UOL Notícias Internacional
 

18/11/2004

Alimente milionários e mate estudantes de fome

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
A justaposição das duas reportagens, uma na seção de notícias e outra na de esportes, foi instrutiva.

Nós, cidadãos e contribuintes de Nova York, soubemos por uma reportagem na primeira página aqui do The New York Times da última quinta-feira que alunos da Escola Pública 63 no South Bronx (periferia da cidade) têm de receber aulas de ginástica no saguão da escola. Eles não têm um ginásio.

Sua professora, Rose Gelrod, desenhou uma trilha de jogging no piso do saguão. Essas aulas improvisadas, como nos informou a repórter Susan Saulny, "são habitualmente interrompidas por pessoas que vão aos banheiros e por entregas para a lanchonete".

Bem-vindo ao mundo maravilhoso da negligência, que é a vida diária dos estudantes da cidade de Nova York.

Ah, mas na página 1 da seção de esportes do mesmo jornal há uma história diferente. É um perfil do bilionário mimado e dono dos New York Jets, Robert Wood Johnson 4º, conhecido como Woody por seus amigos e pelas muitas autoridades públicas que se atropelam para tentar beijar seu anel.

As mesmas pessoas que estão gritando pobreza ao negar ginásios e locais de recreio para os escolares da cidade --começando pelo bilionário prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e pelo governador George Pataki (ambos republicanos)-- estão fazendo um grande esforço para reunir e entregar centenas de milhões de dólares do contribuinte a seu amigo Woody, para que ele possa ter o maior, mais luxuoso e mais caro estádio esportivo que o país já teve.

O estádio seria localizado num dos terrenos mais valiosos do mundo, de frente para o rio Hudson em Manhattan, que também seria entregue a Woody para que o utilize. Puxa, como é bom ser bilionário!

Quanto às crianças, bem... esqueça. Elas não têm dinheiro. Durante pelo menos 30 anos, foram desprezadas no que se refere a playgrounds e instalações atléticas. Quase um quinto das escolas da cidade não tem ginásios; 94% não têm campo de atletismo. Mais da metade não tem playground.

Os políticos vão dizer que não podemos fazer melhor que isso para as crianças da escola pública. Mas um playground de US$ 1,5 bilhão para os ricos e famosos, junto ao rio Hudson? Não há problema.

No artigo sobre Johnson, Duff Wilson, do Times, disse: "Ele é um dos maiores angariadores de fundos para os republicanos, e seus aliados agradecidos --o presidente Bush, o governador Pataki e o prefeito Bloomberg-- formam uma rara trinca de apoio poderoso".

Quando você esbanja dinheiro com políticos, espera algo em troca. Entre as coisas que Johnson quer estão US$ 600 milhões em verbas municipais e estaduais (pelo menos) para completar a diferença entre os US$ 800 milhões que ele está colocando e os estimados US$ 1,4 bilhão que o estádio custará.

O Estado e o município são responsáveis por financiar as escolas subfinanciadas da cidade, e eles lutam como galos de briga sobre quem deve pagar o quê. Mas estão no acordo mais harmonioso de que o estimado Woody deve receber as centenas de milhões que quer para seu estádio.

Não poderia ser porque ele azeitou tantas mãos, poderia? Eu pessoalmente acho que todo esse projeto é um escândalo, uma distribuição de tremendos bens públicos para um interesse privado incrivelmente rico. Nos velhos tempos alguém teria chamado o xerife. Mas você não ouve mais falar muito em propinas ou qüiproquós criminais porque os bandidos descobriram como fazer tudo virar legal.

Woody Johnson não gosta muito de publicidade. Ele faz o possível para evitar os refletores. "Ele recusa entrevistas para um perfil", escreveu Wilson. "Ele também disse a seus familiares mais próximos e antigos parceiros empresariais para não falar sobre ele."

Woody gostaria que o público soubesse o mínimo possível sobre ele. No entanto, está com a mão estendida e bem aberta, pronta para agarrar o maior volume de dinheiro público que consiga.

A negligência das escolas da cidade de Nova York vai muito além da falta de ginásios, pistas de atletismo e playgrounds. As salas de aula estão superlotadas e existe uma perigosa escassez de professores qualificados. Os banheiros de algumas escolas não têm sequer papel higiênico ou toalhas. Pais e professores muitas vezes são obrigados a comprar os suprimentos mais básicos.

Você poderia pensar que os poderes competentes tratariam desse tipo de coisa antes de atender à lista de desejos dos avarentos e cobiçosos bilionários.

Você poderia pensar isso. Mas, se pensasse, estaria enganado. Nova York assiste a uma absurda inversão de prioridades públicas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host