UOL Notícias Internacional
 

12/11/2004

Sem Arafat, grupos radicais podem ampliar poder

The New York Times
James Bennet e

Steven Erlanger

Em Ramallah, Cisjordânia
Horas após a morte de Iasser Arafat, a liderança palestina preencheu rapidamente seus cargos nesta quinta-feira (11/11), tentando sinalizar que o caos e a ambigüidade que marcaram o controle de décadas de Arafat do sonho nacional palestino morreram com ele.

Com lágrimas e cantos raivosos, os palestinos lidaram com a perda da figura errática, do ícone, que os liderou de uma diáspora partida até o limiar de um Estado e os deixou presos ali, divididos sobre como seguir em frente e correndo o risco de serem dispersados novamente.

Arafat, 75 anos, morreu de um mal não revelado às 3h30 da manhã desta quinta-feira em um hospital de Paris, distante da terra que desejava governar. Na morte como na vida, ele foi barrado por Israel de Jerusalém, a cidade que ele desejava como sua capital e local de enterro.

Enquanto os palestinos absorviam a notícia de que o astuto sobrevivente tinha finalmente sucumbido, o comitê executivo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) substituiu Arafat por Mahmoud Abbas como presidente, um negociador pragmático e um crítico da mais recente intifada, o levante armado contra Israel.

Mas a confusão e a incerteza que ainda fazem parte do legado conflitante de Arafat estavam em evidência nas cenas de pesar, resignação e fúria por toda a Cisjordânia e Faixa de Gaza. Caçado no exílio por Israel como terrorista, posteriormente aceito por Israel como parceiro da paz e finalmente rejeitado novamente como terrorista, Arafat deixou seus simpatizantes exibindo o mesmo pôster dele sorrindo calorosamente e acenando no que parecia uma despedida, mesmo enquanto escolhiam entre suas mensagens conflitantes a que preferiam.

Em um testemunho comovente de quão distante de seus sonhos Arafat estava em sua morte, seu corpo foi levado de avião nesta quinta-feira ao Cairo, para aguardar um funeral militar na sexta que contará com a presença de líderes árabes, muitos dos quais não puderam ou não quiseram visitar Arafat em seu quartel-general em Ramallah, na Cisjordânia, ainda sob ocupação israelense.

A cerimônia incluirá ministros estrangeiros da Alemanha, França e Grã-Bretanha; e os presidentes da Indonésia, África do Sul e Argélia. William Burns, o secretário assistente de Estado para questões do Oriente Próximo, representará os Estados Unidos.

Após as cerimônias, autoridades palestinas disseram que o caixão de Arafat será trazido de avião para Ramallah na sexta-feira, para enterro sob meia dúzia de pinheiros situados no Muqata, o complexo arruinado no qual Israel o prendeu em seus últimos anos.

Líderes palestinos disseram que o local de enterro é provisório e imposto a eles por Israel, que proibiu o enterro em Jerusalém. Em um símbolo da tenacidade de sua ambição nacional, as autoridades palestinas colocaram terra retirada de Jerusalém sob a tumba de mármore preta e branca de Arafat.

Eles construíram ganchos na tumba para que, eles disseram, ela possa ser erguida facilmente para a eventual viagem de 16 quilômetros até Jerusalém, ao sul, ao local sagrado que os muçulmanos chamam de Santuário Nobre e os judeus chamam de Monte do Templo.

Enquanto pneus e lixo queimados cobriam Ramallah com uma nuvem desagradável e uma aeronave israelense de vigilância não tripulada voava acima, alguns palestinos invocavam Arafat para falar de um anseio por paz e acomodação com Israel. Mas jovens mascarados empunhando machadinhas também elogiavam Arafat enquanto pichavam slogans em preto nas paredes do centro.

Apesar de alguns disparos para o ar e alguma gritaria, o dia transcorreu praticamente calmo. A reação à morte de Arafat foi calada e com o pesar de muitos encoberto por um anseio por mudança e ceticismo diante da nova liderança.

"Ele liderou nossa luta por 50 anos", disse Muhammad Abu Majdi, 55 anos, dono de uma papelaria no campo de refugiados de Kalandia, na Cisjordânia. Ele chamou a morte de "nossa perda insubstituível".

Mas ele prosseguiu: "Que Deus tenha piedade dele. Nós esperamos que este seja um novo começo, de uma nova era de paz". Atrás de seu balcão, ele desmontou uma vassoura para fazer uma bandeira preta de luto.

Said Aslan, 15 anos, disse que soube da morte de Arafat quando estava prestes a fazer sua refeição pré-matinal, em preparação para o jejum do nascer ao pôr do sol do mês sagrado do Ramadã. "Nós ficamos tão transtornados que começamos a chorar", disse ele. "Quando os homens choram, então é claro que as crianças também choram."

Muitos palestinos expressaram dúvida de que Abbas ou qualquer novo líder possa uni-los como fez Arafat. "Eles podem sentar na cadeira de Arafat", disse Mouin Ragheb, 28 anos, "mas não podem substitui-lo".

Desafios para os palestinos

Grupos de jovens percorreram as ruas de Ramallah condenando o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, com cantos como "Sharon, Sharon, você pode explodir e morrer".

Os mascarados com machadinhas, que usavam lenços que os identificavam como parte de uma "unidade de execução", picharam um slogan que se referia a Arafat pelo seu nome de guerra: "Abu Amar é toda a nação, e toda a nação não morre".

O cargo de Arafat como presidente da Autoridade Palestina, criado pelos Acordos de Oslo para governar os palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, passou automaticamente segundo a lei palestina para Rauhi Fattouh, o presidente do Parlamento palestino.

Fattouh, uma figura menor e sem base política, manterá na teoria o posto por 60 dias, quando os palestinos terão que realizar eleições para a escolha do novo presidente.

"A era do símbolo acabou", disse Mohammed Dahlan, um importante líder de um grupo de cerca de 40 políticos que estavam em atrito com o governo de Arafat.

"Apesar de ser um dia muito triste por termos perdido Abu Amar", disse ele em uma entrevista dada em Ramallah na noite de quinta-feira, "é um grande dia na história palestina, porque nós enfatizamos hoje a implementação da lei como está escrita".

Mas apesar da aparente eficiência com que a liderança preencheu os cargos deixados por Arafat, são muitos os desafios à frente. Eles incluem medidas práticas como unificar os muitos serviços de segurança redundantes de Arafat, que entram em conflito uns com os outros, e medidas políticas e talvez militares como conter o Hamas, o popular grupo militante.

Além de buscar a meta declarada de Abbas de encerrar o conflito, ele e seus aliados --muitos dos quais tendo ambições potencialmente divergentes-- enfrentarão o desafio ainda maior de assegurar aos israelenses que não apenas a liderança, mas também o povo palestino, está pronto para uma divisão justa e duradoura do território. Os palestinos dizem que aguardam pelas mesmas garantias dos israelenses.

Shaul Mofaz, o ministro da Defesa israelense, disse em uma entrevista por telefone, na quinta-feira: "Nós queremos ver uma direção diferente, guiada por uma liderança diferente, para criação de um clima melhor e confiança entre os dois lados, e uma vida melhor para ambos os povos".

Membros do governo Bush, que evitavam Arafat, acusando-o de fomentar o terrorismo, adotaram um tom conciliatório na quinta-feira. "Nós sabemos que, aos olhos do povo palestino, Arafat personificava suas esperanças e sonhos de obtenção de um Estado palestino independente", disse o secretário de Estado, Colin L. Powell, segundo a agência de notícias Reuters.

O antigo adversário de Arafat, Sharon, que expressou pesar por ter fracassado em matar o líder palestino durante a invasão israelense no Líbano há 22 anos, se referiu indiretamente à sua morte. "Eventos recentes provavelmente constituirão um momento de virada na história do Oriente Médio", disse ele.

Sharon disse que Israel "continuará com seus esforços para obter um acordo diplomático com os palestinos sem atraso".

O primeiro-ministro indicou na quinta-feira que não mudará suas expectativas em relação à liderança palestina, exigindo o "fim do terrorismo" e uma luta contra ele.

Mofaz disse que se a nova liderança palestina começar a combater o terrorismo, "nós a consideraremos uma parceira para diálogo", realizando a retirada israelense de Gaza e então começando a implementar o plano de paz conhecido como roteiro para a paz (map of the road). "Hoje nós estendemos nossa mão em paz, e acredito que podemos abrir um novo capítulo com os palestinos neste momento histórico", disse Mofaz.

Fatah e Hamas

As mudanças na liderança palestina ocorridas nesta quinta-feira podem ser lidas não tanto como uma eliminação das contradições das posições polarizadas de Arafat de negociação e confronto, mas sim sua personifacação em pessoas diferentes.

Ainda não foi preenchido seu cargo como chefe da facção dominante Fatah, o que significa que seu mais alto oficial no momento é Farouk Kaddoumi, um defensor da luta armada. Kaddoumi rompeu com Arafat em oposição aos Acordos de Oslo e nunca retornou do exílio, permanecendo em Túnis.

Autoridades do Fatah insistiram que Kaddoumi terá pouca influência. "Não há mudança dentro do Fatah", disse Muhammad Dahlan, chefe dos serviços de segurança dentro da Faixa de Gaza.

Dahlan disse que o candidato do Fatah para presidente da Autoridade Palestina será Abbas, que com apoio americano serviu brevemente como primeiro-ministro palestino no ano passado, antes de renunciar, criticando Sharon e Arafat de minarem seus esforços. Dahlan reconheceu que Abbas não é popular, mas insistiu que ele é respeitado e que vencerá facilmente defendendo a lei e a ordem e um governo não corrupto.

Dahlan não descartou a possibilidade de se candidatar ao cargo máximo do Fatah, quando as eleições para o cargo forem realizadas. Dahlan, cuja base fica na Faixa de Gaza, enfrenta disputas políticas próprias. Na quinta-feira, enquanto visitava um prédio no centro de Ramallah, um jovem musculoso parou seu carro próximo do veículo utilitário esporte preto blindado de Dahlan e se inclinou pela janela para disparar rajadas no ar com um rifle semi-automático. Isto foi visto como um sinal de que os militantes do Fatah em Ramallah não respeitam a autoridade de Dahlan.

É amplamente esperado que Abbas conquiste a presidência, mas ele poderá enfrentar a concorrência de figuras independentes apoiadas por grupos militantes como o Hamas.

Na Cidade de Gaza, um porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, se recusou a dizer se candidatos do Hamas concorrerão. "Assim que a estrutura das eleições estiver clara, o Hamas declarará sua posição", disse ele. "Mas no general, eleições são a única forma de escolher a liderança."

Ele disse que o Hamas buscará uma liderança palestina unificada. Mas, quando perguntado se o grupo acertaria uma trégua com Israel, ele disse: "Enquanto houver ocupação, o Hamas manterá sua resistência".

Israel e EUA

As autoridades palestinas disseram que as eleições são cruciais para legitimizar um governo pós-Arafat. Mas realizá-las exigirá um alto grau de cooperação de Israel, que durante o conflito dividiu áreas palestinas, cercou cidades com forças blindadas e aumentou as restrições de viagem aos palestinos. Na quinta-feira, Israel optou por trancar os palestinos dentro de suas cidades, citando temores de agitação devido à morte de Arafat.

"Haja o que houver nós temos que ter uma eleição dentro de 60 dias", disse Hassan Khreisheh, um político da oposição e crítico de Arafat que foi elevado com as mudanças de quinta-feira ao cargo de presidente do Parlamento.

Ele pediu por pressão internacional sobre Israel, especialmente por parte dos Estados Unidos, que defendiam eleições palestinas para substituição de Arafat.

"Nós recebemos alguns sinais dos países europeus, alguns sinais da América, de que estão dispostos a fazer alguma pressão", disse ele. "Agora é dever deles fazê-lo".

Mofaz, o ministro da Defesa israelense, prometeu cooperação. "No momento em que decidirem por eleições e nos pedirem apoio para tal evento democrático, eu acredito que permitiremos que realizem este exercício democrático em todas as áreas", disse ele.

O secretário de Estado, Colin Powell, disse: "Nós faremos tudo o que pudermos para apoiar e ajudar o povo palestino a avançar na direção da paz durante este período de transição, e encorajamos outros na região e a comunidade internacional a fazerem o mesmo". Hamas e facções da Fatah se articulam para participar da sucessão George El Khouri Andolfato

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