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16/11/2004

Forças dos EUA derrotam rebeldes em Fallujah

The New York Times
Dexter Filkins e James Glanz

De Fallujah (Iraque)
As forças americanas derrubaram o último centro de resistência rebelde em Fallujah, no domingo, depois de uma invasão de uma semana que destruiu a principal base da insurgência iraquiana.

Apesar de grande parte da cidade ter virado ruínas e bandos isolados de rebeldes ainda desafiarem tropas americanas e iraquianas, a tomada americana de Fallujah resolveu um problema crescente que atormentou a força de ocupação iraquiana durante meses. Os oficiais americanos, entretanto, relutaram em declarar a invasão um sucesso absoluto e tiveram que enfrentar o surgimento de revoltosos em outras partes, particularmente na cidade de Mosul, no Norte.

O governador da província de Mosul, dizendo ter perdido a fé nas forças de segurança locais, chamou pela primeira vez milhares de milícias curdas para aplacar os revoltosos. O comandante americano na área, brigadeiro Carter Ham, chamou a situação de "tensa, mas certamente não desesperada" e disse que haverá mais duros combates nos próximos dias.

Tanques e blindados, atirando em todas as direções, acabaram de varrer Fallujah no início de domingo (14/11) e foram seguidos por soldados a pé, parte dos 15.000 homens da força de invasão que cercou a cidade no dia 7 de novembro. Em buscas metódicas, de casa em casa, as patrulhas encontraram enormes esconderijos de armas.

"Estamos varrendo a cidade agora. Estamos limpando pontos de resistência. Há grupos de guerrilheiros com 5 a 30 homens. Eles também estão se deslocando. Estão tentando ficar atrás de nós", disse o general Richard Natonski, comandante Marine no Iraque.

"As pessoas nunca vão ter uma noção da movimentação dos soldados aqui, o que foi preciso fazer para transportá-los e conduzir uma rendição", disse Natonski. Esta operação "deveria entrar para os livros de história".

Comandantes americanos disseram que 38 membros do serviço americano foram mortos e 275 feridos no assalto a Fallujah. Eles estimaram entre 1.200 e 1.600 o número de guerrilheiros mortos -cerca da metade que estaria entrincheirada na cidade. No entanto, não foram encontrados corpos de insurgentes mortos nas ruas e favelas onde se deu a maior parte dos combates.

De um ponto de vista puramente militar, a operação redimiu um assalto desastroso à cidade em abril, que foi interrompido depois de relatos não confirmados de altos números de baixas civis, que elevaram demais o preço político.

Desta vez, os americanos, com a participação limitada das forças de segurança iraquianas, atacaram uma cidade escura e praticamente abandonada, defendida apenas por um bando evasivo de guerrilheiros que atiravam nos americanos com Kalashnikovs, morteiros e foguetes e depois fugiam para as vielas e blocos de apartamentos, reaparecendo em outra parte.

Por fim, a resistência não agüentou os blindados, o poder aéreo e o treinamento militar americanos.

Enquanto a batalha por Fallujah diminuía de intensidade, os combates continuavam pelo quarto dia consecutivo entre insurgentes e forças iraquianas e americanas em Mosul. Oficiais americanos disseram que os guerrilheiros estavam no coração da cidade.

A revolta também pareceu estar se espalhando pela cidade de Tal Afar, perto da fronteira com a Síria, o que levou as forças americanas a isolarem a área. Em Ramadi, reduto guerrilheiro a 50 km a oeste de Fallujah, a violência contra as tropas americanas continuou no domingo. Houve vários ataques com armas de fogo e uma granada foi lançada por foguete contra as tropas na cidade. Oficiais americanos disseram que muitos rebeldes tinham fugido de Fallujah e agora estavam escondidos em Ramadi.

Um representante do grande aiatolá Ali Al Husseini Al Sistani, o mais poderoso clérigo xiita no Iraque, condenou fortemente a violência infligida nas cidades pelos americanos e pelos guerrilheiros.

"O que está acontecendo em Fallujah, Samarra, Latifiya e outras cidades no Iraque é um desastre, porque a ocupação não quer que nossas cidades se estabilizem", disse o representante, Murtada Al Qezweni. Ele se pronunciou durante as preces do início do feriado de três dias de Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadão, mês sagrado de jejum islâmico, na cidade de Karbala, no Sul.

Na região curda do norte, um membro da Assembléia Nacional interina morreu em um acidente de automóvel, na noite de sábado, depois de sofrer uma emboscada, segundo a Reuters. O político, Waddah Hassan Abdel Amir, membro do Partido Comunista do Iraque, e dois de seus assessores foram caçados por quatro carros na estrada entre as cidades de Khalis e Erbil.

Em outra parte, dois parentes do primeiro ministro Ayad Allawi foram liberados por insurgentes. Um terceiro refém continuou cativo, segundo anunciou a rede árabe Al Jazeera, no domingo. As notícias, atribuídas a fontes não identificadas, não puderam ser confirmadas. Muitas vezes os insurgentes fazem declarações públicas por meio da rede.

Segundo o informe, foram liberadas a mulher e a nora de Ghazi Majeed Allawi, primo de 75 anos. Os três foram seqüestrados na terça-feira. No dia seguinte, um grupo chamado Ansar Al Jihad divulgou uma mensagem na Internet dizendo que ia decapitar os três reféns dentro de 48 horas, se Allawi não interrompesse a invasão de Fallujah e liberasse todos os prisioneiros no Iraque.

O destino do primo de Allawi, Ghazi Allawi, continua desconhecido.

O primeiro ministro da França, Jean-Pierre Raffarin, disse em um congresso político que acreditava que os dois jornalistas franceses seqüestrados no sul de Bagdá, em agosto, estavam em uma região relativamente calma do Iraque. Ele se baseou em informações do motorista sírio dos jornalistas, que foi encontrado em uma casa em Fallujah na semana passada. "As mensagens que estamos recebendo nos acalmaram um pouco", disse Raffarin, de acordo com a Reuters.

Os repórteres seqüestrados são Georges Malbrunot, do Le Figaro, e Christian Chesnot, que trabalha para a Radio France International.

Em Bagdá, explosões de morteiro e foguetes balançaram o centro da cidade e o bairro fortificado chamado Zona Verde, que abriga o governo interino do Iraque e a embaixada americana.

A ausência de corpos de guerrilheiros em Fallujah continua misteriosa. As patrulhas americanas encontraram poucos em suas excursões pelo cenário devastado onde os rebeldes escolheram fazer sua última resistência, o bairro do sul chamado Shuhada pelos iraquianos e Queens pelas tropas americanas.

"Alguns podem ter fugido, inclusive os grandes, como Zarqawi", disse Natonski, referindo-se a Abu Musab Al Zarqawi, militante jordaniano cujo grupo, Al Qaida da Mesopotâmia, tinha sede em Fallujah e é responsabilizado por inúmeras decapitações, bombas e outros atos de violência no Iraque. "Nunca esperamos que estivessem ali. Nossa inteligência dizia que estariam fora da cidade. Não estávamos atrás de Zarqawi, estávamos atrás dos insurgentes em geral."

Agora, paradoxalmente, os americanos estão trazendo engenheiros, que devem começar a reconstruir o que o conflito acaba de destruir.

A rede de energia elétrica de Fallujah, por exemplo, está tão debilitada que tem que ser ligada setor por setor, para não cair. Se os moradores conseguirem voltar antes do conserto da rede elétrica, estarão sem serviços básicos como esgoto, água e aquecimento. As crises resultantes poderão ajudar os insurgentes, que esperam desestabilizar a reconstrução.

"A operação Fallujah será um sucesso militar, mas ainda precisamos ver se será chave para o sucesso político", disse o senador Jack Reed, Democrata de Rhode Island, que está no Comitê das Forças Armadas.

Reed, que falou ao telefone do Kuwait no sábado, disse que o trabalho na infra-estrutura de Fallujah terá que ser prioritário para se manter o impulso positivo do sucesso militar.

"Há uma necessidade de ligar residências e bairros a sistemas de esgoto, por exemplo", disse Reed. "Em várias áreas, o esgoto ainda cai da janela do segundo andar para as ruas."

Apesar dessas necessidades, oficiais ainda não permitiram que grupos humanitários entrem na cidade, dizendo que a situação ainda não está segura o suficiente. A decisão gerou revolta entre alguns críticos, que dizem que ainda há números substanciais de pessoas dentro da cidade que precisam de ajuda.

Apesar de as batalhas em grande escala parecerem terminadas, os comandantes americanos têm relutado em declarar sucesso.

"Não queremos que se torne um microcosmo do que se tornou esse país", disse um oficial Marine, em condição de anonimato. Ele se referia ao fato de os americanos terem declarado vitória na guerra em maio de 2003 e depois verem a situação decair para o caos e a violência.

Em Washington, o porta-voz do Pentágono Bryan Whitman disse que ainda era cedo para declarar vitória, mas que as tropas americanas e iraquianas tinham atingido um de seus principais objetivos ao eliminar o maior porto seguro dos insurgentes.

"As tropas de coalizão agora estão em Fallujah, apesar de ainda haver operações de limpeza", disse Whitman.

Os soldados estavam percorrendo as casas destruídas e desertas no sul de Fallujah na tarde de domingo, depois de uma unidade mecanizada derrubar o bairro, chamado Shuhada, no dia anterior, afugentando os guerrilheiros de seu último reduto na cidade.

De casa em casa, as buscas revelaram grandes esconderijos de armas como munição de artilharia e morteiros, além de peças eletrônicas para construir bombas e literatura mujahedeen. Temendo armadilhas, as tropas geralmente entravam nas casas apenas depois de os tanques derrubarem as paredes ou os especialistas explodirem as portas.

Enquanto as buscas se moviam para o sul, deixando um rastro de devastação, os combates continuavam na cidade. Ao menos um Marine foi morto por um atirador na manhã de domingo, com um tiro na cabeça, em uma área que tinha sido praticamente destruída na noite anterior.

No entanto, parece claro que agora a resistência em Fallujah terá que ser feita por bandos menores, em vez de uma força de combate coerente.

Na cidade de Bayji, no Norte, local da maior refinaria de petróleo do Iraque, soldados americanos enfrentaram uma emboscada na manhã de domingo, disse o capitão Bill Coppernoll, porta-voz da 1ª Divisão de Infantaria. Os soldados pediram suporte aéreo e perseguiram os insurgentes para dentro de um prédio. Helicópteros Apache lançaram mísseis Hellfire, enquanto tanques Abrams atiravam contra o prédio.

Os insurgentes continuaram a atacar militares americanos de uma área em torno de Fallujah. Pela primeira vez, lançaram morteiros contra a cidade, em uma aparente admissão de que as forças americanas agora a dominavam.

Um Marine e um soldado iraquiano foram feridos por morteiros em um posto policial perto de Nasser Waslaan, a oeste da cidade.

Ao nordeste, houve tiroteio entre uma patrulha americana e um grupo de guerrilheiros que transportava mantimentos pelo Rio Eufrates. Os soldados pediram um ataque aéreo e um F-16 lançou uma bomba no barco, destruindo-o.

Um helicóptero Blackhawk levando suprimentos médicos foi atingido por fogo antiaéreo no norte de Fallujah, na tarde de domingo, mas pousou em segurança. Outro helicóptero, um Apache, foi atingido a oeste de Fallujah naquela noite, desta vez com uma granada lançada por foguete e pequenas armas de fogo. Foi danificado, mas conseguiu pousar em segurança no aeroporto de Bagdá. Militares americanos encontram armas no reduto dos insurgentes Deborah Weinberg

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