UOL Notícias Internacional
 

22/11/2004

Séries "CSI" são mórbido elogio à racionalidade

The New York Times
Charles McGrath

Em Nova York
Como alguns vírus de rápida mutação, há um tipo diferente de detetive na televisão se espalhando pelo horário nobre da televisão americana. É o cientista forense de jaleco branco, com luvas de borracha, de lanterna e com as provas do crime nas mãos, e até colecionando cotonetes.

Primeiro foi o frio e impassível Gil Grissom no "CSI" original, que estreou nos Estados Unidos em outubro de 2000 (atualmente exibido no Brasil às quartas, 20h no canal pago Sony). Dois anos depois, Grissom ganhou uma versão mais rude e hiperativa, no personagem Horatio Caine de "CSI: Miami" (no Brasil às terças, 21h no Sony). Agora o padrão Horatio Caine foi refinado, resultando no elegante e misterioso Mack Taylor da série "CSI: Nova York". (CSI é a abreviatura de Crime Scene Investigation --Investigação da Cena do Crime).

As três series são diferentes entre si, mas compartilham o mesmo DNA: no fundo, são como ratos de laboratório. Eles resolvem crimes, mas não na maneira antiga, se aproximando de suspeitos, checando com informantes e extraindo confissões antes que os larápios se safem com advogados. Os novos investigadores gastam muito mais tempo no necrotério, investigando cadáveres, ou então ficam checando impressões digitais e retalhos soltos.

Eles estão sempre usando o spray Luminol e óculos especiais coloridos, que os capacitam a enxergar, num pedaço de carpete ou num chumaço de cabelo, algo que a polícia comum não conseguiu captar. E os investigadores dominam o éter das transmissões da TV de uma forma que outros teledetetives não alcançaram: as três séries dominam a audiência americana em seus respectivos horários, com seus homens esquisitões, sinistros e obcecados por fibras.

Há algo de cult nos investigadores de CSI. Eles veneram o racionalismo de uma forma que produz resultados, mas de um jeito que não é exatamente saudável. Em relação aos três chefes de investigação, e em Grissom especialmente, há uma característica típica de Sherlock Holmes --uma dose de arrogância e um tipo de brilho intuitivo que não depende apenas do método científico, mas também de súbitos lampejos ou insights derivados, talvez, de uma pouco natural compreensão da mente do criminoso. E, como Holmes, todos os três chefes são seres solitários, meio desajustados.

Mesmo pelos padrões limitantes dos procedimentos típicos do gênero, onde sempre em primeiro lugar os casos são apresentados e depois é que surgem esparsamente os detalhes sobre as pessoas envolvidas, se é que surgem mesmo explicações, esses personagens não têm muita vida própria para contar; na verdade, a interação humana os deixa levemente inseguros.

Todas as três séries adoram o aspecto dramático e "mágico de cartola" do trabalho laboratorial, e cada uma delas é pontuada por assustadores closes em câmera lenta de vestígios de DNA espalhados, ou de microorganismos penetrando na corrente sanguínea ou de projéteis entrando pelo tecido cerebral. E os programas implicitamente acreditam na filosofia do Dr. Frankenstein, também apreciada pelos estudantes mais esforçados das aulas de química no ensino médio: para tirar as melhores notas você deve ser assim... meio estranho.

Anthony Zuicker, que foi o criador da formula "CSI", teve a idéia ao assistir a um programa sobre detetives forenses no Discovery Channel. Na época ele trabalhava como operador de um bonde elétrico, na rota entre os hotéis Mirage e Treasure Island em Las Vegas, e pesquisou para a primeira série conversando muito com Daniel Holstein, que na vida real é um conceituado analista de cenas dos crimes.

Holstein também foi colega de escola de Zuicker, que recentemente declarou que o amigo é conhecido por três motivos: é fenomenal ao adivinhar resultados de vencedores no futebol americano, têm um fascínio por larvas e vermes, e está sempre pedindo amostras de sangue às pessoas que encontra.

Grissom, que numa das primeiras sinopses do primeiro programa era descrito como uma mistura do "apresentador infantil Mr. Rogers com Bill Gates, mas com a inteligência de Albert Einstein", teve mantidas na composição do personagem duas das características de Daniel Holstein --só não é interessado em esportes.

Algumas de suas outras características foram emprestadas pelo ator que o interpreta, William Petersen, que de forma absoluta se apropriou de Grissom.

Carol Mendelsohn, que junto com Zuicker e Ann Donohue administra a franquia "CSI", diz que foi Petersen quem insistiu em fazer de Grissom um sujeito de empatia, mas reservado, bom ouvinte e nem sempre com a idéia certa na mente.

E presumivelmente é o ator William Petersen quem é o maior responsável pelo distanciamento de Grissom e pela peculiaridade de seu foco, embora nem tanto em relação ao flerte frívolo que teve na temporada passada com Lady Heather, uma dominatrix de respiração pesada.

"Grissom é um Hannibal canalizado para outra direção", disse Petersen na edição de março da revista Playboy, querendo dizer que sob outras circunstâncias ele seria um assassino serial como Hannibal Lecter.

CSI Miami

O mesmo se aplica ao personagem de Horatio Caine na versão Miami; o interesse que ele tem na resolução dos crimes é ao mesmo tempo tão passional e tão cínico --sempre esperando o pior de cada um-- que às vezes ele parece ligeiramente perturbado.

Ainda é cedo para falar sobre o novo cara em Nova York, Mack Taylor. Afinal das contas, ele parece muito bom e de natureza doce para ser, como os outros, o reverso de um monstro e criminoso; por outro lado, assim como Grissom e Caine, ele adora ficar pelo necrotério. Esses caras adoram cadáveres, especialmente os que têm perfurações ou marcas profundas de lividez (descoloração da pele pós-morte, devido à interrupção do fluxo sanguíneo).

Os três programas manifestam um interesse, e até mesmo uma reverência, pelos mortos que é pouco habitual na televisão, em que a descoberta de um corpo tipicamente apenas serve de ponto de largada. Nas series "CSI", descobrir o que causou a morte e de que forma ela aconteceu --explicando a história da vítima, por assim dizer, e depois a colocando de lado-- tipicamente é mais importante que descobrir quem foi o responsável.

Assim que David Caruso foi contratado para viver o protagonista de "CSI:
Miami", ficou claro que Horatio Caine, com seus ternos e óculos escuros,
seria mais magnético que Grissom. "Dá para sentir bem a energia cinética
dele", diz a produtora Ann Donohue sobre Caruso, e os espectadores podem
reconhecer algo daquela intensidade toda de Caruso dos tempos de "NYPD
Blue".

Horatio Caine na verdade é um personagem de estilo noir --"um cínico que se emociona", na visão de Ann Donohue-- que teria tanto a ver com Philip Marlowe (detetive criado pelo escritor Raymond Chandler, clássico da literatura policial) como com Einstein ou Sherlock Holmes.

As investigações dele freqüentemente tomam o rumo da urgência moral, quando ele tira os óculos escuros e diz: "Há algo de errado por aqui". E ele age tanto por intuição como construindo hipóteses.

Muito mais que o restante da equipe da "CSI", Horatio assume o dever de dar as más notícias e de confortar os amigos e familiares das vítimas. Como exemplo, num episódio exibido no mês passado, ele lamentou publicamente a morte de um investigador bem esperto, Tim Speedle, um favorito do público --algo que o espectador suspeita que Grissom faria apenas sozinho, entre quatro paredes. Não sabemos muito sobre o passado de Horatio, mas ele poderia perfeitamente ter nascido numa família do ramo funerário.

Gary Sinise

E sobre o novo investigador Mack Taylor, de "CSI: Nova York", que Zuicker considera uma "composição em andamento", ainda não sabemos muita coisa-- só que ele veio da Marinha, que perdeu a esposa nos atentados de 11 de setembro e que é um insone notório --"O que é dormir?", ele disse no primeiro episódio da versão Nova York.

Taylor é tão noturno, passando muito tempo em cenas tão sub-iluminadas que parecem praticamente em preto e branco, que na verdade o programa de vez em quando assume tons vampirescos.

Por outro lado, Gary Sinise, intérprete de Taylor, é de longe o melhor e mais sutil ator entre os três chefes de investigação dos três "CSI". Embora permaneça impassível, como manda o clássico figurino "CSI", ele na verdade consegue registrar uma ampla gama de emoções. Até aqui vem sendo o oposto do detetive noir; é meio mestre e quase um cavaleiro medieval --o que talvez seja uma maneira de dizer que ele é um herói noir que ainda não foi suficientemente derrubado e amargurado pela vida.

Mais que os outros, quando Taylor olha pelo microscópio, ele tem uma expressão de prazer e às vezes até de encantamento pela atividade. O trabalho ainda é recente para Taylor, dá para sentir isso, e até mesmo a melancolia dele tem uma espécie de frescor.

Taylor também tem o sistema computadorizado mais moderno, entre todos os investigadores de "CSI". No primeiro episódio, foi esse sistema que o capacitou a visualizar a cena de um crime a partir de uma foto instantânea, mais tarde conseguindo extrair uma rápida visão de um suspeito por meio do reflexo dos óculos de um agiota.

O que pode acontecer nos episódios das series "CSI" freqüentemente vai além da capacidade dos investigadores forenses da vida real, que na verdade trabalham num ritmo lento e aflitivo, freqüentemente sem chegar a uma conclusão. Os laboratórios nos necrotérios foram higienizados (os cadáveres não cheiram) e glamurizados, e esse estranhamento e o glamour do ambiente meio que contaminaram as pessoas que trabalham por lá.

Há algo de orwelliano neles, na verdade. Enquanto detetives da velha escola como Andy Sipowicz de "NYPD Blue" e Joe Fontana (o novo personagem de Dennis Farina em "Law & Order") são meio parecidos com a gente, talvez um pouco piores, essa nova fornada de detetives não parece ser desse mundo. São mais espertos que a gente, e de uma forma meio desagradável, um tanto assustadores. Investigadores eficientes mostram estranha obsessão pelos crimes Marcelo Godoy

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