UOL Notícias Internacional
 

11/11/2004

DVDs provocam crise no mercado dos filmes "B"

The New York Times
Ross Johnson

Em Santa Mônica, Califórnia
Há trinta anos, quando ele gerenciava um cinema drive-in em sua Tel Aviv natal, Avi Lerner, atualmente um produtor-financiador de filmes, aprendeu uma regra histórica sobre o show business: Descubra o que os clientes querem, aí ofereça isso para eles.

Agora, Lerner e 300 de seus competidores no ramo dos filmes independentes estão aboletados nas suítes do hotel Loews em Santa Mônica, para a abertura da 25ª edição anual do American Film Market (Mercado Americano de Filmes). E Lerner, que agora é co-diretor da Nu Image, uma distribuidora de filmes de Los Angeles, ainda mantém os ouvidos atentos aos clientes.

"Acabaram-se os dias em que os compradores queriam pagar por filmes "a quilo" estrelados por atores que recebiam apenas diárias", diz Lerner sobre seus colegas, que buscam produtos para distribuição no estrangeiro, para lançarem em televisão, DVD e outros formatos, produtos em grande feitos por independentes como ele mesmo.

"Atualmente, se seu filme parece não conseguir distribuição por um grande estúdio nos Estados Unidos, você está bem encrencado".

Já se foi o tempo em que os corredores dos multiplex Loews ficavam forrados de cartazes anunciando obras selecionadas de estrelas dos filmes B, como Michael Dudikoff, Lorenzo Lamas, Richard Grieco e Shannon Tweed.

Atualmente os pequenos distribuidores independentes estrangeiros estão mais de olho em filmes apoiados pelos estúdios, estrelados por nomes como Bill Murray, Ethan Hawke, Cameron Diaz, Ralph Fiennes e John Cusack.

Lerner, por sua vez, está vendendo um novo filme, "Edison". Por ter como suas estrelas Morgan Freeman e Kevin Spacey, "Edison" parece ter boas perspectivas de encontrar um estúdio distribuidor que o colocará nos cinemas americanos, o que sustenta seu potencial de vendas no exterior.

Essa aposta é claramente um passo adiante para o produtor, cuja empresa antigamente dependia de produções feitas para o segmento "direto-para-as-locadoras", como "Lunarcop", thriller de ficção científica estrelado por...Billy Drago e Michael Pare.

Vários vendedores presentes esse ano no movimentado American Film Market afirmam que o aumento no volume de negócios se deve principalmente à revolução proporcionada pelo formato DVD.

Com as vendas de discos substituindo os aluguéis de fitas de vídeo, conglomerados de mídia de alcance global começaram a usar "braços especializados", como a Miramax da Disney, a Screen Gems da Sony, a Fox Searchlight da News Corporation e a Warner Independent Pictures para preencher com seus produtos as demandas dos mercados estrangeiros, deixando menos espaço tanto para os distribuidores independentes internacionais quanto para os pequenos distribuidores regionais, que tradicionalmente comparecem a esse evento anual.

O boom do DVD também serviu para ofuscar o brilho de atores do segundo e do terceiro escalão, como Lorenzo Lamas, estrela que pilotava uma moto Harley na série de TV "Renegade". A aparição de filmes "independentes" feitos pelos estúdios também explica por que não há muito trabalho para Shannon Tweed que, aos 47 anos, agora passa mais tempo com suas duas crianças em vez de estrelar suspenses eróticos classe B.

"Estúdios e suas divisões independentes, com seus DVDs, mataram as estrelas feitas para o videocassete", diz Pascal Borno, presidente da Conquistador Entertainment, distribuidora independente para vendas no estrangeiro.

Filmes de ação "bagaceira" que eram comprados aos montes nos mercados cinematográficos, vendidos para redes de televisão e distribuidoras de vídeo para locadoras do mundo inteiro, durante um bom tempo foram a essência do sustento para Pascal Borno; mas nesse mercado agora ele está vendendo "Illusion", filme estrelado pelo veteraníssimo Kirk Douglas. Borno descreve o filme como uma mistura de "Cinema Paradiso" com "It's a Wonderful Life" (A Felicidade não se Compra), de Frank Capra.

No mercado desse ano, a luxuosa suíte de oitavo andar com a melhor vista do Oceano Pacífico foi alugada para a semana inteira, não por um distribuidor independente, mas pela Focus Features, uma unidade da NBC Universal.

Com apenas dois anos de existência, essa nova distribuidora já emplacou um vencedor de Oscar, "Lost in Translation" (Encontros e Desencontros), de Sofia Coppola. E a Focus agora comparece ao mercado com 21 novos títulos, com um elenco de estrelas "matadoras", nomes quentes como Bill Murray, Meryl Streep, Uma Thurman, Will Ferrell, Ralph Fiennes, John Cusack, Jake Gyllenhaal, Heath Ledger, Dennis Quaid e Cameron Diaz.

E para suas "vendas menores", a Focus também criou sua própria divisão temática, a Rogue Pictures, que, num inegável sinal dos tempos, traz estrelas substanciais como Ethan Hawke e Laurence Fishbourne, astros de uma próxima refilmagem de "Assalto à 13ª DP".

Filme de ação ambientado numa delegacia de polícia sitiada, a primeira versão de "Assalto" foi feita originalmente com orçamento minúsculo em 1976, pelo então novato diretor John Carpenter.

Borno considera que a escalação de Hawke nessa nova versão é um auxílio luxuoso: "Nos velhos tempos, eles colocavam um cara de ação num filme de ação. Agora, por que alguém pagaria para ver Jean-Claude Van Damme e Steven Seagal fingindo que são atores, quando eles podem ver um ator de verdade como Ethan Hawke?"

Lerner diz que os produtores independentes que não conseguem escalar estrelas ou descolar distribuição pelos grandes estúdios podem sobreviver tornando seus filmes baratos...ainda mais baratos.

Ele agora está rodando filmes de horror que custam cerca de U$ 700 mil (pouco mais de R$ 2 milhões) na Bulgária, e também criando os efeitos visuais de pós-produção por lá mesmo.

Outra opção para os chamados "miúras" é fazer com que seus filmes mais caros tenham a aparência de filmes de estúdios, só que cortando os custos de produção até o osso.

Nessa segunda opção, Lerner e outros colegas dedicam a maior parte de seus orçamentos para os cachês de estrelas famosas que andam meio oscilantes --atores como Wesley Snipes e Steven Seagal, que recebem até US$ 6 milhões por filmes em que o custo total é de US$ 8 milhões (cerca de R$ 24 milhões); numa dessas produções, o diretor pode até receber somente U$ 125 mil.

"Essa uma jogada muito perigosa", diz Borno, se referindo ao fato de que uma estrela como Snipes pode aparecer simultaneamente num filme baratinho como o próximo "7 Seconds" e numa produção muito maior como a sequência "Blade: Trinity", da New Line Cinema (divisão da Warner).

"Os fãs o vêem em grandes filmes de ação com todo um aparato especial, e aí depois podem assistí-lo numa dessas produções independentes de ação e perguntar: `O que é que houve, Snipes?'"

Richard Gabai, que é ator-produtor-diretor, cujos créditos incluem dois filmes da série "Assault of the Party Nerds", acredita que os produtores e estrelas do cinema B não irão desaparecer, apesar de todos esses esforços de "upgrade".

"Se você for a qualquer mercado de filmes em qualquer canto do mundo, você irá encontrar compradores que não conseguem pagar o que os estúdios pedem, mas que precisam de novos produtos", diz Gabai.

Mas Gabai, que já andou penando em produções obscuras como "Virgin High", agora está voltado para os adolescentes, vivendo o seu "momento Tiffany": recentemente finalizou "Popstar", filme estrelado pelo jovem cantor Aaron Carter, que também aparece numa próxima produção da 20th Century Fox, "Fat Albert."

"Popstar", cujo orçamento foi reduzido por Gabai e terminou "abaixo dos U$ 2 milhões", ainda não havia conseguido um grande distribuidor americano na abertura do mercado de filmes. Mas a presença de Aaron Carter no filme proporciona ao filme uma aura de "quase-estúdio", o que poderá inflar seu valor potencial no exterior.

"É como se fosse o encontro de 'Uma Linda Mulher' com 'Notting Hill', só que para adolescentes", delira Gabai. Compradores dessas atrações agora querem produções classe "A" Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host