UOL Notícias Internacional
 

11/11/2004

Morte acirra disputa pelo dinheiro que Arafat geria

The New York Times
Steven Erlanger

Em Jerusalém
Após a morte de Iasser Arafat nesta quinta-feira (11/11) em Paris, deve se acentuar a batalha em torno do seu legado, que envolve uma preocupação não declarada mas amplamente reconhecida: ele controla pessoalmente vários bilhões de dólares, e ninguém mais sabe onde o dinheiro está.

A extensão e o paradeiro desta fortuna, que conta com diferentes assessores e conselheiros como co-signatários, tem sido a parte oculta das disputas em volta de seu leito, disseram autoridades israelenses e palestinas, dando à morte desta figura revolucionária os elementos de uma novela vitoriana.

Arafat manteve as informações sobre as contas compartimentalizadas, e apenas ele sabe todos os detalhes, disseram autoridades israelenses bem-informadas, em afirmações confirmadas com relutância por autoridades palestinas que não querem manchar o legado de Arafat.

Grande parte do financiamento do movimento palestino nas últimas quatro décadas está envolto em segredo, e seus detalhes são difíceis de apontar. Mas os palestinos dizem que Arafat tem usado o dinheiro para financiar o movimento e o governo palestino e pagar salários, dar presentes, assegurar lealdade, estabelecer embaixadas, comprar armas e financiar grupos que variam de caridades até jovens combatentes como as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa.

Arafat, abstinente, gastou muito pouco do dinheiro consigo mesmo, vivendo como um soldado, com uma cama estreita e poucos uniformes em seu guarda-roupa. Mas o padrão de seus dias revolucionários no exílio --financiando a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) por meio de contribuições secretas, mercado negro e extorsão, e pronto para fugir assim que avisado-- persistiu obviamente em sua recusa em confiar em outros e em seu desejo de manter grandes quantias de dinheiro disponíveis em caso de emergência.

Há muito se especula sobre quanto dinheiro foi destinado para sustentar o padrão de vida pródigo de sua esposa, Suha, em Paris, com relatos de seus inimigos na Autoridade Palestina de subsídios de cerca de US$ 100 mil por mês. Mas os valores são relativamente pequenos, em comparação com o total de posses de Arafat.

Mas a forma como ele administrava o dinheiro, e o segredo e corrupção que cercam a administração da Autoridade Palestina, têm manchado seu legado junto aos palestinos comuns e deixam um fardo para seus herdeiros políticos.

"Parte disto será enterrado com ele", disse um alto funcionário israelense. "Ele tinha muitas fontes especiais, e ninguém sabe a soma total de dinheiro nestas contas. Mesmo Suha não sabe. Ele tinha vários consultores financeiros, e cada um deles sabe apenas parte da história. Ninguém sabe tudo, exceto Arafat."

No ano passado, uma auditoria das finanças da Autoridade Palestina pelo Fundo Monetário Internacional revelou que Arafat desviou US$ 900 milhões de recursos públicos para uma conta bancária controlada por ele entre 1995 e 2002. Grande parte do dinheiro, desviado do orçamento, foi aplicado em uma série de investimentos comerciais.

Em fevereiro passado, o governo francês iniciou uma investigação fiscal e de lavagem de dinheiro de um depósito de cerca de 11,5 milhões de euros, quase US$ 15 milhões na cotação atual, nas contas da sra. Arafat entre julho de 2002 e julho de 2003.

Para tentar dar alguma transparência e eficiência às contas da Autoridade Palestina, os Estados Unidos e a União Européia pressionaram Arafat a nomear um ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, Salam Fayyad, como ministro das finanças. Fayyad fez esforços para racionalizar os gastos e se responsabilizar pela ajuda internacional, e descobriu cerca de US$ 600 milhões em fundos da autoridade investidos em cerca de 79 empreendimentos comerciais para produtos que variavam de biofarmacêuticos canadenses a celulares argelinos.

Mas Fayyad, que não retornou muitos telefonemas pedindo comentários, reconheceu no passado que ele apenas tem conhecimento de parte do quadro.

Muitas das fontes do dinheiro agora estão expostas em registros públicos. O dinheiro para a Organização pela Libertação da Palestina veio de governos árabes e outros, da União Européia e de agências de ajuda internacionais, assim como de monopólios da venda de gasolina, gás, cimento e outros produtos na Cisjordânia e em Gaza.

Por meio de vários consultores financeiros, como Fuad Shubaki, Arafat e os palestinos ganharam milhões de dólares por meio de licenças especiais de exportação para vender petróleo iraquiano, concedido por Saddam Hussein, que tinha jurado a destruição de Israel e era grato pelo apoio de Arafat na Guerra do Golfo Pérsico em 1991, disse um alto funcionário israelense.

Arafat também concedeu monopólios a assessores chaves. Shubaki, atualmente em uma prisão israelense em Jerica, tinha o monopólio sobre o comércio interno nas forças de segurança palestinas, vendendo alimentos e produtos importados.

Jibril Rajoub, o conselheiro de segurança nacional de Arafat que cuida das forças de segurança na Cisjordânia, recebeu o monopólio da venda de gasolina e gás lá, enquanto seu par em Gaza, Muhammad Dahlan, controla um mercado de licenças especiais para entrada e saída de Gaza, disseram autoridades israelenses e da ONU.

Uma autoridade palestina disse que não podia negar a existência de tais concessões.

Gaza é composta praticamente de areia. "Mas areia para cimento custa mais em Gaza do que em Israel, e o motivo é o percentual cobrado pela Autoridade Palestina", disse um alto funcionário de ajuda humanitária da ONU. Há também taxas de proteção cobradas pelos serviços de segurança palestinos lá e na Cisjordânia, disse ele.

Também há investimentos legítimos em uma grande variedade de empresas, muitas delas no Oeste da África, mas também nos Estados Unidos e na Europa.

As autoridades israelenses sugeriram que parte do dinheiro poderá sumir, e concordaram com as autoridades francesas de que parte da batalha em volta do seu leito em Paris é um esforço para obter informação e acesso a estas contas.

Os israelenses acreditam que Arafat nunca assinou um testamento. "Ele nunca acreditou, mesmo quando estava doente, que morreria", disse uma autoridade israelense. "Que eu saiba, ele nunca assinou nada."

Salários atrasados

Sua morte geraria problemas severos para seus sucessores políticos, que precisarão colocar as mãos em somas consideráveis para consolidar suas posições.

"Eu acho que os palestinos precisam de dinheiro, e ninguém sabe onde todo o dinheiro está", disse um alto funcionário israelense. Se o suposto sucessor de Arafat, Mahmoud Abbas, "tivesse o dinheiro, então ele poderia consolidar sua posição mais rapidamente, mas agora será mais difícil", disse o funcionário.

De fato, os palestinos têm-se queixado de que seus salários neste importante mês do Ramadã, que termina em um tradicional banquete, estão atrasados e foram pagos apenas em parte. Nos últimos dias, Fayyad disse para autoridades americanas que ele não tem dinheiro para pagar os salários.

O atual consultor financeiro mais visível de Arafat, Muhammad Rashid, é um curdo que supostamente controla cerca de US$ 1 bilhão em ativos para Arafat e a OLP, disseram autoridades israelenses. Mas Rashid, que foi a Paris para estar ao lado do leito de Arafat, é apenas um de vários consultores financeiros, e não necessariamente o principal, elas disseram.

Shubaki foi o principal diretor financeiro da Autoridade Palestina desde seu início, em 1994, e tem dito pouco sobre o que sabe. Arafat foi pressionado pelos americanos para prender Shabaki após o fiasco do incidente do Karine A em 2002, quando dinheiro da Autoridade Palestina e Shubaki foram ligados por documentos à compra de 50 toneladas de armas e explosivos, que seriam contrabandeados para o território palestino em um navio chamado Karine A, que foi interceptado pelos israelenses. Tal incidente minou a fé do presidente Bush em Arafat, disse Bush.

Em 1997, reportagens na imprensa israelense diziam que cerca de US$ 150 milhões por ano em receita fiscal devida por Israel aos palestinos por Israel era enviados para uma conta secreta em Tel-Aviv sob controle pessoal de Arafat. As autoridades israelenses disseram na época que o dinheiro era para Arafat usar para fugir com assessores-chave em caso de um golpe, ou para usar no pagamento de aliados políticos, gastos que países doadores não aprovariam.

Jaweed Al Ghussein, um ex-ministro das finanças da OLP que renunciou sob suspeitas em 1996 e agora vive em Londres, disse para a agência de notícias "The Associated Press" que o império financeiro de Arafat valia entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões na época ­-uma margem de estimativa surpreendentemente alta.

Ele disse que nos anos 80 ele dava mensalmente a Arafat um cheque de cerca de US$ 10 milhões, do orçamento da OLP, para ser usado no pagamento a combatentes e suas famílias. Mas Arafat nunca prestou contas de seus gastos, citando motivos de segurança nacional. Ghussein também disse que Saddam deu US$ 150 milhões a Arafat em três pagamentos por ele ter ficado ao lado do Iraque na primeira Guerra do Golfo.

Arafat fornecia dinheiro para todos à sua volta, disseram palestinos e israelenses. "Ele era muito cordial com seus amigos, para assegurar que vivessem bem", disse uma autoridade palestina. "E freqüentemente dava dinheiro para aqueles que o criticavam. Você quer pessoas satisfeitas à sua volta, não pessoas iradas." Líder palestino administrava um montante entre US$ 3 bi e US$ 5 bi George El Khouri Andolfato

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