UOL Notícias Internacional
 

19/11/2004

EUA precisam curar feridas da eleição, diz Clinton

The New York Times
Maria Newman

Em Little Rock

No Arkansas
O ex-presidente Bill Clinton, acompanhado por milhares de convidados encharcados, permaneceu sob um guarda-chuva gotejante na quinta-feira e inaugurou oficialmente sua biblioteca presidencial em Little Rock, capital de seu Estado natal, o Arkansas, do qual foi governador por várias gestões.

"Bem-vindos à minha chuvosa inauguração da biblioteca", ele disse para a multidão inabalavelmente afável. Na platéia estavam uma série de astros dos mundos da política e do entretenimento, que todavia tiveram que se esconder sob uma cobertura colorida de guarda-chuvas e capas. Mas apesar do céu melancólico, Clinton estava radiante enquanto escutava as palavras de elogio do presidente Bush e do ex-presidente Jimmy Carter, que saudaram seu legado como 42º presidente. (O ex-presidente Gerald Ford, 91 anos, não pôde comparecer por motivos de saúde.)

Na sua vez, Clinton disse que espera que sua biblioteca presidencial permita que os visitantes venham por anos ver "não apenas o que fiz com minha vida, mas ver o que podem fazer com suas vidas, porque, em grande parte, esta é a história do que nós, o povo, podemos fazer quando trabalhamos juntos".

Dos quatro presidentes no palco, dois eram democratas e dois eram republicanos. Seus discursos às vezes apresentavam pequenas doses de humor, às vezes apresentavam um toque de nostalgia por seus anos no governo. Mas todos eles falaram do partidarismo na política e da necessidade de curar os rachas após a eleição presidencial de 2 de novembro, que revelou profundas divisões na nação.

Clinton disse que a certa altura, durante a mais recente campanha, ele se voltou para um amigo e perguntou: "Eu sou a única pessoa em todos os Estados Unidos da América que gosta tanto de George W. Bush quanto de John Kerry, que acredita que ambos são boas pessoas, que acredita que ambos amam nosso país e apenas vêem o mundo de forma diferente?"

Ele disse que os americanos precisam voltar à noção de que "nossas diferenças importam, mas nossa humanidade comum importa mais".

Era esperado o comparecimento de quase 30 mil pessoas ao evento, e apesar de não ter sido apresentada um levantamento oficial, a chuva quase certamente afugentou algumas pessoas. Mas aquelas que foram corajosas para enfrentar a garoa fria de outono estiveram entre as primeiras a passear pelo centro e tirar proveito da oportunidade para mergulhar no legado de oito anos de governo de Clinton, incluindo o escândalo que manchou parte de seu segundo mandato.

O Centro Presidencial William J. Clinton, a mais cara das bibliotecas presidenciais ao custo de US$ 165 milhões (cerca de R$ 450 milhões), fica abrigada em uma estrutura retangular de aço e vidro empoleirada sobre o Rio Arkansas. Chegou a ser criticada por alguns como um "double-wide" (dois trailers unidos para formar uma residência fixa) sobre estacas.

No seu interior, ela exibe dois milhões de fotos e 80 milhões de páginas de documentos, assim como uma réplica em tamanho real do Escritório Oval, exibições interativas e vários dos saxofones dados ao ex-presidente amante de blues.

Entre os convidados estavam Caroline Kennedy, a cantora Barbra Streisand e o ator Robin Williams, e entre os que se apresentaram estavam Edge e Bono do U2. Também estavam presentes John Kerry e sua esposa, Teresa, e o ex-vice-presidente de Clinton, Al Gore, e sua esposa, Tipper. De Israel, estavam presentes o ex-ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres, os filhos de Yitzhak Rabin, o ex-premiê Ehud Barak e o atual ministro das Relações Exteriores, Silvan Shalom.

Em seus comentários, o presidente Bush, seu pai e Carter, todos mencionaram a ascensão de Clinton de sua origem humilde até secretário da Justiça de Arkansas, depois ao governo estadual e finalmente à presidência, auxiliado por seus talentos para conversa, persuasão e liderança.

O presidente Bush contou que um colega da quarta série de Clinton tinha comentado que na escola, "ele não tinha a intenção, mas ele tomou conta do lugar".

"O presidente Bill Clinton liderou nosso país com otimismo e um grande afeto pelo povo americano", disse Bush, "e tal afeto foi retribuído".

Bush também disse que durante os dois mandatos de Clinton, o ex-presidente "aproveitou importantes oportunidades em questões que variaram do bem-estar social ao livre comércio", acrescentando que "em todas as suas ações e decisões, o povo americano sentiu uma profunda empatia pelos pobres e indefesos".

A biblioteca, disse o atual presidente, "é um presente para o futuro de um homem que sempre acreditou no futuro".

Os dois presidentes Bush chamaram Clinton de um "homem de compaixão". Bush pai, o 41º presidente, demonstrou certo afeto pelo homem que impediu sua reeleição e que recentemente fez campanha e aconselhou o senador John Kerry, o homem que tentou fazer com o filho o que Clinton fez com o pai.

"Sempre precisa ser dito que Bill Clinton foi uma das figuras políticas americanas mais talentosas dos tempos modernos", disse o ex-presidente Bush. "Confiem em mim --eu aprendi isto da forma mais difícil. E aqui em Arkansas, pode-se dizer que ele cresceu para se tornar o Sam Walton da política nacional de varejo."

Durante a campanha, disse Bush pai, seu oponente "apresentava uma naturalidade e fazia parecer tão fácil --e, oh, como eu o odiei por aquilo".

Mas Bush pai também disse que uma das "grandes bênçãos" de se tornar um ex-presidente é que "antigos adversários políticos têm a tendência de se tornarem amigos, e sinto que este é o caso entre o presidente Clinton e eu".

Ele disse que independente de suas posições políticas, ex-presidentes estão "eternamente ligados pela nossa dedicação e serviço comuns a este país maravilhoso".

Carter, que como George H.W. Bush perdeu sua disputa pela reeleição, em 1980, para a chapa Reagan-Bush, disse que Clinton foi "um líder que podia inspirar outras pessoas a irem além do que consideravam seus próprios limites para se juntarem a ele na realização de grandes metas".

Ele mencionou particularmente os esforços de Clinton para conceber um plano que pudesse promover uma paz duradoura no Oriente Médio.

Carter, que falou duramente contra o atual presidente Bush durante a campanha, especialmente contra a forma como ele está lidando com a guerra no Iraque, elogiou o ex-presidente Bush, dizendo que ele teve "uma carreira de serviço a este país que é quase inigualável na história --como soldado, legislador, diplomata, administrador, vice-presidente e presidente".

E Carter parabenizou o atual presidente por sua reeleição. Ele disse que ao final deste "ano político muito difícil --mais difícil para alguns de nós do que para outros-- é importante para o mudo ver dois democratas e dois republicanos reunidos, todos honrando a grande nação que nos permitiu servir".

A vasta biblioteca possui 14 recâmaras que detalham o governo de Clinton, incluindo o escândalo sexual envolvendo uma estagiária da Casa Branca que levou a um processo de impeachment pela Câmara e seu julgamento e absolvição pelo Senado. Tal capítulo de seu governo é coberto por uma recâmara dedicada à "política da perseguição".

O diretor da biblioteca, David Alsobrook, reconheceu as dificuldades para retratar tal período difícil e doloroso na vida do presidente. "Os simpatizantes dele dirão: 'Oh, por que você dedicou tanto espaço a isto?'" disse Alsobrook aos repórteres em uma visita especial antecipada, na quarta-feira. "Mas os detratores dele dirão: 'Dave, onde está o vestido azul?'"

Ponte para o futuro

Clinton, 58 anos, nascido e criado no Arkansas, ainda está se recuperando de uma cirurgia cardíaca realizada há dois meses.

Enquanto estava sentado com os outros na chuva, ele às vezes parecia satisfeito e humilde com os elogios, e às vezes parecia para os espectadores de televisão quase pálido, esfregando o rosto como se estivesse cansado.

Durante seus comentários, Clinton pediu ao presidente Bush para trabalhar arduamente para obter a paz no Oriente Médio.

"Eu espero que você consiga atravessar até a terra prometida da paz no Oriente Médio", disse ele. "Nós temos uma boa oportunidade, e estamos todos rezando por você."

E apesar da ocasião da inauguração da biblioteca ser uma chance para olhar para trás, alguns dos oradores não puderam deixar de apontar como o passado forma o presente.

Clinton falou sobre as dissensões que dividiram os Estados Unidos no que atualmente é popularmente chamado de Estados vermelhos (republicanos) e Estados azuis (democratas), mas aos quais ele se referiu como conservadores e progressistas.

"A América possui duas linhas dominantes de pensamento político", disse ele. "Nós estamos representados aqui neste palco: o conservadorismo, que em sua melhor forma traça as linhas que não devem ser ultrapassadas, e o progressismo, que em sua melhor forma rompe barreiras que não são mais necessárias ou que nunca deveriam ter sido erguidas."

Ele disse que foi muito dolorido para ele ver divisões profundas no país durante a campanha eleitoral, e que esperava que o público presente trabalhe para superar tais divisões.

"Eu lhes digo que podemos continuar construindo nossa ponte para o amanhã", disse ele. "Ela exigirá que alguns americanos vermelhos tracem limites e alguns americanos azuis rompam barreiras, mas nós podemos fazer isto juntos." Milhares participam de inauguração de sua Biblioteca Presidencial George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host