UOL Notícias Internacional
 

18/11/2004

Saída de Powell sinaliza uma revolução de direita

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
Depois de subjugar a resistência em Fallujah, o presidente Bush agora está tentando fazer o mesmo com o Departamento de Estado e a CIA.

Colin Powell pode ter "renunciado", mas não se iluda --a Casa Branca não o queria mais. Na própria declaração de Powell está expresso que ele e Bush "chegamos ao acordo de que minha saída seria apropriada nesse momento".

O verdadeiro vencedor nessa verdadeira luta-livre no tatame da política externa é Dick Cheney. Um dos ex-assessores do vice-presidente, Stephen Hadley, agora será o assessor de segurança nacional, e Condoleezza Rice foi atropelada tantas vezes por Cheney no primeiro mandato que agora ela será dócil no Departamento de Estado.

Numa conversa com o secretário de política externa britânico Jack Straw, Powell chegou a se referir com frustração em relação a Cheney, Don Rumsfeld e Paul Wolfowitz, chamando-os de "malucos", de acordo com uma recente biografia britânica de Tony Blair. Powell tinha razão, mas "os malucos" estão rindo por último.

A questão central no segundo mandato de Bush é a seguinte: Será que ele vai tapear seus partidários da direita cristã, já que não precisa mais deles, e tentará assegurar seu legado com políticas moderadas que possam unir a nação? Ou será que, sem ter que se importar com a reeleição, ele irá buscar uma guinada revolucionária para a direita? Para mim, essa segunda opção parece estar cada vez mais próxima.

Muitos liberais ainda estão furiosos com Powell, por ele ter enganado o mundo sobre as armas de destruição de massa do Iraque em seu discurso na ONU. Muito justo. Mas esperem só seis meses, e eles estarão fervorosamente desejando Powell de volta. A realidade é que Powell era a voz da razão em discussões de política externa, e isso valia do Paquistão até a Venezuela. Sem ele, as relações externas teriam sido ainda mais catastróficas.

Na Coréia do Norte, no Iraque e na Europa, Powell era que nem o homem no circo que segue os elefantes, limpando os excrementos dos animais. Mas seu papel de maior utilidade no governo não foi propriamente a diplomacia sensível. Era sua vontade de discordar, de apresentar outro ponto de vista. Ele retrucava.

Condoleezza Rice é esperta, diligente e honesta, mas ela tem um histórico zero em termos de contra-ofensiva. E é disso que Bush precisa --alguém ao lado de Laura que o avise quando ele estiver para fazer algo de estúpido.

Ele precisa de muitos desses "alguéns" para alertá-lo na comunidade de inteligência, cujo papel crucial não é tanto o de roubar segredos no estrangeiro mas o de resistir a pressões políticas domésticas e poder apresentar análises que não sejam necessariamente bem-vindas. E isso periga não acontecer muito por agora, no momento em que rolam cabeças nos corredores da diretoria de operações da CIA.

É aceitável substituir Powell, que afinal era uma nomeação política. Mas os espiões que estão sendo afastados nos prédios de Langley são profissionais de carreira. Os melhores valores na comunidade de inteligência não são aqueles que espionam para os americanos nas capitais do mundo, mas sim os milhares de americanos que estão nos órgãos internos, na CIA, no DIA, no NSA e em todo o resto dessa verdadeira sopa de letras interna. O moral deles --que já era ruim-- irá ainda mais para o fundo, junto com a eficiência deles.

Então o que devemos esperar num segundo mandato?

  • Um aperto na Coréia do Norte

    Os falcões andam impacientes com o que eles consideram ser afagos à Coréia do Norte e, ao menos que aconteçam progressos em breve, haverá pressões para um endurecimento e para aplicação de sanções.

  • Um abraço apertado em Ariel Sharon

    Powell está fora, e não haverá ninguém no governo pressionando Bush para uma política mais equilibrada. Tony Blair irá tentar, mas ele está muito longe.

  • Um choque com o Irã

    Quando falhar o novo acordo do governo de Teerã com a Europa para a contenção dos programas nucleares iranianos, os Estados Unidos irão recomeçar as pressões para mudança do regime no Irã (ironicamente, é a pressão para mudanças de regimes no Irã e em Cuba que sustentam esses governos no poder).

    Aí então os Estados Unidos irão discutir se devem olhar para o outro lado, quando Israel lançar ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas.

  • Tremores em Darfur, no Sudão

    Powell viajou até Darfur, afirmando que o massacre por lá era um genocídio, e silenciosamente pressionou o governo americano para que alguma atitude fosse tomada. Gostaria que ele tivesse feito muito mais, mas de qualquer forma a Casa Branca foi apática nessa questão.

    Por falar em ânimo e apatia, um verdadeiro "teste de lítio" será saber se John Bolton, um genial falcão predador de "pombos" no departamento de Estado, será promovido a vice-secretário desse departamento. Para os liberais que andam considerando a possibilidade de se mudarem para a Nova Zelândia, a confirmação dessa possibilidade teria o efeito de um sinal para tomarem o rumo do aeroporto. Pobre de quem espera moderação no segundo mandato de Bush Marcelo Godoy
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