UOL Notícias Internacional
 

23/11/2004

Oposição alega fraude da situação na Ucrânia

The New York Times
C. J. Chivers

Em Kiev, Ucrânia
A Ucrânia aproximou-se de um impasse político, na segunda-feira (22/11), com a divulgação dos resultados parciais das eleições para presidente. Eles indicaram que o primeiro-ministro Vicktor F. Yanukovich venceu a disputa, mas observadores internacionais descreveram abusos eleitorais e o candidato da oposição recusou-se a aceitar os resultados oficiais.

Com mais de 98% dos votos contabilizados, os números do governo deram a Yanukovich 49,57 % dos votos, contra 46,57% de Vicktor A. Yushchenko. Com isso, seus simpatizantes reuniram-se aos milhares na Praça da Independência, alegando que a eleição fora fraudada e prometendo resistir até que os resultados refletissem a vontade do povo.

"Ficaremos aqui o tempo que pudermos, para mostrar à elite do poder que há muitos de nós", disse Elena Bondarchuk, 36, historiadora que estava no meio da manifestação na noite escura e fria de segunda-feira.

"À vitória!" disse Nina Kovalevskaya, 53, ao lado dela. "À nossa vitória!"

Em jogo não estava apenas a presidência de uma nação de quase 48 milhões de habitantes, mas também a direção que tomará o país de maioria eslava, durante o próximo mandato presidencial de cinco anos.

Yanukovich, cujo comitê de campanha declarou vitória na segunda-feira, é o sucessor escolhido pelo presidente de saída, Leonid D. Kuchma, ex-tecnocrata soviético que governou de forma centralizadora por 10 anos, em meio a relações às vezes tensa com Washington e alegações de corrupção e abuso de poder.

O primeiro-ministro prometeu manter a direção tomada por Kuchma, de aproximar o país da Rússia, seu parceiro histórico e cultural. O presidente Vladimir V. Putin apoiou-o abertamente. Boris V. Gryzlov, presidente da Duma russa, enviou congratulações a Yanukovich na segunda-feira.

Yushchenko, também ex-primeiro-ministro, descreveu o atual bloco de poder como deformado e inflexível, e prometeu manter laços com a Rússia, mas estimular a expansão dos negócios e relacionamentos da Ucrânia para oeste, na direção da Europa.

Seu apoio entre os jovens na capital é palpável. Sua campanha não teve a cobertura da mídia e os recursos do governo usados pela campanha do primeiro-ministro, de acordo com os relatórios de observadores internacionais, e adotou muitas estratégias de concorrente azarão.

Os resultados divulgados na segunda-feira foram muito diferentes do que indicaram as pesquisas de boca-de-urna, que davam à oposição uma vantagem de até 11 pontos. Eles pareceram confirmar as preocupações expressadas pelo comitê de Yushchenko domingo à noite de que a votação seria manipulada para servir ao interesse do Estado. A campanha da oposição fomentou uma manifestação de protesto político e ação em massa.

Yushchenko, dirigindo-se à multidão, pediu que fosse convocada uma sessão urgente no Parlamento, para analisar acusações generalizadas de abusos eleitorais e manipulação governamental das eleições.

"Não temos a menor confiança no Comitê Central Eleitoral por ser um participante passivo, ou talvez ativo demais, nas falsificações", disse ele. "Apelamos aos corpos fiscalizadores da lei, a todos os cidadãos da Ucrânia: apóiem o protesto nacional!"

Minutos depois, Yulia Tymoshenko, membro do Parlamento e um dos altos partidários de Yushchenko, convocou greve geral. A base de apoio jovem do líder da oposição, vestindo as fitas cor de laranja que simbolizam sua campanha, construiu uma pequena cidade de tendas no centro, dizendo que acamparia indefinidamente.

Enquanto os eleitores de Yushchenko tentavam forçar um confronto político e reverter os resultados publicados, o governo manteve uma posição oficial calma. Pareceu manter o controle do primeiro dia crucial.

Apesar de a manifestação crescer em volume, não havia muito policiamento na capital, e os policiais presentes estavam principalmente envolvidos no controle do trânsito. A sede da campanha do primeiro-ministro, antes lotada, declarou vitória casualmente e fechou antes do almoço. Sua equipe de governo não respondeu aos chamados telefônicos.

"Vencemos e vamos dormir", disse Gennady P. Korz, porta-voz da campanha.

O governo procurou manter-se discreto em sua reação. No entanto, uma das missões de observadores internacionais --com equipes da Organização de Segurança e Cooperação da Europa, do Parlamento Europeu, da Assembléia Parlamentar da Otan e do Conselho da Europa-- não poupou críticas à sua conduta.

Em uma declaração e aparição conjunta, à tarde, os observadores divulgaram longas listas de críticas.

Eles se depararam com uso abusivo de recursos governamentais em favor do primeiro-ministro, o acréscimo de aproximadamente 5% de novos eleitores na lista de votantes no dia das eleições, coação dos estudantes para que votassem no escolhido do governo, pressão sobre funcionários públicos para que entregassem cédulas de ausentes indevidas, abuso generalizado dos eleitores ausentes (incluindo alguns que foram levados de ônibus de região em região), acesso impedido a pesquisadores, números duvidosamente altos de eleitores em regiões que apoiaram o primeiro-ministro, listas incorretas de eleitores e parcialidade aberta na mídia patrocinada pelo governo.

Marek Siwiec, chefe da delegação do Parlamento Europeu, disse que certos abusos eleitorais "lançaram uma sombra sobre a genuinidade da eleição".

A conclusão dos observadores internacionais foi, em geral, endossada por Richard G. Lugar, diretor do Comitê de Relações Exteriores do Senado americano, que liderou missão menor para Ucrânia, para instar Kuchma a organizar eleições justas e abertas.

"Um programa poderoso de fraude e abusos eleitorais foi executado com a liderança ou a cooperação de autoridades do governo", disse Lugar, Republicano de Indiana, em um pronunciamento organizado pela Embaixada americana. "O presidente Kuchma, mesmo a esta altura, tem a responsabilidade de avaliar tudo isso e tomar atitudes decisivas."

Muitas das mesmas críticas foram feitas ao governo durante o primeiro turno das eleições presidenciais, há três semanas. Yushchenko venceu por pouco aquele turno, contra 24 concorrentes, que levou ao segundo turno dos dois candidatos no domingo. Como Yanukovich é o sucessor pessoalmente aprovado por Kuchma e o resultado de segunda-feira adequa-se ao desejo do governo, poucos esperam reavaliações presidenciais significativas.

A mais forte crítica do dia veio de Charles Tannock, membro britânico do Parlamento Europeu, que disse que esperava menos esse tipo de conduta da Ucrânia do que do Turcomenistão, um Estado autoritário.

Tannock, então, expressou em voz alta seus temores de que a aparente ilegitimidade da eleição pudesse servir para dividir a Ucrânia: as regiões Norte e Oeste apoiando Yushchenko e o maior engajamento com a Europa, e a região Leste, apoiando o primeiro-ministro e relações mais íntimas com a Rússia.

Os partidários do primeiro-ministro chamaram as observações de inflamatórias.

"Esse tipo de comentário não é bem-vindo", disse Alex Kiselev, consultor de Yanukovich. Ele também disse que seu comitê acredita que as manifestações da oposição perderão intensidade com o tempo, e que as exortações por uma greve geral não atingirão massa crítica. "Não acreditamos que haverá simpatizantes suficientes no país para isso", disse ele.

Era cedo demais para dizer se a confiança do governo era apropriada. O senador Lugar, como os próprios líderes dos manifestantes, pediu que todos se contivessem e que nenhum lado recorresse à violência.

O comício nervoso passou da noite de domingo para a manhã de segunda e para a noite de segunda. A multidão, às vezes, gritava: "A liberdade não pode ser detida! A liberdade não pode ser detida!" Vários indícios apontam favorecimento oficial, dizem observadores Deborah Weinberg

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