o tipo de mudança sísmica que Ronald Reagan conseguiu no início dos anos 80, ao conquistar o voto dos eleitores operários brancos [que costumam votar no Partido Democrata]. Afinal, a maioria dos latinos ainda votou em Kerry.

Mas o que ficou inquestionavelmente claro, disseram estes especialistas, é que assim como a grande onda latina na cultura pop, que está influenciando cada vez mais americanos em áreas como música, alimentos e moda, esta eleição representou um grande salto para os eleitores latinos ao deixarem de ser considerados como diferentes e separados.

Não mais considerados seguramente democratas, não mais considerados votos certos --e mais elegíveis do que nunca, com a eleição dos dois primeiros senadores latinos em 30 anos, pelo Colorado e Flórida-- um novo eleitor indefinido pode ter surgido.

"A conclusão para mim é que com este resultado, não é mais sensato pensar nos eleitores latinos nacionalmente como sendo um eleitorado básico do Partido Democrata", disse Roberto Suro, diretor do Centro Hispânico Pew, uma organização de pesquisa não-partidária em Washington.

"Nós estamos abertos", disse F. Chris Garcia, professor de ciência política da Universidade do Novo México. "Isto é bom para os latinos --nós seremos mais influentes no futuro e um alvo maior para ambas as campanhas."

Mas não há uma única explicação para como a campanha de Bush foi capaz de conseguir isto. A lealdade dos cubano-americanos já tinha dado uma abertura para o Partido Republicano entre os eleitores latinos, e Bush já era forte entre os eleitores latinos no Texas, que são na maioria méxico-americanos.

Mas as estratégias diferentes dos dois partidos, refletida nas propagandas na televisão em espanhol, disseram estudiosos latinos e analistas políticos, também foram reveladoras se não decisivas: a campanha de Bush tratou os eleitores latinos da mesma forma que os demais --buscando os conservadores culturais, que neste caso apenas por acaso eram latinos.

A campanha de Kerry buscou votos como se os latinos, como no passado, fossem garantidamente democratas. As propagandas enfatizavam questões como imigração e oportunidades econômicas, usando poucas técnicas publicitárias de ataque, onipresentes na televisão de língua inglesa, para fechar o negócio.

"Os democratas fizeram um amplo apelo para uma base democrata e não um apelo especifico para todos os eleitores latinos religiosos, ou mesmo para segmentos específicos do eleitorado latino", disse Adam Segal, diretor do Projeto Eleitor Latino da Universidade Johns Hopkins.

"A campanha de Bush usou valores morais, especificamente a discussão nacional sobre casamento gay e direito de aborto, como temas para sensibilizar a comunidade latina e tentar atrair um segmento religioso conservador."

Les Dorrance, um guarda de segurança em Denver cuja família mora no Colorado há gerações, é o tipo de eleitor latino que a campanha de Bush procurou e conquistou.

Dorrance disse que os valores culturais conservadores sobre aborto e santidade do casamento são questões importantes para ele, e ele votou em toda a chapa republicana após o nome de Bush, votando até mesmo contra Ken Salazar --democrata que era o único latino na cédula do Colorado-- no processo. Salazar derrotou o candidato republicano, Peter H. Coors, para a cadeira no Senado que será deixada por Ben Nighthorse Campbell, um republicano que optou por não buscar um terceiro mandato.

"Eu votei em Bush com base em sua posição moral", disse Dorrance em uma recente manhã de sol em Denver, enquanto patrulhava em frente a um prédio de escritórios no centro da cidade. "Bush é pró-vida, eu sou pró-vida. Ele acredita que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher, e eu penso o mesmo."

Mas os valores sociais conservadores foram apenas parte do apelo, disseram os analistas.

Os latinos estão representados em peso na Corporação Marine dos Estados Unidos, e segundo algumas pesquisas nacionais, são tão patrióticos quanto os americanos podem ser; ambos os fatores poderiam aumentar o apoio para o presidente em exercício em tempo de guerra. E a atenção dos candidatos à segurança e ao terrorismo global pode ter deixado em segundo plano as questões domésticas e econômicas que os democratas usaram no passado para atrair a população latina altamente proletária

"As campanhas, propositadamente ou não, não deram destaque a coisas como empregos, educação e saúde", disse Janet Murguia, diretora-executiva e diretora operacional chefe do Conselho Nacional de La Raza, um grupo não-partidário de defesa e direitos civis. "Ao mesmo tempo havia um esforço concentrado dos republicanos para se dirigirem à comunidade latina de novas formas."

Nos Conocemos

Murguia disse que a Igreja Católica Romana contribuiu para isto, com sermões e outras mensagens nas paróquias de língua espanhola sobre aborto e pesquisa de células-tronco embrionárias, a qual muitos conservadores são contrários porque podem resultar na destruição de embriões humanos.

O tom negativo nas propagandas da campanha de Bush na televisão de língua espanhola também representaram uma inovação neste ano, segundo o Projeto Eleitor Latino da Johns Hopkins. Na campanha de 2000, nem Bush nem seu oponente democrata, Al Gore, empregaram propagandas de tom negativo na televisão de língua espanhola, disseram membros do projeto.

Até mesmo o slogan que foi usado em muitas propagandas impressas, abaixo do nome do presidente, reforçava a mensagem da campanha de que Bush era o candidato, apesar de toda a história e tradição com os democratas, que realmente falava a linguagem da cultura latina.

"Nos Conocemos" (Nos conhecemos), diziam as propagandas.

Alguns estudiosos alertaram que, como os americanos de toda categoria, mais eleitores latinos votaram neste ano, então é possível que a organização local tenha sido tão responsável --ou até mais-- quanto a mensagem conservadora republicana para atingir os latinos. Bush pode ter se saído bem, segundo eles, porque mais pessoas que já concordavam com ele votaram, e não porque ele tenha mudado corações e mentes.

O próprio Bush já tinha se saído bem junto aos eleitores latinos antes. Na sua primeira eleição presidencial em 2000, ele recebeu 35% do voto latino, atrás até este ano apenas de Reagan, que recebeu 37% em 1984, segundo pesquisas eleitorais desde 1972.

"O estilo pessoal de George Bush está mais em sintonia com muitos latinos --ele é familiar", disse Garcia, da Universidade do Novo México. "Ele fala e age da mesma forma que os anglo-saxões do Sudoeste."

É cedo demais, disseram alguns especialistas, para sugerir que os latinos de Bush se juntarão às fileiras dos democratas de Reagan. Garcia, por exemplo, não acha que esta eleição anuncia um novo padrão permanente no voto latino.

"Uma andorinha só não faz verão", disse ele.

Virada republicana

Mas outros especialistas disseram que a travessia do limiar de 40% representa uma virada, especialmente considerando que o rápido crescimento da população latino a torna a maior minoria étnica da nação.

Suro e outros dizem que talvez a verdadeira mensagem da eleição é que os eleitores latinos não podem ser rotulados. Em um ano em que o Partido Democrata nacional patinou entre os latinos, os dois primeiros em 30 anos foram eleitos para o Senado --Salazar, um democrata, aqui no Colorado, e Mel Martinez, um republicano, que foi eleito para a cadeira do senador Bob Graham, na Flórida.

Mas enquanto Salazar é um moderado com profundas raízes rurais como agricultor e fazendeiro, Martinez é um cubano-americano conservador que já foi secretário da habitação e desenvolvimento urbano de Bush. E ambos tiveram que ter apelo junto a um universo muito maior do que qualquer bloco étnico tradicionalmente definido para serem eleitos. Republicanos trataram os hispânicos como se fossem anglo-saxões George El Khouri Andolfato

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