UOL Notícias Internacional
 

20/11/2004

China ameaça domínio dos EUA sobre os latinos

The New York Times
Larry Rohter

Em Santiago, Chile
A chegada nesta sexta-feira (19/11) ao Chile do presidente Bush, que personifica para os latino-americanos o poder político e econômico de Washington, está sendo recebida com uma mistura nervosa de protestos e esperanças de maior crescimento.

Mas apesar de os Estados Unidos ainda considerarem a região como seu quintal, seu domínio não é mais inquestionado. De repente, a presença da China pode ser sentida em toda parte, da Amazônia aos campos de mineração nos Andes.

Movida por uma das maiores expansões econômicas sustentadas da história, e diante de gargalos e escassezes na Ásia, a China está cada vez mais se voltando para a América do Sul como fornecedora. Ela está ocupada comprando quantidades imensas de minério de ferro, bauxita, soja, madeira, zinco e magnésio no Brasil. Está procurando estanho na Bolívia, petróleo na Venezuela e cobre aqui no Chile, onde no mês passado tirou dos Estados Unidos a posição de principal mercado para as exportações chilenas.

Apesar de Bush estar passando o fim de semana aqui para a conferência da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, o presidente da China, Hu Jintao, está aqui no meio de uma visita de duas semanas à Argentina, Brasil, Chile e Cuba. Durante ela, ele anunciou mais de US$ 30 bilhões em novos investimentos e assinou contratos de longo prazo que garantirão para a China o fornecimento de materiais vitais para suas fábricas.

Os Estados Unidos, preocupados com o agravamento da situação no Iraque, parecem ter dado pouca importância à ascensão da China na região. O aumento do comércio entre a América Latina e a China poderia até mesmo ser saudado como um meio de reduzir a pressão para os Estados Unidos apoiarem reformas econômicas, com as considerações geopolíticas empurradas para segundo plano.

"No lado diplomático, os chineses estão discretamente, mas persistentemente e eficazmente, operando abaixo do radar americano", disse Richard Feinberg, que foi conselheiro-chefe para América Latina no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Clinton. "A América do Sul está obviamente à deriva, e os flertes diplomáticos com a China tenderão a realçar potenciais divergência com Washington."

O investimento e as compras chinesas são consideradas vitais para economias carentes de capital e lutando para se erguer de uma longa recessão. Na Argentina, no início desta semana, por exemplo, Hu anunciou quase US$ 20 bilhões em novos investimentos em estradas de ferro, exploração de petróleo e gás, construção e satélites de comunicação, um enorme estímulo para um país cuja vitalidade econômica foi minada desde o colapso financeiro e o calote de dívida em dezembro de 2001.

A China também está se aventurando fora do reino econômico. Em março, por exemplo, após a minúscula ilha caribenha de Dominica ter rompido relações diplomáticas com Taiwan, Pequim respondeu com um pacote de ajuda de US$ 112 milhões, que inclui US$ 6 milhões em apoio direto ao orçamento neste ano e US$ 1 milhão anual para o orçamento pelos próximos seis anos. Em Antígua, ela prometeu US$ 23 milhões para a construção de um novo estádio de futebol.

As relações políticas parecem estar avançando mais rapidamente com o Brasil, a nação mais populosa da América Latina, onde o governo de esquerda tem exposto repetidamente nos últimos meses a idéia de uma "aliança estratégica" com Pequim.

O governo brasileiro deixou claro que considera laços mais estreitos com a China como um carta que pode ser jogada para compensar a influência e o domínio comercial americano. Apesar de não sugerir que a China poderá em breve substituir os Estados Unidos como principal cliente e parceiro do Brasil, a meta é forçar concessões comerciais e outras dos Estados Unidos e outros países industrializados.

"Nós queremos uma parceria que integre nossas economias e que sirva como um paradigma para a cooperação Sul-Sul", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante uma visita de Estado à China em maio, durante a qual ele esteve acompanhado por cerca de 500 empresários brasileiros. "Nós somos dois gigantes sem divergências históricas, políticas ou econômicas, livres apenas para pensar no futuro."

Maior parceiro do Brasil

Antes de sua visita, Lula até mesmo insinuou uma negociação de livre comércio com a China, um passo que o Chile anunciou nesta semana que dará. Mas o impacto da China no Brasil já é sentido tão fortemente que a idéia foi rapidamente engavetada, após grupos empresariais de São Paulo terem expressado o temor de serem sobrepujados pelas empresas estatais chinesas em seu próprio mercado doméstico.

Em 2003, a China se tornou o segundo maior parceiro comercial individual do Brasil, e nos últimos meses os chineses têm buscado joint ventures que expandirão o comércio ainda mais e lhes darão uma participação significativa nos investimentos locais. O Brasil é um dos poucos países que desfrutam de um superávit comercial com a China, e só no ano passado as exportações para a China quase dobraram, para US$ 4,5 bilhões.

"Nos últimos três ou quatro anos, o crescimento no comércio tem sido explosivo", disse Renato Amorim, um ex-diplomata na embaixada do Brasil em Pequim e atualmente o diretor executivo do Conselho Empresarial Brasil-China. "A China está tentando garantir fontes confiáveis de fornecimento de matéria-prima para lidar com as escassezes que enfrenta, e como não há conflitos na agenda política, o Brasil se encaixa perfeitamente."

Muitos dos minérios vêm de uma parte da Amazônia conhecida como Carajás, que possui as maiores e mais puras reservas de minério de ferro e outros minérios estratégicos do mundo. Em um complexo à boca do Amazonas, perto de Belém, que produz alumina, o pó branco que é refinado da bauxita para produção de alumínio, a produção em breve poderá dobrar, com grande parte dela provavelmente destinada à China ao longo da próxima década.

Descendo a costa, a Baosteel da China e a Companhia Vale do Rio Doce do Brasil, a maior produtora de minério de ferro do mundo, são parceiras em um empreendimento de aço de US$ 1,5 bilhão para produção de até 8 milhões de toneladas por ano. Enquanto isso, subindo o rio, em Manaus, as delegações chinesas estão ocupadas negociando acordos de longo prazo para obtenção de madeira. Ao Sul, no Mato Grosso, missões semelhantes estão tentando assegurar o fornecimento de soja e algodão.

O mesmo está acontecendo em toda parte, especialmente na agricultura. Por todo o interior sul-americano, da Amazônia aos pampas da Argentina, um boom no cultivo de soja, utilizada principalmente como ração animal, foi provocado nos últimos anos pela ascensão, a meio mundo de distância, de uma classe média chinesa com mais renda e desejo de consumir mais carne de porco, frango e carne bovina.

China também é rival

Preocupados com os avanços chineses, Japão e Coréia do Sul também estão aumentando seus esforços para assegurar sua própria obtenção de matéria-prima na região. O primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, visitou o Brasil em meados de setembro, e o presidente sul-coreano, Roh Moo-hyun, também agendou viagens à Argentina, Brasil e Chile, próximas das visitas chinesas.

"Em questão de poucos anos provavelmente haverá uma 'guerra' para desenvolvimento de matérias-primas", disse Park Yong-soo, presidente da estatal Korea Resources Corp., para a agência de notícias Reuters no mês passado. "A China está disputando agressivamente", ele acrescentou, provocando escassez de oferta e preços mais altos.

Os poucos analistas brasileiros que têm experiência em lidar com a China também têm pedido cautela ao seu governo. Simpatias ideológicas ou uma noção vaga de solidariedade do Terceiro Mundo, eles disseram, não devem interferir no interesse nacional.

Em busca de sua "parceria estratégica", Brasil e China desenvolveram em conjunto um programa de satélite, estão discutindo venda de urânio brasileiro para uso em reatores chineses, e marcaram recentemente a abertura de uma fábrica na China de propriedade da Embraer, a fabricante brasileira de aeronaves.

Mas está claro para a maioria dos especialistas brasileiros que a China vê o país deles principalmente como uma fonte de matéria-prima, e isto os incomoda. Muitos estão encorajando o governo a lutar por um relacionamento mais igual, levantando preocupações que vão desde fluxo comercial até danos ambientais.

"Até o momento, o discurso tem sido mais político do que pragmático, com toda esta conversa de aliança Sul-Sul", disse Eliana Cardoso, uma ex-economista do Banco Mundial para a China e atualmente uma professora universitária em São Paulo. Ela e outros alertam que apesar de Lula ter enfatizado que as economias brasileira e chinesa são basicamente complementares, a China também é uma rival.

Aproximação oportunista

Durante a visita de Hu na semana passada, o governo brasileiro concordou em reconhecer a China como uma "economia de mercado", um passo que tornará mais difícil impor penas à China pela prática de dumping nas exportações. A influente Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) criticou imediatamente a medida como uma "decisão política" que deixa a "indústria brasileira em posição vulnerável" e trará "conseqüências prejudiciais a vários setores industriais".

As empresas não estão apenas preocupadas com as incursões da China no mercado doméstico, mas também se preocupam com a exportação de produtos com os quais o Brasil tem tido certo sucesso no exterior, de calçados e brinquedos até produtos químicos e autopeças. "O Brasil tem que insistir que em vez de exportar matéria-prima, nós temos que exportar bens manufaturados", disse Cardoso.

Marcos Jank, economista e consultor da Fiesp, concordou. "A China a longo prazo pode roubar mercados do Brasil, porque a mão do Estado ainda é muito forte em muitas áreas, incluindo a taxa cambial", disse ele. "Ela é uma concorrente feroz nas coisas que exportamos, assim como na disputa por mercados e investimentos."

De fato, tanto investimento estrangeiro tem ido para a China que a América Latina tem encontrado dificuldade para obter o capital que necessita para financiar seu próprio crescimento.

Como resultado, o Brasil, assim como a vizinha Argentina, tem sido forçado a cortejar a Citic, a estatal China International Trust and Investment Corporation, na esperança de que pelo menos uma pequena parte dos estimados US$ 500 bilhões em reservas estrangeiras da China seja direcionada à região.

Até o momento, a China tem-se interessado principalmente em projetos de infra-estrutura que assegurarão um fluxo mais constante dos produtos que já compra do Brasil e da Argentina. Em particular, estradas de ferro, portos, estradas, gasodutos e outros projetos ligados à produção de energia estão sendo estudados. No início deste mês, uma delegação da Citic visitou dois locais para construção de hidrelétricas na Amazônia, que seriam essenciais para joint ventures de alumina e aço no Brasil.

Tais projetos têm levantado dúvidas quanto ao meio ambiente, especialmente na Amazônia. Grupos ambientais do Brasil olham para o péssimo retrospecto da China em projetos como a Usina de Três Gargantas e temem que os chineses possam ficar tentados a exportar seus problemas para o Brasil.

De fato, vários dos projetos que estão sendo considerados seriam altamente poluentes, enquanto outros seriam de energia intensiva e provavelmente causariam danos ao meio ambiente semelhantes aos que ocorreram em Três Gargantas. De preocupação especial são duas usinas que processariam carvão no Brasil, em parte para exportação para a China.

"Triste será se, no momento em que os chineses começam a se preocupar com o PIB verde, por aqui, nós sigamos nas velhas trilhas de nada avaliar por esse critério nas transações comerciais", escreveu neste mês o colunista Washington Novaes no jornal "O Estado de S.Paulo". O Brasil deve evitar cair na armadilha de ser um "grande fornecedor de commodities (...) sem compensação pelos altos custos ambientais e sociais" que acompanham tal papel, ele acrescentou.

Os analistas brasileiros concordam que adiante se encontram duras negociações sobre esta e uma série de questões. Apesar do relacionamento com a China ser inerentemente desigual, eles notam, o Brasil pode conseguir mais do que quer apenas evitando ser impetuoso e sendo tão pragmático e obstinado quanto os próprios chineses.

"Eles querem que o Brasil continue sendo um grande produtor de commodities para que possam regular preços, para deprimi-los nos mercados mundiais", disse Gilberto Dupas, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. "Para a China, qualquer aliança com o Brasil é eminentemente pragmática e oportunista, e muito mais tática do que estratégica." Governo esquerdista do Brasil facilita aproximação com os chineses George El Khouri Andolfato

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