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20/11/2004

Drag é a femme fatale do ótimo "Má Educação"

The New York Times
Stephen Holden

Crítico do NYTimes
Pedro Almodóvar já brincou com filme noir antes, de forma mais memorável em seu trabalho de 1997, "Carne Trêmula". Mas seu mais novo filme, "Má Educação", é uma imersão delirante, arrojada, e uma reinvenção de um estilo que tem atraído inúmeros cineastas até suas águas traiçoeiras.

Como vivemos em uma era descarada, este gênero --sinônimo de segredos, sombras e tramas cheias de reviravoltas que apontam para o abismo- freqüentemente parece forçado quando suas convenções são recicladas em nosso ambiente de tablóide "escancara tudo".

"Má Educação" foi exibido como parte do Festival de Cinema de Nova York em outubro. O filme, em espanhol com legendas em inglês, estreou nesta sexta-feira (19/11) em Manhattan.

Mas Almodóvar, diferente de cineastas que perdem seu rumo, entende plenamente o grau em que o filme noir é sinônimo de fantasia e um anseio primário pelo proibido. Ele acredita nas paixões beirando a obsessão que movem os filmes noirs. Qualquer filme que se recuse a fornecer tal carga emocional, ele também sabe, é apenas uma casca vazia, independente de quão esperta seja sua construção.

Um filme noir bem-sucedido é um ato de sedução, no qual narrativa, música e imagens nos levam a imaginar um mundo sombrio de infinita tentação e corrupção. Tradicionalmente, a sereia que nos atrai para as águas perigosas é uma femme fatale intoxicante tão cruel quanto irresistível.

O golpe de misericórdia de "Má Educação", que ricocheteia entre 1964 e 1980, com um final situado em grande parte em 1977, é que aqui a femme fatale é um transexual pré-operatório predador chamado Ignacio. Antes um belo menino soprano, ele/ela foi abusado por um padre, Manolo (Daniel Giménez Cacho), o diretor de sua escola católica para meninos. O padre ficou tão intoxicado por ele que expulsou o namorado de Ignacio, Enrique (Raúl García Forneiro), após pegar os dois escondidos no chuveiro. Ou pelo menos esta é a versão de Ignacio para a história.

O Ignacio adulto é interpretado por dois atores, Gael García Bernal (descontente e de olhar inocente) e Francisco Boira (lupino e feroz). À medida que o filme se aprofunda e as múltiplas e equivocadas identidades dos personagens se acumulam, e o padre volta do passado em um novo aspecto, desesperado.

"Má Educação" evoca "Um Corpo que Cai" de Alfred Hitchcock, com sua confusão de fantasia e realidade. "Má Educação" é enriquecido ainda mais pela noção de diferentes versões da mesma história sujeitas a modificação, primeiro como literatura, depois à medida que o filme se desenrola pela imaginação de diferentes personagens. Apenas no final alguns, mas não todos, fatos são revelados.

Como a figura de Ignacio é sexualmente ambígua no nível mais fundamental, você não sente a falta de uma importante personagem feminina em "Má Educação". A atração e repulsa exercida pelos dois Ignacios dão ao filme todo a tensão e calor sinistros que você poderia esperar. Bernal, que interpreta três papéis entrelaçados, é um camaleão dramático transcendente alternando três faces: ator ambicioso, drag sedutora e uma prostituta cruel.

O filme começa em 1980, quando Ignacio se materializa do passado à porta de Enrique (Fele Martínez), agora um cineasta bem-sucedido de 27 anos tão desesperado por idéias para histórias que passou a revirar os tablóides.

Ele não via Ignacio desde que estavam na escola, 16 anos antes. Ignacio, agora um ator barbado, trouxe um manuscrito de uma história, "A Visita", que ele espera que Enrique adapte em filme. Enrique fica empolgado com "A Visita", que reconta a história do relacionamento deles e do abuso sexual sofrido por Ignacio pelo padre Manolo. Enquanto Enrique devora a história, nós vemos cenas de um filme em sua imaginação.

Mas no momento em que Ignacio aparece, algo parece errado. Mesmo após a volta do visitante com a barba raspada, ele ainda não se parece com a pessoa da qual Enrique se lembra. Ele também insiste em ser chamado de Angel. Quando Enrique concorda em fazer o filme, Ignacio exige interpretar o papel de Zahara, uma prostituta transexual de "A Visita" que se passa por irmã de Ignacio para chantagear o padre Manolo com a história do irmão.

Almodóvar admitiu que "Má Educação" tem um componente autobiográfico distante. Mas o filme não é restrito por qualquer necessidade de parecer realista. O mundo cinematográfico de Almodóvar sempre foi um lugar governado por um desejo imenso e pela fantasia arrojada. É um universo em que muitos de nós imaginam que poderíamos habitar caso chutássemos todas as restrições sociais e psicológicas e agíssemos segundo nossas mais loucas fantasias. O mundo de sonho do filme noir é adequado ao diretor porque é superaquecido de forma semelhante, mesmo que de forma mais agourenta.

"Má Educação" é uma experiência voluptuosa que convida você a se fartar de sua beleza e vitalidade, apesar de talvez ter o final mais sombrio de qualquer um dos filmes do diretor e roteirista espanhol. Um ingrediente crucial de ligação é a trilha-sonora de Alberto Iglesias, que sugere Bernard Herrmann modulado em guitarra flamenca. Nenhum compositor vivo compõe música para filme mais romanticamente expressiva.

O que distingue a abordagem de Almodóvar ao filme noir é sua recusa em moralizar e sua disposição de incorporar elementos de comédia. Um mestre em contar histórias e humanista, ele não fará o julgamento final de seus personagens não importa quão terrível seja o comportamento deles.

Em vez de circundar avidamente "o horror, o horror", para citar Joseph Conrad, "Má Educação" contempla o deslumbramento da narrativa em si e o instinto humano para enfeitar a realidade para tornar as histórias que contamos mais reais e conclusivas, mesmo que menos rigidamente factuais.

Este pode ser o paradoxo fundamental de todos os grandes filmes. Eles nos transportam para um universo de ficção que parece mais real do que aquele em que habitamos. Os filmes de Almodóvar em particular insistem que as histórias, as histórias dentro das histórias e as fantasias que elas cristalizam são as melhores ferramentas (e talvez as únicas) à nossa disposição para compreender tudo.

A censura de "Má Educação" é NC-17 (é proibida a entrada de menores de 17 anos) devido a uma cena envolvendo sexo oral.

Má Educação

Escrito (em espanhol, com legendas) e dirigido por Pedro Almodóvar; diretor de fotografia, José Luis Alcaine; montagem de José Salcedo; música de Alberto Iglesias; direção de arte, Antxón Gómez; produzido por Agustín Almodóvar; distribuição da Sony Pictures Classics. Duração: 110 minutos.

Elenco: Gael García Bernal (Angel/Juan/Zahara), Fele Martínez (Enrique Goded), Javier Cámara (Paquito), Daniel Giménez Cacho (padre Manolo), Lluís Homar (sr. Berenguer), Francisco Boira (Ignacio), Francisco Maestre (padre José), Juan Fernandez (Martin), Ignacio Pérez (Ignacio quando criança), Raúl García Forneiro (Enrique quando criança), Alberto Ferreiro (Enrique Serrano), Petra Martínez (mãe de Ignacio), Sandra (Nancy Doll) e Roberto Hoyas (barman). Almodóvar constrói fantasia que parece mais real que a realidade George El Khouri Andolfato

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