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10/11/2004

Museu de NY faz a maior compra de sua história

The New York Times
Carol Vogel

Em Nova York
Na compra mais cara de sua história, o Metropolitan Museum of Art de Nova York concordou em pagar mais de US$ 45 milhões (em torno de R$ 135 milhões) por uma pintura do mestre da Renascença Duccio di Buoninsegna menor que uma folha de papel.

O trabalho, "Madonna e Criança", que mede meros 20cm por 28cm, é pintado em têmpera e ouro em um painel de madeira. Datado do século 14 é o primeiro Duccio a entrar na coleção do Met, preenchendo uma lacuna em suas obras da Renascença que não conseguia completar, disse Philippe de Montebello, diretor do Met. A venda da pintura, o último trabalho de Duccio nas mãos de colecionadores privados, foi negociada pela Christie's, em Londres.

Ao informar da aquisição, o Met não quis revelar o preço, apenas confirmou que foi a compra mais cara de sua história. (Nesse tipo de negociação, os compradores freqüentemente são legalmente proibidos de revelar o valor da venda). No entanto, especialistas inteirados do acordo, insistindo em anonimato por medo de atrapalhar a venda, disseram que o preço ficou entre US$ 45 e US$ 50 milhões (entre R$ 135 e R$ 150 milhões). Isso supera a compra recorde anterior do Met, da "Bandeira Branca" (1955) de Jasper Johns, por mais de US$ 20 milhões (em torno de R$ 60 milhões), em 1998.

Trabalhos de Duccio, preeminente pintor do início da Renascença, são extremamente raros. Apenas cerca de uma dúzia sobreviveram, inclusive seu famoso altar "Maesta" (1308-11) no museu Dell'Opera del Duomo, em Siena. Em geral, as pinturas do artista em museus fora da Itália são fragmentos da "Maesta", que incluía 60 cenas narrativas individuais.

O único Duccio em um museu de Nova York, "A Tentação de Cristo na Montanha", da Frick Collection, é um fragmento da "Maesta".

A "Madonna" do Met, entretanto, é uma dos poucos trabalhos individuais feitos por Duccio e nunca fez parte de um conjunto maior. "É o pensamento completo do artista sobre o tema", disse Keith Christiansen, curador de pintura européia do Met. Além disso, está em sua moldura original, marcada na parte inferior por velas de devoção.

Um dos mais importantes pintores do início do século 14, Duccio, junto com seu contemporâneo florentino Giotto, abriu os caminhos do estilo bizantino para o início da pintura renascentista italiana. Duccio era conhecido por peças de altar de estilo dinâmico, um uso impressionante da paisagem e de cores e relacionamentos extraordinariamente expressivos entre as figuras em suas composições.

"A primeira imagem apresentada em uma aula de história da arte é um Duccio", disse Montebello. "Ele foi um dos fundadores da arte ocidental."

Descrevendo a pintura como silenciadora, ele disse que a aquisição era "um dos pontos altos" de seus 27 anos no cargo e uma "oportunidade inimaginável".

"Permitirá que os visitantes, pela primeira vez, sigam toda a trajetória da pintura européia, de seus primórdios até hoje", disse Montebello.

Trajetória da Madona

Para comprar o quadro, o museu comprometeu uma parte substancial de seu fundo para aquisições, suplementada por contribuições de fontes privadas. Montebello disse que o dinheiro para a compra não envolveria verbas públicas ou privadas especificamente destinadas às operações, construção ou manutenção.

Ele disse que não tinha certeza de quando o quadro será exposto. Ele ainda está em Londres esperando permissão de exportação, mas o diretor espera que esteja nas paredes do museu em poucas semanas.

O Met decidiu chamá-lo de Stroganoff Madonna, usando o nome de seu primeiro proprietário que se tem conhecimento, conde Grigorii Stroganoff, sério colecionador de pinturas italianas antigas, que morreu em Roma em 1910. No entanto, a pintura é mais conhecida como Stoclet Madonna, nome do proprietário seguinte, Adolphe Stoclet, industriário belga e construtor de um famoso palácio em Bruxelas, projetado por Josef Hoffmann.

Depois da morte de Stoclet, em 1949, a pintura tornou-se relativamente inacessível, disse Christiansen. Nos últimos 15 a 20 anos, a coleção de Stoclet foi gradualmente dividida entre seus herdeiros.

Durante anos, acadêmicos e curadores sabiam da existência do "Madonna e Criança" e esperavam que um dia fosse oferecido para a venda. Havia especulações de que o governo belga talvez tentasse comprá-lo. Houve rumores na última primavera de que o quadro iria ao mercado, disse Christiansen.

Mas o Met não soube de nada até julho, quando foi contatado por Nicholas Hall, especialista do departamento dos mestres da pintura da Christie's. Ele disse que a casa de leilões estava representando os vendedores, herdeiros de Stoclet, e perguntou se o Met estava interessado.

"Ele me deu a transparência, que ficou na minha mesa até Philippe voltar de férias", disse Christiansen, referindo-se a Montebello. "Ele sabia que o quadro ia aparecer no mercado, mas acredito que não tinha visto uma foto dele. Quando mostrei a ele, em 30 segundos ele disse: 'Realmente temos que ter isso.'"

Temendo a competição de museus como o Louvre de Paris, que também não tem nenhum Duccio, Christiansen, Montebello e Dorothy Mahon, restauradora do Met, não perderam tempo. Voaram para Londres no início de setembro, para ver a pintura em uma sala especial na sede da Christie's.

"Passamos um longo tempo olhando para ela", disse Christiansen. "Não só é uma pintura incrivelmente bela; é inacreditavelmente comovedora."

"Obviamente que as pessoas ficarão impressionadas com seu tamanho reduzido", acrescentou.

Mas Christiansen salientou: "Se você pensar nos grandes quadros da renascença no Met, são todos pequenos. Nosso Botticelli, 'A Última Comunhão de São Jerônimo', nosso Mantegna, 'Adoração dos Pastores', nosso díptico de Van Eyck --todas nossas grandes pinturas são quadros pequenos."

Os olhos amendoados da "Madonna" se voltam para baixo, e seu rosto é meditativo; a criança em seu colo levanta uma mão rechonchuda para puxar o véu de sua mãe.

"É uma pintura criada para ser vista com calma", disse Christiansen. "Quando você olha para ela, a imagem cresce na sua imaginação. Aqui, Duccio explorou a intimidade de forma inovadora."

As figuras são pintadas atrás de um parapeito. "Este é o primeiro parapeito ilusionista da arte européia", disse ele. "Quando você pensa em todas aquelas imagens famosas de Bellini ou a Madonna comum da Renascença, é um parapeito ilusionista que serve como ponte para que você passe do mundo que habitamos para o mundo ficcional do artista."

Em sua monografia de 1979 sobre Duccio, o estudioso britânico John White chamou a pintura de "a primeira de uma longa linhagem de Madonnas com parapeito, que atingiu seu ápice quase dois séculos depois, na variação esplendida de Giovanni Bellini sobre o tema".

Fotografias tiradas do trabalho no século 19 revelam duas marcas de fogo na parte inferior da moldura, sem dúvida de velas acendidas ao longo dos anos em que "Madonna" foi usada como objeto de devoção, provavelmente no quarto de dormir de alguém, disse Christiansen.

Está em excelente condições, acrescentou. "É bastante raro e muito feliz que não tenha passado pelas mãos de muitos marchands, que teriam mexido no trabalho, de um jeito ou de outro", disse ele. "Está em um estado muito puro."

"É uma pintura completamente diferente da coleção Frick", disse Christiansen. "A de Frick mostra Duccio criando uma das primeiras paisagens da arte ocidental. Na nossa, Duccio é um pintor de temas de fé."

"Grandes pinturas --mesmo que não sejam os 'Girassóis' de Van Gogh ou os 'Lírios d'Água', de Monet, compreendidos pelo público, deixam sua marca no tempo", disse ele. "Quando as pessoas virem isso, reconhecerão que é um marco na arte ocidental." Metropolitan gasta ao menos US$ 45 mi com quadro raro de Duccio Deborah Weinberg

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