UOL Notícias Internacional
 

20/11/2004

Governo Bush parece gangue de adolescentes

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
Colin Powell, que incitou o presidente a pensar mais profundamente sobre as conseqüências da invasão do Iraque, está tomando o rumo de casa. E Condoleezza Rice, que levianamente disse aos americanos que "não queremos ver a fumaça de um revólver se transformar numa nuvem de cogumelos", está sendo conduzida ao lugar que era de Powell.

O critério da competência nunca foi lá muito considerado pelos fantasiosos integrantes do governo de George W. Bush. No círculo de Bush, lealdade é tudo, que nem acontece numa dessas gangues de adolescentes. A grande diferença, claro, é que o governo é muito mais perigoso que qualquer gangue.

A história irá mostrar que a turma de incompetentes de Bush trouxe uma incrível quantidade de sofrimento a um bando enorme de gente. É tanto sangue derramado que chega a ser doentio, e é tanta dor que parece não ter fim.

Ironicamente, Condoleeza Rice parecia ser um exemplo de competência. Era considerada uma charmosa ex-diretora da Universidade de Stanford, especialista em assuntos soviéticos e do leste europeu, além de ter talentos como pianista, patinadora no gelo e jogadora de tênis. Foi mentora do então candidato à presidência George W. Bush em assuntos de política externa.

Ela era uma supermulher, difícil existir um currículo melhor. Condoleeza e Bush construíram uma relação notável, e ele fez dela sua assessora de segurança nacional. Aí residiu o problema. Porque todas as evidências indicam que ela não foi muito bem no trabalho.

O território de Condoleeza foi uma espécie de filtro por onde várias inteligências ineptas e deformadas abriram seu caminho até o presidente e o povo americano. Ou ela acreditava mesmo na bobagem que alardeava sobre nuens de cogumelo atômico, ou deliberadamente errou o caminho para o presidente e toda a nação em assuntos que viriam a provocar a morte de milhares de pessoas.

Um amigo próximo de Condoleeza e funcionário do Departamento de Estado, Richard Armitage, analisou o desempenho dela com desprezo. Em seu livro "Plan of Attack" (Plano de Ataque), o jornalista Bob Woodward conta que Armitage "acredita que o sistema gerador de política externa supostamente coordenado por Rice esteve essencialmente desajustado".

Em outubro de 2003, o presidente, frustrado pelos contratempos no Iraque, convocou a assessora para tomar conta do seu Grupo de Estabilização do Iraque, o que atribuiu a Condoleeza a responsabilidade de supervisionar o esforço de abafar a violência e de começar a reconstrução do Iraque.

Podemos observar pelas últimas manchetes qual foi o resultado desse trabalho dela. Um mentor crucial para Condoleeza foi Brent Scowcroft, assessor de segurança nacional para o primeiro presidente Bush. Foi ele quem a indicou para o Conselho de Segurança Nacional, em 1989.

Condoleeza Rice e toda a nação teriam se beneficiado se ela tivesse-se aconselhado com Scowcroft, e levasse em conta o que ele pensa sobre o Iraque. A opinião de Scowcroft, amplamente expressa antes da guerra, era de que os Estados Unidos deveriam ter extrema cautela. Ele não acreditava que a invasão planejada era sábia ou necessária. Num artigo no "The Wall Street Journal" em agosto de 2002, ele escreveu:

"Há provas incipientes ligando Saddam às organizações terroristas, e ainda menos provas ligando o iraquiano aos ataques de 11 de setembro. Na verdade, os objetivos de Saddam têm pouco a ver com os objetivos dos terroristas que nos ameaçam, e ele nem tem tanto incentivo assim para defender com eles a mesma causa".

Condoleeza mostrou tão pouco interesse na opinião de Scowcroft quanto George W. Bush na opinião do próprio pai dele. (Quando Bob Woodward perguntou a Bush se ele havia consultado o ex-presidente sobre a decisão de invadir o Iraque, ele retrucou: "Tenho um pai superior a quem eu apelo").

Enquanto observo as conseqüências desastrosas do desdobramento das políticas de Bush --não apenas no Iraque, mas também aqui em casa-- fico pasmo com a imaturidade desse governo, quaisquer que sejam as idades das autoridades envolvidas.

É como se as crianças tivessem assumido o poder e mandado os adultos para longe de casa. E esse conselho de mentes mais espertas, como as de Bush-pai, Brent Scowcroft ou Colin Powell, simplesmente não é considerado necessário nem bem-vindo pelo governo.

Algumas das decisões mais importantes do mundo --muitas vezes decisões de vida e de morte-- foram deixadas para aqueles que são menos competentes e menos experientes, para homens e mulheres que são deficientes em qualidades tais como percepção de risco e conhecimento de conseqüências futuras, pessoas que são suscetíveis, de maneira descuidada e perigosa, ao pensamento "mágico" e à pressão ideológica de seus colegas.

Eu vejo essa catástrofe no Iraque, essa bagunça fiscal aqui no país, a maneira como a lealdade supera a competência nos mais altos escalões do governo, vejo também a ausência de uma visão coerente sobre o futuro para os Estados Unidos, e só fico imaginando, com um senso de profunda tristeza, onde os adultos foram parar. No alto escalão, lealdade ao chefe vale mais do que a competência Marcelo Godoy

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