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18/11/2004

Eficiência e vínculo com Bush caracterizam Rice

The New York Times
Elisabeth Bumiller

Em Washington
O presidente Bush apresentou-a no Salão Roosevelt, na última terça-feira (16/11), como "o rosto dos EUA para o mundo", já conhecida de todos americanos e de grande parte do globo. Mas ainda há mistérios em torno de Condoleezza Rice, assessora de segurança nacional nomeada secretária de Estado para o segundo mandato. Segundo algumas autoridades, este será caracterizado pela diplomacia mais do que pelo confronto.

Será ela um falcão, como os que instaram Bush a invadir o Iraque? Ou será mais moderada, como seus mentores, o secretário de Estado Colin L. Powell e Brent Scowcroft, assessor de segurança nacional do pai de Bush?

Mais importante, será aliada do vice-presidente Dick Cheney? Ou seu contraponto?

As respostas, parcialmente obscurecidas da visão do público nos últimos quatro anos pelo segredo que cercava suas discussões com Bush, ajudarão a determinar a direção da política externa americana nos próximos quatro anos, dizem membros do governo.

Afinal, Rice, confidente presidencial que fundiu sua maneira de pensar com a de Bush, segundo seus amigos, terá poderes ainda maiores quando mudar seu escritório da Ala Oeste para a enorme suíte do Departamento de Estado, atualmente ocupada por Powell.

Uma chave para sua forma de pensar é 11 de setembro de 2001. Os amigos dizem que Rice, especialista em Rússia e na Guerra Fria, ficou transtornada com os ataques. Conservadora, convenceu-se de que estava participando em nada menos que a luta entre a modernidade e o fundamentalismo e, junto com Bush, adotou uma linha mais dura, dizem os amigos.

"Eles acreditam que 11 de setembro foi um toque de despertar e que certas coisas tinham que ser feitas --dolorosas, violentas, mas tinham que ser feitas", disse o amigo de Rice Coit Blacker, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Stanford e ex-especialista em Rússia do Conselho de Segurança Nacional do governo Clinton.

"Eles chacoalharam o tabuleiro", disse Blacker, "e agora ninguém duvida da habilidade dos EUA de assumirem riscos inimagináveis antes de 11 de setembro."

Rice sabe que seu sucesso no segundo mandato dependerá, em grande parte, da sua capacidade de recuperar as relações com os aliados, prejudicadas parcialmente por ela no primeiro mandato, disse ele. "Devemos perdoar os russos, ignorar os alemães e punir os franceses", teria dito Rice aos colegas na primavera de 2003, quando ela e Bush ficaram irritados com os aliados que não os havia acompanhado na guerra.

Segundo seus amigos, Rice acredita que agora é crítico buscar os aliados europeus. Apesar de ela ter dito frequentemente que não tem paciência para a diplomacia, é capaz de grande charme e passará muito tempo em Paris, Berlim e Londres, após sua confirmação no cargo, segundo seus amigos.

"Acho que será boa diplomata. Ela é hábil. E teremos uma secretária de Estado que os líderes estrangeiros saberão que fala pelo presidente", disse Samuel R. Berger, que foi assessor de segurança nacional do presidente Bill Clinton.

Em grande parte, isso acontece porque Bush e Rice passaram tanto tempo juntos nos últimos quatro anos, discutindo política externa em finais de semana no Camp David e em caminhadas longas pela fazenda do presidente. É difícil saber onde acaba um e o outro começa.

Apesar de Rice ter começado como tutora de política externa de Bush, durante a campanha de 2000, ela disse recentemente que ele a influencia tanto quanto ela o influencia.

"Este presidente tem uma âncora muito forte e um compasso marcando a direção da política externa. Não é apenas sobre o que é certo e o que é errado, mas sobre o que pode funcionar e o que não vai funcionar", disse Rice em uma longa entrevista há um ano. O presidente gosta de se concentrar "nesta questão de valores universais e liberdade" e depois de 11 de setembro, disse ela, "vi o valor disso."

Não era "minha orientação original", acrescentou. As autoridades também dizem que apesar de Rice defender a guerra no Iraque, suas opiniões não são sempre previsíveis e ela questiona o presidente em certas circunstâncias.

No Oriente Médio, dizem eles, ela endossou completamente a opinião do presidente e do subsecretário de defesa, Paul D. Wolfowitz, que a democracia é possível e que a disseminação da liberdade na região pode tornar as nações da região prósperas e pró-americanas. Ela dará alta prioridade às negociações entre israelenses e palestinos.

Membros do governo disseram que o relacionamento de Rice com Bush transferirá enorme poder de volta ao Departamento de Estado. Essa relação será similar ao laço que o secretário de Estado Henry A. Kissinger tinha com o presidente Richard M. Nixon.

"Condi não vai ser uma secretária de Estado normal", disse Blacker. "Não vai ser um Colin Powell, que tem que marcar hora para ver o presidente. Ela vai ter acesso contínuo a ele, e isso vai reorganizar todas as peças no tabuleiro da segurança nacional e política externa."

Os amigos dizem que a proximidade de Rice com o presidente torna improvável que ela entre em atrito com o secretário de defesa Donald H. Rumsfeld e Cheney, como fez Powell frequentemente. No entanto, não está claro, disseram, se vai se aliar com Cheney, que tem uma forte voz em política externa, ou se tornar cada vez mais independente. Muito dependerá, dizem eles, em quem será seu vice.

Cheney e Rumsfeld terão um aliado alto no Departamento de Estado se o escolhido for John R. Bolton, subsecretário de Estado para controle de armas e segurança internacional --falcão que tem laços íntimos com conservadores.

Trajetória

Rice, cujo pai era ministro religioso, cresceu em Birmingham, Alabama, em uma cidade segregada racialmente (o Estado é um dos mais reacionários do país).

Ela foi levada por seus pais a acreditar que tudo é possível na vida. Seus amigos dizem que tem mais do que suficiente firmeza e rigor para o cargo. Nem sempre é a pessoa mais diplomática da sala --ela mesma admitiu que brigou por 15 minutos sem parar com repórteres sobre artigos que a desagradaram.

"Ela tem disciplina", disse um amigo. "Para ela, a disciplina vence a paciência."

Toda sua vida --desde seu treinamento como pianista concertista e patinadora do gelo até sua participação na equipe do Conselho de Segurança Nacional de Bush e sua atuação como diretora da Universidade de Stanford-- foi instilada com essa disciplina.

Até hoje, Rice ainda leva seu almoço para o trabalho muitas dias, como forma de evitar os gastos e as calorias do refeitório da Casa Branca. Ela acorda às 5h para correr na esteira que mantém em seu apartamento espartano em Watergate; chega ao escritório antes das 7h e vai para a cama às 22h.

No entanto, Condoleezza consegue tirar tempo para a música, os esportes e os amigos. Solteira, celebrou seu 50º aniversário no último final de semana com uma festa surpresa de traje a rigor na residência do embaixador britânico.

Bush compareceu de fraque e passou uma rara noite formal em Washington. Rice, que chegou com roupas casuais, a caminho do que pensou que seria um jantar em um restaurante com os parentes, vestiu um vestido vermelho que o estilista Oscar de la Renta criou para a ocasião.

Aos domingos, Rice freqüentemente pratica com seu grupo de música de câmara para os consertos que ela gosta de fazer para os amigos. Seu compositor favorito é Brahms, fato significativo.

"Amo Brahms porque é estruturado", disse ela. "E é apaixonado sem ser sentimental. Não gosto de música sentimental, então tendo a não gostar de Liszt e não ligo muito para os românticos russos como Tchaikovsky e Rachmaninov. Com Brahms, as coisas são contidas e há uma tensão que nunca se resolve." Fiel ao presidente, nova secretária de Estado tem currículo brilhante Deborah Weinberg

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