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15/11/2004

A História de Magno é só metade da história

The New York Times
Bob Baker
O historiador da universidade de Oxford Robin Lane Fox é autor de uma biografia muito admirada de Alexandre, o Grande, publicada em 1973. E, no ano passado, Fox de repente se viu montado num cavalo, portando uma lança de madeira e enfrentando a poeira do deserto, ao lado de vários outros cavaleiros, numa reeedição das grandes conquistas de Alexandre.

Eles estavam numa região deserta do Marrocos, longe de onde ficava a antiga vila persa de Gaugamela, atualmente parte do Iraque, onde aconteceu a histórica batalha no ano 331 A.C. E o guerreiro à frente de Fox não era o lendário macedônico de 25 anos, mas o ator Colin Farrell, que interpreta o personagem principal em "Alexandre", de Oliver Stone. O filme estréia dia 24 de novembro nos Estados Unidos (no Brasil, a data marcada é janeiro de 2005).

Mesmo não sendo a experiência verdadeira, enquanto os cavalos avançavam e as câmeras filmavam, o historiador Fox se sentia recebendo um verdadeiro fluxo de epifanias. Após passar décadas pesquisando em textos, tantas vezes incompletos, sobre a época de Alexandre, agora estava testando empiricamente a história.

O historiador sentiu que sim, é possível atacar com uma lança sem usar os estribos. Não, o corpo dele mesmo falava, não seria possível carregar o escudo num braço enquanto se cavalgava. E sobre a noção tão difundida de que Alexandre guiava seus soldados emitindo sinais para a batalha? Essa tese também se desmanchou na ruidosa recriação de guerra, com toda aquela areia no ar limitando a visão dos comandantes dos dois lados em relação aos seus cavaleiros. Mais tarde, Fox ainda ficaria convencido de que seria fisicamente viável atingir um homem com uma lança montando sobre o cavalo e sem perder a arma -bastava mirar no ombro da vítima.

"Uma experiência fantástica", segundo Fox, cavaleiro experiente que exigiu sua própria aparição a cavalo no filme, como condição para trabalhar como principal consultor histórico do filme de Oliver Stone. "Como historiador você está o tempo todo imaginando em sua mente como as coisas podiam ocorrer".

Filmes históricos rotineiramente reinterpretam a história, ou simplesmente a jogam na lata de lixo. Na verdade, para alguns círculos, Stone é praticamente um pária, devido às assertivas conspiratórias presentes em "JFK" e "Nixon".

Mas a filmagem da batalha de Gaugamela parece ter sido uma experiência mais complexa, ainda mais porque o episódio histórico freqüentemente não atrai um consenso entre os historiadores, o que obrigou Stone e seus consultores a basearem sua grandiosa realidade fílmica em uma síntese objetiva do que seria autêntico e plausível, ainda que com pelo menos uma pequena dose de fantasia e espetáculo.

Ao dispor no deserto marroquino mais de mil atores e figurantes nas clássicas formações para a batalha macedônica, junto com carruagens, cavalos e camelos, Stone colocou em movimento muitas questões e aspectos sobre o que significava ser um soldado há dois milênios, variando entre o grandioso, o técnico e o trivial.

Por exemplo, como foi que Alexandre enganou um exército persa, quatro vezes maior que sua própria tropa de 50 mil homens, fazendo com que eles abrissem seus flancos, até caírem num buraco convenientemente aberto pelos macedônios? Por que as carruagens letais do rei persa Dario, equipadas com foices segadeiras nas rodas, não provocaram prejuízo maior? Qual a velocidade possível para o avanço de um sintagma (16 fileiras de dezesseis homens) de soldados, enquanto carregavam lanças de mais de 5 metros com pontas de aço, conhecidas como sarissas? Será que os homens da infantaria usavam meias?

As respostas a essas questões couberam em grande parte a dois especialistas com visões opostas: a Fox, 58, acadêmico (que também escreve sobre jardinagem para um jornal), e a Dale Dye, um veterano consultor para filmagens de batalhas que já tinha sido colaborador de Stone. Capitão de marinha aposentado, aos 60 anos Dye geralmente se mostra cético quanto à fidelidade à história oficial.

Como Dye já havia feito em vários outros sets de filmagem de combates -no seu currículo constam produções como "Além da Linha Vermelha", "O Resgate do Soldado Ryan", "Tropas Interestelares" e "Platoon", de Oliver Stone-, ele convocou os membros do elenco e figurantes, entre eles centenas de militares emprestados pelo governo marroquino, para três semanas de "treinamento de guerra histórica", o que incluiu combates de espadas e práticas com outras armas arcaicas, com direito a preleções históricas noturnas.

A batalha que eles quiseram recriar tinha uma característica mítica em si: o exército macedônico de Alexandre já havia enfrentado duas vezes as tropas de Dario, e vencido. A terceira vitória marcou a queda definitiva do Império Persa, dando a Alexandre o controle da Ásia e posteriormente a conquista de 90% de todo o mundo que era conhecido na época -tudo isso antes de sua morte, aos 32 anos.

Dye, que chegou a dirigir algumas das cenas da batalha de Gaugamela, com 11 minutos de duração na tela, não teve pudores de sugerir a Fox que a intuição adquirida ao colocar exércitos de imitação em campos de batalhas no cinema daria mais credibilidade ao filme que as descrições dos historiadores.

Parte do problema -tanto para os acadêmicos como para os diretores- é que não há vestígios de nenhum dos 20 relatos que supostamente foram escritos pelos contemporâneos de Alexandre. Os relatos que nos são mais próximos foram escritos quatro séculos ou mais depois da morte de Alexandre, de acordo com Fox, que descreve a sua biografia de Alexandre mais como uma "pesquisa" sobre o general do que propriamente uma narrativa sobre a vida do conquistador.

"Estou (c.) para o que as fontes históricas têm a dizer", conta Dye numa entrevista em sua casa num subúrbio de Los Angeles, que também funciona como seu próprio museu de relíquias militares e biblioteca. "Embarquei nessa jornada com a convicção de que os homens da infantaria tinham o mesmo coração e a alma voltados para seu trabalho que têm os rapazes agora ao redor de Bagdá."

Fox foi contratado por Stone em 2002, depois de um encontro em que o diretor, há tempos obcecado pela idéia de fazer um filme sobre Alexandre, fez uma série de questões ao professor. Stone, um homem notoriamente movido pela audácia, concordou com o pedido de Fox e o escalou como ator no grupo principal da cavalaria de Alexandre. Mas o diretor se recusou a atender outra demanda do vaidoso historiador: créditos na tela para ele, começando por "E apresentando..."

"Há dois tipos de historiadores de Alexandre", conta Fox por telefone. "Um grupo faz a revisão histórica a partir de seus próprios valores morais profundamente arraigados a respeito das relações internacionais, e olha para Alexandre como alguém que deve ser reduzido ao papel de um mero agressor promíscuo. O outro grupo de historiadores quer saber como é que era fazer parte da entourage de Alexandre, como era ver o mundo sob a ótica do comandante. Eu me identifico mais com essa segunda corrente; como você pode ter a idéia do que era a guerra, se nunca teve a oportunidade de fazer parte de um grande exército, como guerreiro sem estribos avançando por um deserto cheio de escorpiões?"

Fox reconhece que muitas vezes não havia fatos sólidos o bastante para serem contrapostos ao consultor Dye e à sua vontade de extrapolar. "Nós viemos de dois universos completamente diferentes", diz Fox. "Dale é um soldado, e eu realmente tenho respeito por isso. Adoro conversar com ele, mas não concordo quando ele diz que 'todos os historiadores inventam'".

Um exemplo da contribuição de Dye à batalha pode ser visto quando os soldados de Alexandre montam uma armadilha para uma carruagem, veículo movido a cavalos cujas rodas pontiagudas poderiam ferir vários soldados de uma vez.

Dye disse que estava buscando uma concepção cênica que ilustrasse a flexibilidade da formação de um sintagma na guerra. Ele havia lido que as tais diligências de Dario não haviam sido assim tão importantes em Gaugamela. Como ele também havia lido que Dario acreditava que suas carruagens poderiam quebrar a infantaria de Alexandre, Dye criou o que se
chama de "licença tática", inferindo que Alexandre havia bolado uma manobra defensiva.

Então a cena ficou assim (também contando com a assessoria de um especialista em cavalaria que trabalha para a empresa de Dye, a Warriors
Incorporated):
Quando o comandante de um sintagma reconhecia que uma carruagem avança na direção de seus homens, ele faz um sinal para que seja montada uma armadilha. As filas de homens no meio de um sintagma pendem para a esquerda ou para a direita, para criar uma abertura, atraindo os cavalos. Os animais cairiam no buraco porque os soldados nos dois lados da grande cavidade teriam reagido inclinando as sarissas para baixo, intimidando os cavalos. Na borda do fundo do buraco, as últimas quatro fileiras da infantaria de Alexandre permaneciam em guarda. Seguindo um comando, eles levantariam suas lanças em posição de ataque, fazendo os cavalos se precipitarem. Outros soldados fora da formação entravam nas fileiras, para trucidar os cavalos e os cavaleiros persas. O sintagma, com sua formação intacta, então seguia adiante para outros lances da batalha.

Não há evidências históricas de que essa tática tenha sido utlizada, como Fox observa num livro recém-publicado sobre as filmagens de "Alexandre". Tudo o que se imaginava, segundo Fox, era que alguns homens da infantaria alvejaram dardos nas carruagens, atingindo quem estava nessas diligências. Da mesma forma, a insistência de Dye em utilizar essas formações com 256 homens não está fundamentada em dados históricos, segundo Fox. "Ninguém sabe ao certo, porque nunca mais uma falange completa dessas formações foi vista em movimento, isso desde que a Macedônia caiu diante de Roma, na metade do segundo século antes de Cristo".

Dye rebate: "Chega uma hora em que todos dão palpites, então é melhor se aplicar o 'padrão de um soldado'. Acreditamos que os soldados não sejam
estúpidos, eles fazem o que dá certo. E isso se aplica a todos, desde as
guerras do Peloponeso até a 'Guerra nas Estrelas'".

Dye conclui -e isso se reflete nas cenas de batalhas- que os comandantes de Alexandre usavam um sistema com clarins, tambores, sinais visuais ou mensageiros, para comunicar as ordens de movimentação para cada grupo de 16 soldados durante a neblina de guerra.

Uma explicação para a coordenação necessária ao se executar a estratégia de batalha de Alexandre em Gaugamela: os macedônios teriam "fintado" ou simulado um ataque pelo flanco direito, atraindo os soldados de Dario para o flanco esquerdo do ataque persa, aí causando um buraco aberto bem no centro das tropas da Pérsia. Isso teria permitido aos soldados de Alexandre um avanço que quase matou o próprio Dario, que conseguiu fugir.

Stone acredita que a diferença nas visões de mundo entre Fox e Dye foi benéfica. "Se você consultar todas as fontes, verá que elas nunca lhe levam até o final das batalhas. Ou seja, até hoje eu não posso lhe assegurar sobre o que aconteceu". Tudo o que o filme pode fazer é lhe "transportar até lá", comenta o diretor, "assim como 'JFK' permitiu que eu me transportasse até ao local do crime, a Dealey Plaza".

O que o diretor queria comunicar com a cena de Gaugamela, segundo o próprio Stone, era o brilhantismo da estratégia de Alexandre (numa sequência de 12 minutos sobre as táticas e a preparação na noite anterior à batalha), o fatalismo do líder (acredita-se que Alexandre julgava ser descendente direto de Zeus) e também a tolice inerente à juventude.

Cavalgando na linha de frente, Alexandre é derrubado pelo próprio cavalo (outra extrapolação) e salvo por seus homens. "Nessa vida louca as pessoas algumas vezes tropeçam no seu percurso rumo à História", diz Stone. "Em Gaugamela, ele era um rapaz marrento e voluntarioso. Perde o cavalo, sua vida é salva, e assim ele vai em busca de seu objetivo maior".

Isso tudo depois de ter ficado a poucos metros da possibilidade de capturar Dario -foi contido por seus comandantes, que lhe pediram para recuar e não colocarem perigo o que restava de seu exército. "Há uma verdade maravilhosa nessa história", conclui Stone. "Continue tentando, que vale a pena". "Alexandre", novo filme de Oliver Stone, mescla contribuições de um historiador e de um ex-soldado Marcelo Godoy

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