UOL Notícias Internacional
 

16/11/2004

Powell pede demissão como secretário de Estado

The New York Times
David Stout e Mark J. Prendergast

De Washington
O secretário de Estado, Colin L. Powell, disse na segunda-feira que deixará o cargo assim que um sucessor for escolhido, resultado do que descreveu como um antigo acordo com o presidente Bush de que serviria apenas quatro anos como o diplomata-chefe do país.

"Sempre foi minha intenção servir apenas um mandato", disse Powell aos repórteres em uma coletiva televisionada no Departamento de Estado, na tarde de segunda-feira.

"Nas últimas semanas e meses, o presidente Bush e eu conversamos sobre política externa e conversamos sobre o que fazer ao final do primeiro mandato", disse Powell, acrescentando que "nós chegamos a um acordo mútuo de que seria apropriada minha saída a esta altura".

"O que farei a seguir?" ele perguntou retoricamente. "Eu não sei."

Powell disse que continuará ativo na execução de suas responsabilidades até o último dia, notando que "nós temos de assegurar a continuidade da guerra global contra o terrorismo, temos que consolidar os ganhos muito significativos que temos visto no Afeganistão e temos que garantir a derrota desta insurreição no Iraque".

Powell também mencionou sua carta de demissão ao presidente, que ele disse ter entregue na sexta-feira. Naquela carta, Powell também expressou satisfação por ter feito parte dos esforços do governo para "trazer à atenção do mundo o problema da proliferação, reafirmar nossas alianças, se ajustar ao mundo pós-Guerra Fria e realizar grandes iniciativas para lidar com o problema da fome e das doenças no mundo em desenvolvimento".

Powell também sugeriu na segunda-feira que "uma nova oportunidade se apresentou no Oriente Médio" com a morte do líder palestino Iasser Arafat, a quem o governo Bush buscava isolar, e notou que o presidente "falou sobre isto".

O secretário ainda disse que o governo Bush precisa continuar trabalhando para "fortalecer nossas alianças", particularmente na Ásia, "para encontrar uma solução para o programa nuclear norte-coreano".

E se referindo ao programa nuclear do Irã e à Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) da ONU, Powell também aconselhou que "temos que trabalhar com nossos amigos da União Européia e com a Aiea para encontrar uma solução para o programa nuclear iraniano".

Em outras partes, ele prosseguiu, "o presidente também tem uma agenda ativa ligada ao comércio -livre comércio, com respeito à Conta do Desafio do Milênio, recursos para desenvolvimento, luta contra HIV/Aids, e fortalecer as parcerias e alianças que temos ao redor do mundo".

"Assim", ele concluiu, "eu acho que ainda há muitos desafios, mas eu acho que há ainda mais oportunidades".

Respondendo as perguntas dos repórteres em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, o porta-voz chefe do presidente, Scott McClellan, rebateu as sugestões de que Powell estava sendo afastado, dizendo que "foi decisão dele se demitir", acrescentando que "o secretário Powell tomou a decisão, por motivos próprios, de que este é o momento de sair".

A saída de Powell era esperada há muito tempo, dados seus repetidos desentendimentos com o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, e outros que adotaram uma posição linha dura em relação ao Iraque e outras questões internacionais.

Powell defendeu o argumento americano perante a ONU sobre se Saddam Hussein possuía armamento não-convencional de destruição em massa, e também persuadiu Bush a procurar a ONU. O secretário afirmou que Saddam tinha tais armas -o principal argumento para a invasão liderada pelos Estados Unidos que derrubou o regime de Bagdá- e teria ficado profundamente consternado quando nenhuma foi encontrada.

Acredita-se que a decepção de Powell com o curso dos eventos no Iraque deve ter aumentado com a inteligência ruim sobre as armas do Iraque, já que sabia-se que ele estava desconfiado da invasão de qualquer forma.

Apesar de ter sido um soldado profissional por 35 anos, ter chegado à chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e supervisionado a primeira guerra contra Saddam, em 1991, ele pediu ao governo que tivesse cautela desta vez. Alguns colegas disseram que Powell utilizou um slogan freqüentemente encontrado em lojas de antiguidades ao descrever qual seria a situação dos Estados Unidos caso fossem à guerra: "Se você quebrar, terá que comprar".

Três outras renúncias no Gabinete, todas envolvendo membros de menor destaque, foram anunciadas na segunda-feira. Ann M. Veneman, a secretária de Agricultura; Rod Paige, o secretário de Educação, e Spencer Abraham, o secretário de energia, não permanecerão para o segundo mandato de Bush.

Tal reformulação não é incomum entre mandatos, enquanto presidentes e seus conselheiros de maior confiança decidem quem gostariam de manter em seus Gabinetes e quem gostariam de mudar. Nem sempre fica inteiramente claro quais demissões são encorajadas e quais são provocadas por motivos puramente pessoais: fadiga diante das longas horas de trabalho e o desejo de voltar para casa, por exemplo.

Powell, 67 anos, é o 65º secretário de Estado do país. Dois nomes foram prontamente mencionados para o possível sucessor: Condoleezza Rice, a conselheira de segurança nacional de Bush, e John Danforth, o embaixador na ONU e ex-senador republicano do Missouri. Ambos possuem vantagens óbvias.

Rice, que fez 50 anos no fim de semana, é uma especialista em Rússia e é conhecida por estar preocupada com a possibilidade da Rússia, sob o governo do presidente Vladimir Putin, estar caminhando de volta ao tipo de controle interno da era soviética.

Danforth, um padre ordenado conhecido por sua retidão altiva, é uma pessoa já empregada tanto por presidentes republicanos quanto democratas.

Antes de sua indicação para o posto na ONU, Danforth foi enviado como emissário especial do presidente Bush para as negociações de paz no Sudão, para tentar acabar com a guerra civil entre o governo dominado pelos muçulmanos no Norte e os cristãos e rebeldes animistas no Sul. E o governo Clinton lhe pediu que liderasse a análise do ataque mortal do FBI em 1993 contra o complexo do Ramo Davidiano perto de Waco, Texas.

Se o presidente Bush não escolher Rice para suceder Powell -talvez preferindo mantê-la mais próxima da Casa Branca- e não optar por Danforth, outros possíveis candidatos são o senador Richard G. Lugar, o republicano de Indiana que preside o Comitê de Relações Exteriores e é respeitado tanto por republicanos quanto por democratas, e o vice-secretário de Defesa, Paul D. Wolfowitz, um ex-embaixador na Indonésia e estudioso de relações exteriores.

Mas Wolfowitz é conhecido como linha dura em relação ao Iraque, e sua indicação poderia provocar uma luta para confirmação no Senado.

Apesar de Powell ter divergido com freqüência com o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, não está claro se há qualquer animosidade pessoal entre eles. Alguns meses atrás, por exemplo, Powell foi fotografado abraçando Rumsfeld de forma afetuosa.

Para os europeus, os Estados Unidos não deram à ONU tempo suficiente para que chegasse a uma conclusão plena de que Saddam não tinha armas de destruição em massa. Rumsfeld se referiu à "velha Europa" em suas críticas à oposição à guerra pela França e Alemanha.

Powell, por outro lado, apesar de apoiar Bush no Iraque, conseguiu em geral manter boas relações ao redor do mundo e é conhecido por querer que os Estados Unidos comecem a se reabilitar. Uma das missões mais recentes de Powell foi no Leste Asiático, no final de outubro, onde tentou formar uma frente unida para lidar com a Coréia do Norte e suas ambições nucleares.

Estava agendado um encontro no final da segunda-feira com o ministro das Relações Exteriores de Israel, Silvan Shalom, e ele deverá participar de uma reunião no Chile na quarta-feira, assim como de uma conferência multinacional sobre o Iraque na próxima semana.

Apesar de Powell ser amplamente descrito como descontente, alguns amigos e associados achavam que ele poderia ficar, esperando em particular recolocar as negociações de paz no Oriente Médio nos trilhos e unir aliados asiáticos para lidar com a Coréia do Norte.

Um amigo descreveu o secretário como "eterno otimista", e o próprio secretário já descreveu sua vida como emblemática do sonho americano. Powell, filho de imigrantes jamaicanos, foi criado no South Bronx, estudou em escolas públicas de Nova York e se formou pela Faculdade Municipal de Nova York, onde obteve diploma de geologia e participou do Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva.

Vários anos atrás, Powell foi perguntado em uma entrevista na televisão sobre como um diplomado pela Faculdade da Cidade de Nova York, com notas longe de serem brilhantes, derrotou candidatos veteranos formados em West Point para se tornar chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. "Este é um grande país", disse ele com um sorriso. George El Khouri Andolfato

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