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20/11/2004

Déficit dos EUA desvaloriza dólar, diz Greenspan

The New York Times
Mark Landler

Em Frankfurt, Alemanha
O presidente do Fed (Federal Reserve - o banco central dos EUA) Alan Greenspan veio à terra do euro nesta sexta-feira (19/11) e disse aos europeus ansiosos que não alimentem muitas esperanças quanto à reversão do declínio ininterrupto do dólar em relação à moeda européia.

Em um discurso em um congresso bancário europeu, Greenspan disse que o persistente déficit elevado de conta-corrente dos Estados Unidos representa um risco ao valor do dólar, já que os investidores estrangeiros acabariam resistindo a comprar mais passivos norte-americanos.

"Parece lógico que, dado o tamanho do déficit de conta-corrente dos Estados Unidos, em algum momento haja uma diminuição do apetite pelos acréscimos aos balanços em dólares", disse ele. "Mas quando, por meio de que canais, e a partir de que valor do dólar? Infelizmente, nenhuma das respostas a essas questões é convincente".

Greenspan comparou a previsão da rota seguida pelo dólar à "adivinhação de um jogo de cara ou coroa". Mas as implicações do discurso ficaram claras para essa audiência de banqueiros europeus, que riram nervosamente ante a metáfora do presidente do Fed: o dólar, que caiu para patamares recordes em relação ao euro nesta semana --provocando calafrios em políticos e empresários europeus-- deve despencar ainda mais.

Os cambistas reagiram rapidamente, jogando o valor do dólar a um recorde de baixa em relação ao euro e ao patamar mais baixo em quatro anos e meio em relação ao iene japonês. O euro foi cotado a US$ 1,3019 no mercado de Nova York na tarde da sexta-feira, contra US$ 1,2968 do final da quinta-feira. O dólar foi também vendido na sexta-feira a 103,08 ienes, em relação aos 104,09 ienes do dia anterior.

Os comentários de Greenspan ocorreram dois dias após o secretário do Tesouro, John W. Snow, ter aparentemente descartado ajudar o Banco Central Europeu ou qualquer outro banco central a conter a queda do dólar. Falando em Londres, Snow incentivou os líderes europeus a resolverem os seus problemas econômicos internos.

Tomados juntos, os dois discursos consistiram em uma mensagem inequívoca de que o governo Bush, do alto da sua reeleição, está preparado para tolerar um dólar mais fraco para o futuro previsível.

Isso poderia agravar as tensões entre Estados Unidos e Europa, que está cada vez mais preocupada com a possibilidade de que o aumento do Euro esteja estrangulando a sua tênue recuperação. Na França e na Alemanha, o crescimento econômico no terceiro trimestre caiu para 0,1%, conforme diminuíram as exportações desses países.

Os líderes europeus estão alarmados. O ministro alemão da Economia, Wolfgang Clement, pediu aos Estados Unidos, à Europa e à Ásia que adotassem uma ação coordenada para conter a queda do dólar. O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, chamou as mudanças das taxas de câmbio de "brutais".

Trichet, que se deslocou alguns quarteirões a partir da sede do Banco Central Europeu a fim de comparecer à mesma reunião em que Greenspan se fez presente, se negou a repetir tal afirmação.

Os presidentes dos dois bancos centrais foram até Berlim para um encontro do Grupo dos 20, que inclui o grupo dos sete países mais industrializados, assim como os países economicamente emergentes.

A queda vertiginosa do dólar deverá ser um dos principais tópicos da agenda, mas existe pouca esperança de que haja uma resposta conjunta. Os analistas dizem que o discurso de Greenspan deixou claro que o Fed não se empenhará em influenciar o processo, seja por meio da elevação mais acentuada do que o planejado das taxas de juros, seja pela intervenção no mercado cambial.

"Foi uma mensagem do tipo 'ou isso ou aquilo'", diz Thomas Mayer, economista do Deutsche Bank. "Ou o atual déficit de conta-corrente diminui, ou o mercado fará com que ele diminua, mas a um custo para o dólar. Será que o Fed desempenhará um papel desses? Provavelmente não. Ele vai se restringir às suas atribuições".

Falando em uma conferência que também incluiu o vice-presidente do Banco do Japão, Kazumasa Iwata, Greenspan dedicou grande parte das suas observações ao efeito da política fiscal norte-americana sobre os mercados globais.

"Os atuais desequilíbrios de conta, por si, não precisam ser um problema", disse ele, em um discurso caracteristicamente técnico. "Mas os déficits cumulativos, que resultam em um declínio acentuado da posição de um país na escala internacional --como ocorre com os Estados Unidos-- geram questões mais complicadas".

Greenspan disse que os investidores estrangeiros, que financiam o déficit norte-americano ao comprarem títulos do Tesouro e outros ativos em dólar, acabarão relutando em adquirir mais desses ativos.

"Essa situação sugere que os investidores internacionais acabarão ajustando a sua acumulação de ativos em dólares, ou, alternativamente, procurarão obter maiores retornos em dólares para compensarem o risco concentrado", disse ele.

Conforme disse no inverno passado, Greenspan afirmou nesta sexta que, para ele, o remédio preferido seria que o governo Bush reduzisse a conta-corrente e os déficits orçamentários. Isso encorajaria a poupança popular nos Estados Unidos, que também se encontra em patamares extraordinariamente baixos.

Mas os analistas não interpretaram os comentários feitos por Greenspan como uma repreensão à Casa Branca, que indicou que procurará tornar permanentes os profundos cortes fiscais promovidos no primeiro mandato. Segundo eles, o discurso do presidente do Fed teve um tom de "laissez faire" - deixando os acontecimentos por conta do livre mercado.

Isso não trouxe conforto a muitos europeus, que acreditam que a sua moeda está absorvendo o grosso da pressão de um dólar em queda, já que o Japão e outras nações asiáticas intervieram agressivamente no mercado para impedir que suas moedas se valorizassem em relação ao dólar.

Greenspan discordou dessas medidas, afirmando que, baseado na sua revisão de estatísticas recentes, as intervenções "muito grandes" de bancos centrais asiáticos tiveram um efeito apenas "moderado" sobre as taxas de câmbio.

De sua parte, Trichet pareceu determinado a não falar mais nada sobre os perigos de um euro em processo de valorização. Descrevendo o seu comentário anterior sobre o assunto como "poesia", ele evitou as questões sobre as taxas de câmbio.

Mayer, do Deutsche Bank, disse que o silêncio de Trichet sugere que os seus esforços anteriores para tentar resolver a questão do câmbio não surtiram efeito. "Eles estão percebendo que podem fazer muito pouco quanto ao problema", afirmou. "Eles não estão em condições de modificar a política de taxas de juros para alterar a situação".

Até mesmo Greenspan, que foi bem recebido como um astro de rock nesta cidade financeira, pareceu ter perdoado um pouco o euro. Quanto lhe perguntaram como achava que a moeda vem se saindo no decorrer da sua curta história, ele disse: "Surpreendentemente bem". Conseqüência é dificuldade de europeus para exportar a produção Danilo Fonseca

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