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10/11/2004

Êxodo urbano deixa os EUA mais consevadores

The New York Times
David Brooks

Colunista do NYTimes

Em Orlando, Flórida
Cerca de seis meses atrás, lancei um livro sobre os florescentes "exúrbios" --regiões semi-rurais, além dos subúrbios, como o corredor I-4, no centro da Flórida, e Henderson, em Nevada. Esses são os locais onde George Bush conseguiu um impressionante número de votos, que lhe permitiu continuar presidente.

O meu livro começa com uma observação feita por Witold Rybczynski, segundo a qual a população norte-americana está se descentralizando mais rapidamente do que qualquer outra sociedade na história. Moradores de subúrbios tradicionais estão se mudando para amplos exúrbios que se libertaram da atração gravitacional exercida pelas cidades e que agora vivem uma existência autônoma em um mundo bem além da região urbana.

Do total de espaço construído nos Estados Unidos na década passada, 90% corresponderam aos subúrbios, localizados geralmente em blocos comerciais ao longo das estradas interestaduais. Mas agora há uma tribo de pessoas que não só não trabalham nas cidades, mas que não têm contato algum com a vida urbana, não freqüentando as metrópoles sequer para ir ao cinema.

São comunidades grandes e espraiadas, sem um centro definido. Mesa, no Arizona, por exemplo, tem uma população maior que a de Saint Louis ou Minneapolis (maiores cidades dos Estados de Missouri e Minnesota, respectivamente).

No meu livro, procurei descrever a cultura nesses locais --os parques de escritórios, os shopping centers em forma de grandes caixotes, as equipes de viagem e os enclaves de imigrantes. Mas quando chegou o momento de fazer o marketing do livro, falhei em dois aspectos importantes.

Fui incapaz de descobrir como dizer aos moradores dos exúrbios que fiz um livro sobre eles. Escrevi sobre lugares como os condados de Loudoun, em Virgínia, e de Polk, na Flórida, mas a tarefa de comercializar o livro me levou a centros urbanos como Filadélfia, Seattle e Manhattan.

Os locais sobre os quais eu estava escrevendo são tão novos, e a sua organização civil é ainda tão parca, que há poucos circuitos de palestras ou grandes bibliotecas disponíveis para que o autor fale sobre a questão. A infraestrutura normal de edição não existe nesses casos.

Eu estava prestes a dar uma palestra em Berkeley, Califórnia, quando perguntei a alguns funcionários da livraria local se eles venderam muitos exemplares do livro "The Purpose-Driven Life" (algo como "A Vida Guiada por um Objetivo"), de Rick Warren. Eles não estavam familiarizados com a obra, embora tenham sido vendidos vários milhões de exemplares do livro. Percebi que há dois discursos neste país. Eu estava dentro do discurso da elite tradicional, e de alguma forma precisava encontrar o discurso de Rick Warren, mas me via incapaz de encontrar um atalho para ele.

Foi por isso que fiquei tão impressionado por Karl Rove, o estrategista político de Bush. Como um grupo de repórteres do The New York Times demonstrou na edição do último domingo, os republicanos tiveram um êxito enorme em exúrbios como os da região central da Flórida. Eles permearam essas comunidades, e disseminaram suas mensagens políticas.

A minha segunda falha foi o fato de não ter conseguido fazer com que porções significativas do público democrata ficassem realmente curiosas quanto à cultura exurbana. Houve exceções. Por exemplo, quando Al From, do Conselho de Lideranças Democratas, de tendência centrista, ficou sabendo sobre o que eu escrevia, me convidou para falar a grupos de democratas a fim de descrever a estes a importância dos exúrbios. Ele sabia como essas áreas seriam vitais para a eleição.

Mas eu fui incapaz de fazer com que a maior parte das pessoas com as quais falei ficasse realmente fascinada, até mesmo em um sentido antropológico, por essas novas zonas demográficas. Isso se deveu em parte ao fato de eu estar lutando contra um estereótipo que tem meio século de idade.

Filmes como "A Primeira Noite de um Homem" e "Beleza Americana" reforçaram a idéia de que os subúrbios são blocos superficiais, materialistas e monótonos, onde as pessoas são conformistas por fora e vazias por dentro. O estereótipo é absurdo, mas ele bloqueia novos raciocínios.

O outro problema que enfrentei foi o fato de não ter descrito adequadamente a atração contraditória exercida por esses locais sobre milhões de pessoas. Por outro lado, os indivíduos se mudam para os exúrbios porque desejam contar com certa ordem em suas vidas.

Elas deixam para trás locais onde se desgastavam indo de casa para o trabalho, pagavam prestações altíssimas pela casa própria, viam as famílias se dissolverem e eram sufocadas por estruturas sociais estressantes. O seu destino são localidades com espaço amplo, famílias intactas, uma cultura amistosa para com as crianças e uma igualdade social colocada em vigor de forma intensa.

Isso é algo burguês.

Por outro lado, eles estão dando um salto ousado rumo ao desconhecido, mudando-se para cidades que mal foram construídas, trabalhando freqüentemente em prédios comerciais de alta tecnologia onde desenvolvem atividades pioneiras nos campos da biotecnologia e da nanotecnologia. Esses exúrbios são conservadores, mas também utópicos.

Parte do motivo para a vitória dos republicanos foi o fato de Bush e Rove entenderem essa cultura. Atualmente, todos estão dando conselhos aos democratas, e o meu é no sentido de que não aceitem conselhos de pessoas que tenham acesso à mídia --incluindo eu-- apenas por precaução.

Explorem esses novos espaços e entrem naquele outro discurso. Não tenham pressa. Há um novo mundo lá fora. "Exúrbios", novas áreas semi-rurais, determinaram vitória de Bush Danilo Fonseca

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