UOL Notícias Internacional
 

11/11/2004

Fallujah prova que os EUA fracassam no Iraque

The New York Times
Thomas L. Friedman

Colunista do NYTimes
Assisti a um trecho curto da entrevista coletiva do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, na última segunda-feira (8/11), quando tinha início a batalha por Fallujah. Não pude deixar de esfregar os olhos por um momento e me perguntar em voz alta se não teria sido transportado de volta ao passado, retrocedendo 20 meses no tempo, quando a guerra do Iraque tivera início.

Assistindo à CNN, vi o mesmo Rummy fazendo piadas com os jornalistas que cobrem o Pentágono, as mesmas reportagens vazias da frente de combate feitas por "repórteres encaixados", a mesma imagem de generais norte-americanos falando aos soldados quando estes estavam prestes a partir para a batalha sobre como estariam liberando o Iraque.

Só havia uma diferença que ninguém pareceu querer mencionar. Aquilo ocorreu 20 meses atrás. E isto é agora. E o Iraque ainda não foi inteiramente liberado. Na verdade, conforme demonstra a batalha por Fallujah, o país não foi sequer inteiramente ocupado.

Vendo tal cena fui tomado por sentimentos mistos: uma esperança fervorosa de que uma vitória em Fallujah comece a fazer com que o Iraque se incline para a direção correta, e um absoluto desdém pelo fato de estarmos neste momento, mais uma vez, lutando uma guerra em grande escala na região central do Iraque, sem uma pitada de reflexão por parte de um governo que há muito tempo declarou: "Missão cumprida". Mas não se preocupem. Rummy tem tudo sob controle. Ele não cometeu nenhum erro. Tudo está saindo como o planejado. O plano sempre foi travar batalhas de rua em Fallujah 20 meses após a queda de Saddam Hussein.

Portanto, não perturbem. Assistam à Fox. Calem a boca. Agitem uma bandeira. Visitem um Estado republicano. Não me perguntem como caí neste estado de espírito. Calem a boca. Não perturbem. Assistam à Fox.

Ah! Eu faço parte daquela minoria decrescente que acredita que um resultado decente no Iraque é extremamente importante e ainda possível. Mas o "deja vu" da batalha por Fallujah só me faz lembrar que ainda trago dentro de mim algumas perguntas que já fazia antes do início da guerra.

Aqui vai um conselho gratuito: não acreditem em nenhuma conversa otimista da equipe de Bush a respeito do Iraque até que tenhamos respostas para as seguintes perguntas:

  • Questão 1 - Nós realmente terminamos a guerra no Iraque? Em outras palavras, é seguro para os iraquianos e os que trabalham nas obras de reconstrução ir do aeroporto de Bagdá até o centro da cidade, e, para os políticos iraquianos, fazer comícios eleitorais e manter um diálogo nacional a respeito do futuro do país?

  • Questão 2 - Possuímos no Iraque soldados suficientes para realmente proporcionar um nível mínimo de segurança? Até agora o presidente Bush aplicou no Iraque aquilo que eu chamo de Doutrina Rumsfeld: tropas suficientes apenas para protegermos a nós, mas não aos iraquianos, e suficientes apenas para serem culpadas por tudo que dê errado no Iraque, mas não para fazer com que as coisas dêem certo.

    Ah, Friedman, o que você sabe sobre tamanho de tropas?

    Para falar a verdade, não sei muito. Nunca dei um tiro. Mas tampouco sou um chef e, não obstante, sei reconhecer uma boa refeição. Distingo o caos quando com ele me deparo, e o meu palpite é que ainda temos carência de pelo menos duas divisões no Iraque.

  • Questão 3 - Os iraquianos são capazes de concordar quanto à divisão de poder constitucional? Existe uma entidade política chamada Iraque? Ou há apenas um amontoado de tribos disparatadas e comunidades étnicas e religiosas? O Iraque é da forma que é porque Saddam era da forma que era, ou Saddam era da forma que era porque os iraquianos são da forma que são --congenitamente divididos? Ainda não conhecemos a resposta para esta questão fundamental porque ainda não houve segurança suficiente para que os iraquianos dispusessem de um diálogo horizontal de verdade.

  • Questão 4 - Se os iraquianos forem capazes de dar um salto do despotismo de Saddam Hussein para eleições livres e um governo representativo, será que poderemos conviver com quaisquer candidatos que eles elejam --que serão em sua maioria políticos de partidos islâmicos? Adoto uma visão bem tolerante quanto a isso já que a Europa demorou várias centenas de anos para cultivar a sua cultura, seus hábitos, suas instituições e suas políticas constitucionais. O que estamos presenciando atualmente no Iraque são os primeiros passos necessários. Se os iraquianos elegerem políticos islâmicos, que assim seja. Mas será que o nosso presidente está preparado para um resultado desses?

  • Questão 5 - Será que podemos nos engajar em um esforço sério para conseguirmos romper a barreira psicológica que nos separa dos iraquianos e do mundo árabe? Nesse sentido, a diplomacia norte-americana tem sido patética. "É triste dizer tal coisa, mas após 18 meses os Estados Unidos ainda não convenceram os iraquianos de que estão bem intencionados", diz Yitzhak Nakash, o especialista em questões iraquianas da Universidade Brandeis. "Jamais conseguimos persuadir os iraquianos de que não estamos lá por causa do petróleo. Ainda não existe uma base para confiança mútua".

    Questão 6 - Será que a equipe de Bush é capaz de superar as suas diferenças com o Irã, e criar um entendimento com a Arábia Saudita e a Síria a fim de controlar o fluxo de militantes sunitas para o Iraque, de forma que a situação possa se estabilizar e os jihadistas mortos em Fallujah não sejam substituídos por novos grupos de insurgentes?

    Desta vez, não deixem que ninguém cante vitória, ou derrota, no Iraque até que tenhamos as respostas para essas seis questões.

    Tradução: Danilo Fonseca Governo Bush precisa responder a seis questões sobre a guerra Danilo Fonseca
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