UOL Notícias Internacional
 

13/11/2004

Teorias de fraude pró-Bush se espalham nos EUA

The New York Times
Tom Zeller Jr.*

Em Nova York
As mensagens eletrônicas e os sites na Web tinham os elementos de suspense de um filme de Hollywood. "Crescem as evidências de que os votos podem ter sido alvos de hackers", anunciava a manchete do site CommonDreams.org. "Ocorreram fraudes nas eleições de 2004 por meio das urnas eletrônicas", declarava outro, BlackBoxVoting.org.

No espaço de sete dias, idéias sinistras em torno das eleições presidenciais da semana passada enraizaram-se e multiplicaram-se.

O tão lido universo de blogs foi culpado pela propagação rápida das análises. Entretanto, a chamada blogosfera espalhou rumores tão rapidamente que os especialistas foram capazes de rebatê-los prontamente, em vez de permitir que ficassem no ar e alimentassem teorias de conspiração. Dias depois dos primeiros rumores as teorias mais populares foram refutadas --apesar de muitos ainda relutarem em aceitar o fato.

Grande parte da controvérsia, chamada "Votergate 2004" envolveu verdadeiras anomalias de votação na Flórida e em Ohio, dois Estados nos quais a vitória dependia no dia 2.

No entanto, o ponto zero do desastre, aparentemente, foi em Utah. "Adoro o processo de democracia e acho que é mais importante que o resultado", disse Kathy Dopp, entusiasta da Internet que mora perto de Salt Lake City. Foi a análise dela, que tem mestrado em matemática, sobre a votação na Flórida que gerou uma avalanche de teorias de fraude. Democratas desapontados tinham certeza de que algo estava errado, com base nos resultados das pesquisas de boca-de-urna que mostravam que John Kerry estava vencendo facilmente.

No dia depois das eleições, Dopp colocou em seu site na Web, www.ustogether.org, uma tabela comparando as inscrições de eleitores de cada partido em cada um dos 67 condados da Flórida. Ao lado, indicava o método de votação utilizado e o número de votos para cada candidato presidencial. Dopp e outros estatísticos que contribuem para o site sugeriram que havia um "padrão surpreendente" nos resultados da Flórida, mostrando vitórias inexplicáveis para o presidente Bush em condados Democratas que usaram sistemas de votação de scanner ótico.

O zelo e a sofisticação das análises de Dopp eram difíceis de rebater. Outros usuários da Web começaram a fazer suas próprias tabelas e modelos de regressão para defender suas teorias. Um ciclo ininterrupto de hipóteses --junto com seus audiovisuais-- foi gerado por mensagens eletrônicas contendo links para blogs, onde outros leitores ansiosos os passavam adiante diligentemente.

Em um dia, o número de visitas ao site de Dopp pulou de 50 para mais de 500, de acordo com os contadores eletrônicos. No dia 4 de novembro, esse número ultrapassou 17.000. Suas descobertas foram repetidas por blogs populares de esquerda, como DailyKos.com e FreePress.org.

Na última sexta-feira, três Democratas do Congresso --Conyers Jr., de Michigan, Jerrold Nadler, de Nova York, e Robert Wexler, da Flórida-- enviaram uma carta ao Escritório Geral de Contabilidade dos EUA pedindo uma investigação das urnas eletrônicas. Uma referência ao site de Dopp foi incluída na carta.

No entanto, as respostas à hipótese de fraude na Flórida foram rápidas. Três cientistas políticos das universidades de Cornell, Harvard e Stanford salientaram, em uma mensagem eletrônica a um site que continha a notícia, que muitos desses condados Democratas da Flórida têm uma longa tradição de votar em Republicanos nas eleições presidenciais.

Apesar de Dopp dizer que ela e dezenas de outros pesquisadores continuarão analisando as votações na Flórida, a sugestão de uma ligação entre certos tipos de urnas e a divisão de votos no Estado, ao menos por enquanto, tem pouco apoio concreto.

Ganho de votos não explicado

Mesmo assim, o número de visitantes ao site de Dopp aproximou-se de 70.000 nesta semana. Enquanto isso, outras anomalias estavam ganhando impulso na Internet. O departamento de eleições em Cleveland, por exemplo, iniciou uma histeria na Web quando divulgou números em seu site que pareciam mostrar que, em certas comunidades, houve mais votos do que o número de eleitores registrados. Era um erro de divulgação do departamento, em vez de um erro de contagem de fato.

Outro fato que foi usado como evidência de que a equipe de Bush tinha, de alguma forma, roubado foi um vazamento nas primeiras pesquisas de boca de urna. A pesquisa, de um consórcio de redes de televisão e da Associated Press, mostrava que Kerry estava na frente na Flórida e em Ohio.

As autoridades admitiram que houve verdadeiros problemas no dia das eleições, inclusive complicações com algumas urnas eletrônicas e longas e intoleráveis filas em alguns lugares. Poucas, entretanto, sugeriram que esses obstáculos poderiam ter mudado os resultados.

"Existem alguns problemas de verdade a serem abordados. Detestaria que fossem perdidos no questionamento dos resultados", disse Doug Chapin da Electionline.org, um centro de informações sobre reforma nas eleições.

São essas dúvidas, entretanto, que caracterizam a continuidade de mensagens eletrônicas e anúncios em blogs. Algumas autoridades se frustraram com os rumores constantes.

"Torna-se uma bola de neve do diz-que-me-diz", disse Matthew Damschroder, diretor de eleições de Columbus, Ohio, onde urnas eletrônicas defeituosas em uma sessão deram 4.000 votos indevidos a Bush, gerando sua própria onda de especulações na Web. Esse problema particular foi incomum e continua inexplicado, mas foi identificado e corrigido, disse ele.

"Algumas pessoas da mídia pediram explicações", disse Damschroder, "mas ninguém desses blogs ligou para perguntar o que realmente aconteceu."

Se é esse o papel de bloggers, de autores de páginas da Web e outros é questão de debate.

Clay Shirky, professora adjunta do programa de telecomunicações interativas da Universidade de Nova York, sugeriu que a Internet é uma máquina de boatos e que alguns bloggers simplesmente "não podem imaginar um universo no qual uma contagem correta dos votos resultaria na re-eleição de Bush".

Mas alguns cidadãos da Web vêem de forma diferente.

Jake White, proprietário do blog primordium.org, argumentou que ele e outros que monitoram as páginas na Web sobre as eleições não são apenas motivados pela política partidária. "Apesar de não haver dúvidas que amplos segmentos desse movimento estão sendo movidos por isso, prefiro pensar que é um descontentamento com o formato das eleições."

Eleição emocional

White também retirou da Web sua própria análise dos sistemas eleitorais em Ohio, quando compreendeu que os dados que usara estavam incorretos.

John Byrne, editor de um site alternativo de notícias, BlueLemur.com, disse que era fácil demais condenar blogs e sites da Web. O ponto mais importante, disse ele, é que oferecem uma alternativa de questionamento, já que a mídia tradicional tornou-se tímida demais. "É claro que se pode dizer que os blogs estão errados", disse ele. "Eles erram o tempo todo."

De sua parte, o comitê de campanha de Kerry vem tentando aplacar as teorias de conspiração e transmitir uma mensagem aos seus partidários, dizendo que sua missão agora é assegurar que todos votos sejam contados, não que as eleições sejam derrubadas.

"Sabemos que essas eleições foram emocionais, e o lado perdedor está muito chateado. Mas nunca vi nada indicando fraude intencional", disse Daniel Hoffheimer, advogado da campanha de Kerry em Ohio.

Um estudo preliminar produzido pelo altamente respeitado Projeto de Tecnologia de Voto, uma cooperação entre o Instituto de Tecnologia da Califórnia e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, chegou a conclusão similar. Seu estudo não encontrou "nenhum padrão particular" relacionando os sistemas de voto e os resultados finais das eleições, nem houve aparente influência das pesquisas de boca-de-urna.

"Os 'fatos' que estão circulando na Internet parecem ser seletivamente escolhidos para provar isso", concluiu o estudo.

Entretanto, não se sabe se isso vai convencer a todos.

"Daria meu braço direito para que os rumores de uma eleição roubada fossem verdadeiros. No entanto, o fato de a notícia estar em um site não a torna verdade. Podemos mudar o futuro, mas não podemos reescrever o passado", disse David Wade, porta-voz da campanha de Kerry.

* Colaboraram John Schwartz e Ford Fessenden. Busca por um "Votergate 2004" reforça caráter emocional da eleição Deborah Weinberg

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