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23/11/2004

Onda reacionária não atinge séries da TV dos EUA

The New York Times
Bill Carter
Em Nova York
Os resultados da eleição presidencial de 2004 ainda estão sendo analisados pelo que dizem sobre a suposta adoção pelo eleitorado dos valores culturais tradicionais. Mas para os executivos das redes de televisão encarregados de encontrar programas atrativos para os gostos de todo o país, uma lição está clara.

A suposta divisão cultural parece mais uma derretimento mental cultural.

Em uma série de entrevistas, representantes das quatro grandes redes de televisão, assim como de estúdios de produção de Hollywood, disseram que os retornos na audiência noturna da televisão não se assemelham à mensagem aparentemente transmitida por um percentual significativo dos eleitores.

As escolhas de programas feitas pelos espectadores, seja em Los Angeles (Califórnia) ou Salt Lake City (Utah) , Nova York ou Birmingham, (Alabama), são notavelmente semelhantes. E isto significa que a eleição terá pouco impacto sobre que programas eles escolherão para colocar no ar, disseram estes executivos.

É possível que alguns personagens secundários nas novas séries de televisão exibam fortes crenças religiosas, e uma trama ocasional examine os efeitos da fé nas vidas de alguns personagens. Mas os programas de televisão provavelmente continuarão explorando o poço profundo de assassinato, violência e transgressão sexual em vez de buscar diversão no caminho reto e estreito.

"É entretenimento versus política", disse Steve McPherson, presidente da ABC Entertainment. Ele descartou a idéia de que os criadores de programas poderão desenvolver idéias especificamente para atender aos eleitores que consideraram valores morais como sendo a questão mais importante nesta eleição. "Eu não ouvi nenhuma idéia do gênero", disse McPherson, "nenhuma".

Por mais que os executivos de entretenimento das redes gostem de ficar atentos às tendências, a medição da audiência pela Nielsen Media Research continua sendo sua bíblia.

"Ela fala mais sobre os valores criativos do que qualquer coisa presente no zeitgeist político", disse Dana Walden, presidente de um dos maiores estúdios de produção, a Twentieth Century Fox Television, que produz séries como "Os Simpsons" e "Nova York Contra o Crime". "São estes valores que estão atraindo o público americano", disse Walden.

Se é verdade que as escolhas eleitorais da população são uma reivindicação por programação com maior conteúdo moral, perguntam os executivos das redes, por que tantas pessoas, mesmo nos mercados que envolvem fortalezas de Bush como Atlanta e Salt Lake City, assistem a dramas de televisão repletos de sexo?

"Desperate Housewives" da ABC é o grande novo sucesso da temporada na TV, ocupando a segunda colocação geral em audiência no país, atrás apenas de "CSI" da CBS. Esta sátira do subúrbio e dos relacionamentos modernos exibe, entre outros personagens moralmente deficientes, uma mulher casada trintona tendo um caso com um jardineiro de idade colegial, e levou vários anunciantes, incluindo a Lowe's, a retirar seus anúncios.

No mercado da grande Atlanta, que atinge mais de 2 milhões de lares, "Desperate Housewives" é o programa de maior audiência. Quase 58% dos eleitores nestes condados votaram no presidente Bush.

E no mercado de Salt Lake City, que envolve todo o Estado de Utah e partes de Nevada, Idaho e Wyoming, "Desperate Housewives" está em quarto lugar, atrás de "CSI", "CSI: Miami" e de "E.R." da NBC; Bush obteve 72,6% dos votos lá.

"Nós dizemos uma coisa e fazemos outra", disse Kevin Reilly, presidente da NBC Entertainment. "As pessoas separam suas vidas de suas opções de entretenimento."

Sou uma pessoa moral, portanto posso ver um programa imoral

Diferenças regionais existem, é claro, nas escolhas de entretenimento do país. Tanto "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson quanto "Fahrenheit 11 de Setembro" de Michael Moore obtiveram lucros imensos, mas os cinemas com maior movimento para "Fahrenheit" ficavam em cidades claramente democratas, como Nova York, Los Angeles e San Francisco, enquanto "A Paixão" teve melhor desempenho em Estados republicanos como Texas, Ohio e Flórida.

Mas ir ao cinema exige uma decisão ativa de sair de casa, além de ter um preço anexado, diferente de ver televisão. Assistir a televisão sempre foi uma atividade passiva, com as pessoas selecionando seu entretenimento na privacidade de suas casas.

Mesmo na televisão há discrepâncias modestas na popularidade de vários programas. "Desperate Housewives" pode estar entre os 10 mais em Birmingham, Alabama, mas no oitavo lugar. E "Will and Grace", a comédia da NBC com dois personagens principais gays, está entre os 10 mais em Nova York, mas é apenas o 22º nacionalmente.

Mas quaisquer diferenças geográficas são insignificantes diante dos interesses distintos de programação entre negros e brancos. Um estudo realizado no ano passado pela firma de publicidade Initiative Media revelou que apesar de "E.R." e "Friends" estarem entre os programas mais assistidos entre os brancos, eles eram muito menos populares entre os negros. E os programas de maior audiência entre os negros, como "One on One" e "Girlfriends", não aparecem entre os 100 mais das redes de televisão.

A divisão entre o que as pessoas aceitam como apropriado em público e o que escolhem para desfrutar em suas vidas privadas não é, sem surpresa, novidade na história do mundo ou deste país.

"Quando os puritanos que chegaram a Plymouth Rock deixavam escritos, eram como os de William Bradford, e você pode ver claramente no que acreditavam e quais eram seus valores", disse Robert Thompson, professor de mídia e cultura popular da Universidade de Syracuse, se referindo ao primeiro governador da colônia. "Então você olha para os autos dos tribunais e vê todo tipo de fornicação, adultério e bestialidade."

Herbert J. Gans, professor de sociologia da Universidade de Colúmbia e autor de "Popular Culture and High Culture: An Analysis and Evaluation of Taste" (cultura popular e alta cultura: uma análise e avaliação de gostos), disse: "Para algumas pessoas é um caso de 'Sou uma pessoa moral, logo posso assistir ao programa mais imoral'".

Tal argumento foi repetido por Gary Schneeberger, diretor de temas do Focus on the Family, um influente grupo protestante evangélico que pediu aos seus simpatizantes que votassem com base em valores morais. "A História mostra que mesmo pessoas que podem ser descritas como eleitoras de valores morais tendem a ter comportamento pecaminoso e a assistir representações de comportamento pecaminoso", disse Schneeberger. "É chocante as pessoas serem seduzidas por isto? Não é chocante, mas é trágico."

Ele disse compreender que alguns espectadores podem apreciar os aspectos de mistério de "CSI", o principal programa atacado por seu grupo por suas descrições gráficas de violência, apesar de a justiça ser feita na maioria das semanas. Mas, ele acrescentou, "vale a pena passar por todo aquele lixo para solucionar um mistério?"

Schneeberger disse ter ficado animado com as críticas recebidas pela ABC, na semana passada, pelo uso de abertura carregada de sexo para sua cobertura de futebol americano, que incluiu uma das estrelas de "Desperate Housewives" soltando a toalha e saltando, aparentemente nua, nos braços de um jogador de futebol.

Mas enquanto a ABC pedia desculpas pelo segmento, os canais de notícias e de esportes no cabo, como a ESPN (que é de propriedade da dona da ABC, a Walt Disney Co.), ficaram reprisando incessantemente a cena ofensiva.

É uma contradição que ocorre repetidamente na cultura popular, onde para cada revolta contra tudo, da gravidez solteira de Murphy Brown ao seio exposto de Janet Jackson, as fronteiras do que é aceitável continuam sendo redefinidas por programas cada vez mais explícitos, como a série "Nip/Tuck" da FX e mesmo programas das redes.

Personagem crente

Já surgiram séries de sucesso com temas religiosos, como "O Toque de um Anjo". Mas desde que a série foi cancelada pela CBS, o retrospecto está longe de ser impressionante, disse Leslie Moonves, co-presidente e co-diretor-chefe de operações da Viacom, que é dona da CBS e da UPN.

Na série "Joan of Arcadia", da CBS, Deus é um personagem recorrente. Mas ele não está atraindo um grande número de espectadores, e isto vale para quase todos os Estados. Se os valores morais e religiosos fossem realmente o que as pessoas quisessem ver representados na televisão, disse Moonves, "eu acho que teríamos 'Joan of Arcadia' com maior audiência do que 'CSI'".

"CSI" reúne uma audiência de cerca de 30 milhões de espectadores por semana. O público de "Joan of Arcadia" não chega a um terço disso.

Moonves disse que sua rede não tem planos para alterar seus programas. "Assim que você pensa em colocar outras coisas em um programa, você muda a natureza do programa", disse ele.

Mas Reilly, da NBC, disse: "Eu acho que nós tendemos a dar menos importância para certas áreas do país".

"Uma das coisas que estamos planejando é ter personagens com fortes crenças religiosas incluídos em alguns de nossos programas", acrescentou Reilly. "Esta não seria a premissa do programa, mas poderíamos ter um personagem que simplesmente tem um forte ponto de vista."

E na Fox, Preston Beckman, o vice-diretor executivo para planejamento de programas, disse ter dado alguns conselhos, apesar de forma apenas marginal, para os produtores que estão vendendo idéias para as redes. "Cuide para que muitos deles ao menos tenham como cenário os Estados vermelhos (republicanos)", disse ele. "E que os personagens tenham um cachorro." Pessoas que se julgam "morais" gostam de ver programas "imorais" George El Khouri Andolfato

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