UOL Notícias Internacional
 

23/11/2004

Democratas viraram donas de casa desesperadas

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
Em Washington
Eles estão fragilizados e desgastados, deprimidos e inseguros. Aprisionados na sua jarra azul, os democratas são as donas de casa desesperadas da política (como as da série "Desperate Housewives").

A imagem dos republicanos de partido-do-papai, e a dos democratas de partido-da-mamãe retornou espetacularmente em 2004, com um peitudo presidente Bush e o vice Dick Cheney prevalecendo ao convencerem os eleitores de que seriam capazes de proteger os Estados Unidos dos terroristas ferozes e gays afetuosos de forma mais eficaz do que o brâmane que eles pintaram como um maricas.

Em política, assim como na TV, a correção política está fora de moda e o passado está com tudo. A disposição de Hillary a ser presidente de repente parece mais duvidosa, e o grupo de novos senadores eleitos tem o aspecto de uma regressão --meia-dúzia de republicanos brancos conservadores no centro do palco.

Na conferência dos governadores republicanos em Nova Orleans, Ken Mehlman, o gerente da campanha de Bush, respondeu à pergunta, "Quem é o membro típico do seu partido?": "Se você dirige um Volvo e faz ioga, está bem definido como democrata", afirmou. "Mas se dirige um Lincoln ou um BMW e possui uma arma de fogo, você vota em George Bush".

É claro que W. estava cercado por três mulheres fortes --Laura Bush, Karen Hughes e Condi Rice--, que consertavam as suas balbúrdias políticas.

Mas Mr. Bush e Mr. Cheney projetaram intrepidamente a imagem de maridos confiantes --e autoritários-- que protegeriam os seus lares contra intrusos, enquanto descreveram Kerry como o cara afeminado, incapaz de expressar claramente as suas preferências esportivas, aquele tipo de gente que caminharia elegantemente vestido com pijamas Yves Saint Laurent, hesitante e apagado, e que ofereceria uma garrafa de água mineral à Teresa quando o alarme anti-ladrões disparasse.

Na semana passada, os democratas ficaram furiosos ao saberem que Kerry segurou US$ 15 milhões em doações feitas durante as primárias que poderiam ter sido gastos para a obtenção de votos na Flórida e em Ohio. Mais uma vez tentando conseguir duas coisas ao mesmo tempo, Mr. Kerry queria contar com uma reserva segura caso houvesse uma recontagem de votos ou contestação judicial --o que não é exatamente aquela mentalidade assassina da qual os democratas precisam.

Tendo estripado seus oponentes, os republicanos planejam acabar com as divisões enquanto consolidam impiedosamente os seus ganhos. Os democratas estão dando a outra face. Na inauguração da sua biblioteca presidencial, Bill Clinton garantiu à audiência que Mr. Bush e Mr. Kerry são "boa gente" que "apenas vêem o mundo de forma diferente".

Os visigodos republicanos estão ostentando cheques e contas correntes e empurrando os democratas (e os republicanos moderados) rumo à subserviência, aos papéis de obediência, inserindo cláusulas antiaborto nas leis que prevêem maiores verbas. Até mesmo a sugestão de que o Congresso teria um papel de aconselhar e consentir com relação aos juízes fez com que os visigodos esbofeteassem Arlen Specter [senador republicano moderado, que afirmou não pretender indicar juízes ultraconservadores à Suprema Corte dos EUA] até que este dissesse, choramingando, que atenderia aos seus desejos.

O partido dos valores morais declarou que o crime compensa, demonstrando, no caso de Tom DeLay, que um indivíduo que enfrenta uma acusação de praticar um delito pode ainda assim ser um líder.

O ultra-sinistro Mr. DeLay tirou as calças dos democratas na sexta-feira, zombando: "Compreendo que para os democratas é frustrante terem que se ajustar ao seu status de minoria, mas a sua derrota fragorosa... deverá mostrar a eles que o povo norte-americano está cansado das políticas de destruição pessoal".

Bem, ver os apoiadores de Bush descrevendo Kerry --um herói de guerra-- como criminoso de guerra foi algo cansativo.

Essa mais secretista das administrações quer impedir o público de ter conhecimento de qualquer fato capaz de contestar a estória que contam. O Departamento de Segurança Interna está fazendo com que funcionários e empreiteiras assinem documentos comprometendo-se a não informar o povo a respeito de informações sensíveis mas não sigilosas.

Porter Goss avisou aos funcionários da CIA que estes deveriam apoiar o governo e "honrar escrupulosamente o nosso juramento secreto", autorizando apenas o departamento de relações públicas e o de assuntos congressuais a falarem à mídia e ao Congresso.

Os senadores republicanos votaram a favor da proposta que permite que Bill Forest, o líder da maioria, nomeie membros para cargos vagos nos comitês poderosos, rompendo com o sistema de preenchimento dessas posições pelo critério da antiguidade --uma cutilada contra os moderados e líderes.

A Casa Branca afirma desejar maior harmonia, mas está agindo como uma polícia do pensamento. Tendo esbarrado na resistência ao seu projeto de dominação mundial, o presidente e o vice estão partindo para a dominação federal, empurrando para fora do caminho qualquer pessoa dotada de julgamento independente que coloque a democracia acima da ideologia.

É uma estratégia de jogo paradoxal: impor a democracia lá fora e impedi-la aqui. Partido assiste inerte ao domínio de Bush e seus falcões nos EUA Danilo Fonseca

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