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12/11/2004

Apelo emocional será o maior legado de Arafat

The New York Times
Neil MacFarquhar

No Cairo
Na morte, assim como em vida, o líder palestino Iasser Arafat provocou uma grande onda de emoções opostas no Oriente Médio, nesta quinta-feira (11/11). Pesar pelo falecimento daquele que já foi o símbolo romântico das esperanças não concretizadas de todos os árabes, alegria por parte dos que o odiavam por ter-se mantido agarrado ao poder muito depois do seu apogeu como liderança política, amarrando dessa forma o seu povo e a região.

"Nós nos sentimos como se tivéssemos despencado do céu e nos esborrachado no chão", diz Nohad Hamdeh, morador do infame campo de refugiados palestinos de Shatila, em Beirute, a capital libanesa. "As pessoas estão nas ruas fazendo manifestações, mas ninguém sabe realmente o que fazer. Todos consideravam Arafat simultaneamente um presidente e um símbolo".

As multidões em prantos, as lojas fechadas e as bandeiras de luto em campos de refugiados no Líbano, Síria e Jordânia, os países que abrigam mais de dois milhões de palestinos, contrastavam fortemente com o silêncio oficial de países como o Kuait, o rico emirado do golfo que jamais perdoou o líder palestino de 75 anos por apoiar a invasão conduzida por Saddam Hussein em 1991, e por não ter-se desculpado depois.

Essa foi uma das várias decisões que garantiram a Arafat um papel central no cenário árabe durante as quatro décadas em que liderou a causa palestina.

Mas, amando-o ou odiando-o, os árabes reconheceram que Arafat alterou para sempre o destino dos palestinos, e com eles a região. Antes de transformar a sua organização Fatah em um grupo armado de luta contra Israel, os palestinos estavam sendo vagarosamente apagados do mapa, atolados em campos de refugiados ou sob a ocupação israelense.

"Ele transformou os palestinos em uma nação dotada de um desejo coletivo de conseguir um local para si ao sol", diz Walid Khazziha, professor de ciência política da Universidade Americana do Cairo.

Os líderes árabes assumiram essa luta como se fosse sua, chegando às vezes, cinicamente, a desviar as atenções voltadas para os seus próprios regimes despóticos. A maioria dos líderes árabes prestou breves tributos à persistência de Arafat nesta quinta-feira, declarando três dias de luto e ordenando que as bandeiras ficassem a meio-pau nos prédios públicos.

A causa palestina transmitiu um apelo emocional duradouro --especialmente o projeto de libertar Jerusalém e a terceira mesquita mais sagrada do islamismo do domínio estrangeiro-- que sempre foi bem mais vasto do que Arafat ou o próprio povo palestino.

Nas ruas do Cairo e outras capitais árabes, o luto da quinta-feira era, freqüentemente, motivado pela percepção de que um sonho não se realizou.

"Eu não falaria de luto", diz Mohamed Sayed Said, analista político egípcio. "Isso é algo reservado para líderes extraordinários como Gamal Abdel Nasser. Há muito poucos deles. No entanto, existe muita paixão pela causa, e Arafat tocou em um nervo da opinião pública árabe devido à sua firmeza face a Israel e aos Estados Unidos".

Houve manifestações discretas de alívio por parte de certos setores que acreditam que, sem a presença de Arafat, negociações mais pragmáticas e equilibradas possam ocorrer. Segundo os analistas, tal sensação é mais pronunciada ao se levar em consideração a verdadeira odisséia que foi a vida de Arafat, marcada por eventos históricos como o enfrentamento à monarquia jordaniana em 1970, a guerra civil libanesa, a evacuação de Tunis em 1982, a primeira Guerra do Golfo em 1991 e o retorno aos territórios palestinos em 1994, com a promessa não realizada de criar um Estado vizinho a Israel.

É verdade que os palestinos atualmente lutam por um Estado retirado das suas próprias terras na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas ao contrário de figuras como Nelson Mandela e Ho Chi Minh, Arafat não conseguiu conquistar um país para o seu povo ou garantir uma sucessão tranqüila.

Muitos dizem que, agora, a violência não tem sentido, já que a meta teria novamente escapulido. No fim das contas, Arafat não parecia mais aquela figura altaneira dotada de um plano para tirar os palestinos do limbo.

"O Arafat de hoje não é o Arafat de 30 anos atrás", opina Mustafah B. Hamarneh, diretor do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia. "O antigo nível de apoio popular não existe mais, embora haja alguma simpatia por um homem idoso. Ele não cumpriu o prometido, o governo da autoridade palestina na Cisjordânia não foi aquela entidade democrática e progressista que o povo esperava, tendo sido marcado por repressão e corrupção".

Os árabes atribuem o fracasso em se conseguir um acordo pacífico principalmente à intransigência israelense ou a algo pior. Quando o corpo de Arafat era transportado de avião para um funeral militar oficial no Cairo para dignatários de todo o mundo na sexta-feira, que será seguido por uma cerimônia palestina em Ramallah, os adeptos de teorias conspiratórias já estavam convencidos de que Israel o havia envenenado --especialmente porque o hospital militar francês onde Arafat foi tratado não anunciou nenhuma causa para a morte.

Mas algumas pessoas disseram que, não importa o que o tenha matado, não simpatizavam com Arafat.

"Nenhum dos nossos líderes é confiável", disse Fathy Mohamed Hassan, um motorista de táxi do Cairo. "Embora, é claro, eu esteja triste pelo sofrimento do povo palestino, especialmente devido àquilo que eles provavelmente enfrentarão no período de caos e instabilidade que está por vir". Líder não conseguiu conquistar um Estado para a nação palestina Danilo Fonseca

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