UOL Notícias Internacional
 

18/11/2004

China tenta superar supremacia cultural dos EUA

The New York Times
Jane Perlez

Chiang Rai, Tailândia
Em templos em estilo de pagode doados pelo governo chinês à universidade de Chiang Rai, Long Seaxiong, 19, fica acordado até tarde para dominar as complexidades do idioma mandarim.

Ele diz que o sacrifício vale a pena, e que a decisão de estudar chinês, ao invés de aperfeiçoar o seu inglês precário, foi fácil de ser tomada. Ele insiste que a China, e não os Estados Unidos, é o futuro, repetindo um argumento usado por vários membros da sua geração na Ásia.

"Durante mais alguns anos os Estados Unidos ainda serão o número um, mas em breve esse lugar será ocupado pela China", prevê com confiança Long, filho de um empresário tailandês, apontando para as pedras, telhas e os salgueiros importados da China que decoram o pátio do Centro de Cultura e Linguagem Chinesas Sirindhorn, que foi inaugurado há um ano.

O centro é um sinal da presença cada vez maior da China em todo o sudeste da Ásia e o Pacífico, onde Pequim faz propaganda intensa do país e do idioma, de forma similar à forma como os Estados Unidos promoviam os seus valores e cultura durante a Guerra Fria. E esse não é um produto difícil de se vender, especialmente para jovens asiáticos ansiosos por consolidar os laços culturais à medida que a China aprofunda os seus interesses econômicos e políticos na região.

Impedido de viajar os Estados Unidos devido à dificuldade de conseguir vistos após o 11 de setembro, um número cada vez maior de moradores do sudeste asiático está viajando à China como estudantes e turistas.

De forma semelhante, os turistas chineses, menos assustados que os norte-americanos com a possibilidade de serem alvos do terrorismo, estão se tornando o grupo dominante na região, superando em quantidade os norte-americanos em locais como a Tailândia e chegando próximo aos onipresentes japoneses.

Conforme os novos turistas chineses provenientes da classe média, que cresce com rapidez, passam a viajar, eles levam consigo uma imagem de uma China bastante diferente e mais convidativa do que aquela de alguns anos atrás.

A imagem atual é a de um país mais rico, mais confiante e mais influente. "Em alguns países, o medo da China parece estar sendo substituído pela febre da China", afirma Wang Gungwu, diretor do Instituto de Estudos do Leste da Ásia, da Universidade Nacional em Singapura.

De forma geral, as medidas persuasivas chinesas no campo cultural são modestas quando comparadas às dos Estados Unidos. E a cultura popular norte-americana, dos filmes de Hollywood à MTV, ainda é muito mais exportável e acessível. Quanto a isso todos concordam. Os Estados Unidos também mantém o equilíbrio da força militar bruta na região.

Mas, segundo dizem os educadores e diplomatas do sudeste asiático, a tendência é clara: os norte-americanos estão perdendo influência.

À medida que a China aumenta a sua presença cultural e lingüística, Washington se retrai, cedendo um território que era praticamente seu monopólio na época em que a China estava aprisionada na dura casca comunista.

"Os chineses estão expandindo ativamente a sua diplomacia pública enquanto nós estamos reduzindo a nossa, ou mantendo-a no mesmo patamar", alerta Paul Blackburn, ex-funcionário do setor de assuntos públicos do Serviço de Informação dos Estados Unidos, que serviu em quatro embaixadas norte-americanas nos anos 80 e 90.

A Rádio China Internacional, com uma programação leve e notícias otimistas, atualmente transmite em inglês 24 horas por dia, enquanto a Voz da América transmite por apenas 19 horas, devendo em breve reduzir esse período para 14 horas, diz Blackburn.

O CCTV-9, o canal de televisão da China em língua inglesa, que exibe âncoras suaves e programas culturais e de entretenimento, transmite para todo o mundo. Os Estados Unidos podem ter a CNN International, mas no campo da política pública, os norte-americanos "não possuem nada comparável", diz Blackburn.

No sudeste da Ásia, centros norte-americanos administrados pelo Serviço de Informação do Departamento de Estado, que costumavam oferecer treinamento e serviços de biblioteca em língua inglesa, foram fechados e o corpo de funcionários reduzido como parte de um corte mundial de pessoal nos anos 90.

O impacto dessa iniciativa ainda está sendo sentido. Na Indonésia, o mais populoso país muçulmano do mundo, os três centros de informação dos Estados Unidos foram fechados. Um novo programa, "American Corners", fornece livros, computadores e bancos de dados a umas poucas bibliotecas universitárias indonésias, mas isso é algo que tem menos impacto, dizem diplomatas norte-americanos.

Enquanto Washington promove cortes, a China proporciona alternativas concretas. O presidente chinês e o chefe do Partido Comunista, Hu Jintao, deixaram clara a importância da ofensiva cultural da China para Pequim quando ele falou no ano passado no Parlamento Australiano.

"A cultura chinesa pertence não só aos chineses, mas a todo o mundo", disse ele. "Estamos prontos para aumentar o intercâmbio cultural com o resto do mundo em uma promoção conjunta de prosperidade cultural".

O convite está sendo aceito por um número crescente de estudantes asiáticos que tiram vantagem das oportunidades de educação superior na China, que se proliferam. Os pais dizem que as famílias asiáticas não ficam mais mortificadas quando os seus filhos não conseguem se qualificar para universidades norte-americanas de elite.

Uma vaga em uma universidade chinesa é vista como uma solução pragmática, ainda que a qualidade do ensino fique aquém da oferecida pelas principais universidades norte-americanas.

Na Malásia, estudantes que não conhecem a cultura chinesa estão se inscrevendo em massa em escolas primárias onde o chinês é ensinado, em uma reversão de uma tendência de mais de três décadas, diz N.C. Siew, editor do principal jornal em chinês do país, o "Sin Chew Daily".

Na Indonésia, a elite preferiu durante muito tempo as universidades norte-americanas. A geração original de tecnocratas do governo era chamada de "Máfia de Berkeley", porque grande parte de seus integrantes se formou no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia.

Atualmente, os números contam uma história surpreendente, especialmente na Indonésia, um aliado dos Estados Unidos cujas relações com a China são historicamente difíceis.

No ano passado, 2.563 estudantes indonésios receberam vistos para estudarem na China, segundo a Embaixada da China em Jacarta, o que significa um aumento de 51% em relação ao ano anterior.

Em comparação, somente 1.333 estudantes indonésios receberam visto para estudarem nos Estados Unidos em 2003, diz o cônsul-geral dos Estados Unidos em Jacarta. Isso representa uma queda vertiginosa em relação aos 6.250 vistos de estudante concedidos pelos Estados Unidos em 2000, em um fenômeno que é parte de um declínio mundial ocorrido após o 11 de setembro.

Embora vários educadores no sudeste da Ásia vejam com bons olhos a nova abertura para a China, até mesmo os amigos de longa data dos Estados Unidos dizem que a influência chinesa parece crescer às custas dos norte-americanos.

"Vocês estão perdendo terreno, não há como negar", diz o professor Tanun Anumanrajadhon, vice-presidente do departamento de assuntos internacionais da Universidade Chiang Mai. "A população local está falando da China e de economia. Atualmente o povo não se preocupa com democracia". Esta é uma das fases do projeto de tornar o país locomotiva mundial Danilo Fonseca

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