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10/11/2004

Governo dos EUA censura pesquisas sobre sexo

The New York Times
Benedict Carey

Em Nova York
Em uma cena do filme "Kinsey", que estréia nos cinemas americanos nesta sexta-feira (12/11), agentes do governo apreendem uma caixa de materiais de estudo sendo enviados por Dr. Alfred C. Kinsey, pioneiro de pesquisa em sexo, e censuram o conteúdo como obsceno.

A cena retrata uma época da história americana, nos anos 40 e 50, em que as relações maritais raramente eram discutidas, e o relatório franco sobre sexo foi recebido com uma ansiedade coletiva beirando o horror. Em 1948, quando Kinsey publicou "Sexual Behaviour in the Human Male" (Comportamento Sexual no Homem), foi chamado de pervertido, de ameaça e até de comunista.

Muito mudou desde então. No entanto, os pesquisadores dizem que uma coisa permanece igual: a ambivalência americana sobre o estudo científico da sexualidade.

Décadas depois da revolução sexual, os pesquisadores sexuais nos EUA ainda operam em uma espécie de submundo científico, temendo a repressão ou a censura. Em uma cultura repleta de conversas sobre sexo e conselhos sexuais em revistas, filmes e na televisão, os pesquisadores apresentam suas descobertas em linguagem codificada, sabendo que, a qualquer momento, eles, como Kinsey, podem ser considerados ameaça pública.

Cientistas sociais dizem que apesar da diversidade e da liberdade sexual, a nação que inventou o Viagra e "Sex in the City" ainda se sente mal em explorar o desejo sexual, mesmo quando esse conhecimento é central para a saúde pública.

Por exemplo, em julho de 2003, o Congresso ameaçou fechar vários estudos sexuais respeitados, inclusive um sobre a relação da emoção com a excitação e outro sobre a saúde em casas de massagem. No último verão, autoridades da saúde recusaram-se a financiar uma proposta patrocinada por três grandes universidades para apoiar e treinar alunos interessados em estudar a sexualidade.

Como resultado dessa hostilidade contínua, os pesquisadores dizem que ainda sabem muito pouco sobre questões fundamentais da área. Por exemplo, como o desejo sexual afeta o julgamento, como os jovens desenvolvem sua identidade sexual, por que tantas pessoas têm comportamentos arriscados no sexo, como a personalidade e o humor afetam a saúde sexual e como a explosão de material erótico na Internet e encontros marcados pela rede afetam o comportamento.

Talvez a maior reação tenha surgido em resposta aos esforços de desenvolver tratamentos ou mesmo estudos de comportamentos sexuais pervertidos, como a pedofilia. Essa oposição ficou ainda mais feroz depois dos escândalos na Igreja Católica Romana.

"Estou nesse campo há 30 anos. Hoje, o nível de medo e de intimidação é maior do que jamais foi. Com as eleições recentes, há preocupações de que haverá ainda mais intrusão da ideologia na ciência", disse Gilbert Herdt, pesquisador da Universidade Estadual de San Francisco que dirige o Centro Nacional de Recursos em Sexualidade, um armazém de informações sexuais.

Ele acrescentou: "Mas este país sempre teve um relacionamento complicado com a pesquisa sexual". Grande parte da desconfiança se baseia em crenças religiosas. Muitos fiéis consideram qualquer esforço para se catalogar comportamentos sexuais como uma publicação de um manual do pecado carnal, um convite à perversão.

"Conhecemos a fórmula para a saúde sexual, que é o sexo dentro de um relacionamento monógamo da vida toda. O estudo de variações dele é um esforço, como foi o de Kinsey, de mudar a moral sexual da sociedade, para que aquilo que a maior parte das pessoas considera perversão pareça normal", disse o reverendo Peter Sprigg, diretor de estudos de casamento e da família do Conselho de Pesquisa de Família, um grupo de lobby conservador com base em Washington.

Apesar de os conservadores religiosos sempre terem feito objeções à pesquisa sexual, várias coisas mudaram desde o tempo de Kinsey, disse John Gagnon, professor emérito de sociologia da Universidade Estadual de Nova York, em Stony Brook, e autor de "An Interpretation of Desire" (Uma interpretação do desejo).

"Naquela época, a moralidade dos brancos protestantes das pequenas cidades era a moralidade americana, que falava em uníssono", disse ele. "Hoje, eles não definem a discussão; há vozes seculares que também falam sobre a saúde sexual, sobre o prazer, o feminismo, o movimento gay e assim por diante."

Segundo Gagnon, os críticos da pesquisa sexual reagiram organizando-se e formando articulações políticas. Sprigg concordou que grupos conservadores como o Conselho de Pesquisa da Família e o Foco na Família coordenaram ações para conseguir maior supervisão pública dos projetos.

No final do ano passado, a Coalizão de Valores Tradicionais, organização de 43.000 igrejas, fez objeção pública a projetos de pesquisa patrocinados pelo governo com cerca de US$ 100 milhões (em torno de R$ 300 milhões). Grande parte dos estudos abordava o comportamento sexual. Além disso, a coalizão compilou uma lista de mais de 150 pesquisadores que tinham desenvolvido estudos sobre o sexo que circulou amplamente entre críticos e cientistas, que a chamam de "lista de alvos".

"Todos aprendemos o jogo do eufemismo, no qual usamos palavras codificadas para mascarar nossos estudos" e evitar aparecer nessa lista, disse Thomas Coates, pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles. As mulheres que trabalham em casas de massagem são "mulheres de alto risco" e uma pesquisa recente de comportamento sexual chamou-se "Aspectos sociais de comportamento relacionado à fertilidade".

Em 2003, uma pequena bolsa federal para um estudo chamado "Mecanismos que influenciam a tomada de risco sexual" colocou o próprio instituto de Kinsey, hoje chamado de Kinsey Institute for Research in Sex, Gender and Reproduction, de volta à briga.

A pesquisa aborda a questão que autoridades da saúde dizem ser crítica: por que algumas pessoas assumem conscientemente riscos que poderiam ser evitados com simples precauções, como o uso de preservativos?

"Todas as mensagens de saúde pública que ensinam as pessoas a fazerem sexo seguro assumem que as pessoas agem racionalmente", disse Erick Janssen, psicólogo do instituto, no campus da Universidade de Indiana, e principal pesquisador do estudo. "Muitos não fazem isso, e então as mensagens não os atingem. Para compreender como formular melhor essas propagandas, precisamos saber como eles estão pensando."

Na pesquisa de Janssen, as pessoas entram em uma pequena sala no instituto, onde se sentam sozinhas e assistem a trechos de filmes no monitor de um computador. Em um experimento, os participantes vêem um curto segmento do filme "O Silêncio dos Inocentes", para gerar ansiedade. Depois, assistem a alguns minutos de um filme pornográfico. Ao medir a excitação, com sensores nos órgãos genitais, no coração e em músculos, Janssen espera saber mais sobre como as ondas de emoção afetam a excitação, e quais estados geram o comportamento sexual mais irresponsável.

As descobertas ajudarão os cientistas a entenderem não só quem tem maior probabilidade de arriscar sua saúde ou casamento assumindo riscos sexuais, mas quando e por quê, dizem os pesquisadores.

"Aí poderemos intervir com maior eficácia", disse ele.

O Congresso, entretanto, interveio primeiro. Em julho de 2003, o deputado Patrick J. Toomey, Republicano da Pensilvânia, apresentou uma emenda para sustar o financiamento do estudo de Janssen e de vários outros. A proposta só não foi aprovada por dois votos, mas os estudos foram criticados no jornal reacionário "The Washington Times" e ridicularizados em blogs conservadores e em programas de televisão.

Sprigg, que faz lobby conservador contra as pesquisa, disse: "Usar dólares do governo para pagar as pessoas para assistirem filmes pornográficos? Pergunto-me quantos americanos se sentiriam à vontade com isso."

Coringa sexual

Outra razão pela qual muitos americanos não se sentem confortáveis com pesquisas sobre sexo é que os estudos com sensores físicos não podem capturar o que para muitas pessoas é uma experiência profundamente emocional.

Ao tentar ser neutro, Kinsey, que era zoólogo, descreveu e catalogou comportamentos sexuais humanos da mesma forma que faria com os lagartos e vespas que estudava antes de se voltar para homens e mulheres.

Entretanto, o sexo dos humanos é muito mais complexo. Para uns, pode parecer o cimento que une relacionamentos românticos, ou um abraço solitário, ou um ato apático; pode animar uma amizade, destruir um casamento ou levar alguém de natureza tímida a brilhar confiante.

"O estudo do sexo pela fisiologia, como se fosse apenas outro comportamento, ignora o que está acontecendo na mente das pessoas, suas fantasias, seus desejos conflitantes. O uso de instrumentos de medição e sensores o reduz a apenas um ato físico, quando grande parte do que se passa é mental e nem sempre consciente", disse Leon Hoffman, co-diretor do Pacella Parent Child Center em New York.

Além disso, nem sempre o sexo se passa entre adultos que consentiram com o ato. Alguns atos sexuais --a pedofilia ou o estupro, por exemplo-- imploram uma visão crítica, e não a neutralidade científica, especialmente quando envolve diferença de poder ou idade.

É por isso que quase toda discussão de sexualidade em menores de idade tem sido politicamente explosiva, dizem os especialistas. Em uma condenação pública que chocou muitos pesquisadores, em 1999, o Congresso decidiu unanimemente denunciar um artigo de pesquisa em uma revista misteriosa que concluía que algumas vítimas de abuso sexual infantil sofriam de poucos danos emocionais de longo prazo.

O artigo não era um experimento original, mas uma revisão de artigos anteriores.

A Associação Psicológica Americana, que publicara o artigo, decidiu contratar um conselho independente para "revisá-lo" --uma decisão que revoltou alguns dos membros do próprio grupo e levou alguns pesquisadores a se desligarem da organização. Apesar de muitos especialistas dizerem que o artigo era cientificamente sólido, desde então, poucos tiveram coragem de propor um estudo de sexualidade envolvendo menores de idade.

A pedofilia é particularmente censurada. Psiquiatras e psicólogos estudaram e tentaram tratar presos por crimes sexuais, com sucesso limitado. Mas não está claro se esses condenados representam todas as pessoas que têm fantasias sexuais com crianças.

As pessoas não escolhem se tornar pedófilas, dizem os especialistas. Normalmente, são acometidas de desejos incomuns quando adultas, e muitas resistem um longo tempo agir sobre eles. Os pesquisadores sabem que os meninos que sofrem de abusos sexuais têm maior risco de desenvolver a pedofilia mais tarde, mas ainda sabem pouco sobre como esses impulsos desenvolvem, ou em quem.

"A intensidade da emoção nessa questão é tão alta que é heresia expressar qualquer preocupação com uma pessoa que apresente pedofilia, muito menos estudar um tratamento", disse Fred Berlin, fundador da clínica de distúrbios sexuais da Universidade Johns Hopkins. Ele acrescentou: "Desde o escândalo da Igreja Católica, não conheço ninguém que teve a coragem de sugerir que alguns na igreja estão doentes e precisam de ajuda."

Muitos entrevistados nessas pesquisas hesitam em revelar suas preferências sexuais que sabem que poderão ser consideradas diferentes ou estranhas. A preocupação com a privacidade é creditada à moralidade provinciana do tempo de Kinsey.

As pesquisas originais de Kinsey revelaram uma diversidade no comportamento sexual americano: muitos homens heterossexuais falaram de experiências homossexuais. Um guitarrista de rock pode ser monogâmico convencional, enquanto sua vizinha, uma contadora, pode preferir jogos de encenação com vários parceiros.

Freqüentemente, as pessoas não têm consciência plena do que mais as excita sexualmente, sugerem os estudos. Em um experimento recente, psicólogos concluíram que as mulheres podem ficar excitadas tanto com imagens de sexo homossexual quanto heterossexual. Essa é uma conclusão provocadora e pode oferecer dicas importantes sobre como melhorar a saúde sexual. Freqüentemente, entretanto, não é um assunto que a mulher comum quer discutir com um pesquisador, mesmo anonimamente.

O gosto sexual é um coringa e uma carta que muitos preferem não revelar.

Aids

"Muitas pessoas de alto nível no governo e na política são muito sensíveis ao tipo de pesquisas sexuais que fazemos. Não tanto por motivos religiosos, simplesmente dizem: 'Eu nunca responderia a essas perguntas'", disse Dr. Edward Laumann, sociólogo da Universidade de Chicago.

Em 1994, Laumann e uma equipe de pesquisadores publicou "The Social Organization of Sexuality" (A Organização Social da Sexualidade), uma pesquisa ampla do comportamento sexual americano, que foi elogiada por muitos no debate sexual por sua integridade e por atualizar o trabalho de Kinsey.

Das pessoas pesquisadas, 75% concordaram em dar respostas detalhadas sobre sexo, mas muitas o fizeram apenas depois de serem convencidas que suas repostas seriam absolutamente anônimas e restritas à pesquisa.

Foi apenas um financiamento de último minuto de fundações privadas que permitiu que o estudo fosse terminando, disse Laumann, depois que o governo reverteu uma decisão de apoiar a pesquisa.

Pesquisadores que dedicaram suas vidas a estudar o comportamento sexual dizem que o ambiente político tende a ser cínico, com períodos de hostilidade seguidos de degelo, frequentemente gerados por ondas de inquietação social, como preocupações sobre sexo entre jovens nos anos 60 e gravidez adolescente nos anos 70.

"Quando a epidemia de Aids chegou, nos anos 80, o governo teve que fazer pesquisas, porque o comportamento sexual estava no centro da questão", disse Anke A. Ehrhardt, professora da Universidade de Columbia e diretora do Centro de Estudos Clínicos de HIV e de Comportamento do Instituto Psiquiátrico Estadual de Nova York.

Desde então, é possível que o clima para fazer pesquisa sobre o sexo tenha-se tornado ainda mais hostil, disse ela e outros pesquisadores, particularmente fora do contexto do HIV.

Laumann, por exemplo, finalmente conseguiu patrocínio para um estudo recente sobre comportamento sexual e o risco de doenças sexualmente transmitidas que poderá ajudar a conter a disseminação de clamídia, infecção comum. Onde ele conduziu o estudo? Na China. Descobertas poderiam ajudar campanhas de prevenção de doenças Deborah Weinberg

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