UOL Notícias Internacional
 

23/11/2004

Planos de Bush deixam americanos preocupados

The New York Times
Janet Elder* e

Adam Nagourney

Em Nova York
Após terem visto uma campanha eleitoral brutal, os americanos estão otimistas com os próximos quatro anos do presidente Bush. Por outro lado, eles têm reservas quanto a elementos centrais da agenda de segundo mandato que Bush apresentou ao derrotar o senador John Kerry, segundo a mais recente pesquisa New York Times/CBS News.

Em um momento em que a Casa Branca retrata a vitória de Bush por 3,5 milhões de votos como uma autorização, a pesquisa revela que os americanos estão, quando muito, ambivalentes em relação aos planos de Bush de mudar o Seguro Social, alterar o código tributário e nomear juizes conservadores. Continua a desaprovação com a forma com que Bush está lidando com a guerra no Iraque, com muitos agora dizendo que foi um erro invadir Bagdá.

Apesar de os democratas, sem causar surpresa, serem os oponentes mais ferrenhos em muitos elementos da agenda de Bush para o segundo mandato, as preocupações ultrapassam as fronteiras partidárias em alguns casos. Quase dois terços dos entrevistados --incluindo 51% de republicanos-- disseram ser mais importante a redução dos déficits orçamentários federais do que a redução de impostos, um elemento central da agenda econômica de Bush.

A mais recente pesquisa NYTimes/CBS News também revelou uma grande preocupação com o que os americanos consideram como um efeito corrosivo de Hollywood e da cultura popular sobre os padrões e valores morais da nação. 70% disseram estar um pouco ou muito preocupados com a televisão, o cinema e a música popular estarem "baixando os padrões morais" neste país.

Apesar deste sentimento ter sido manifestado tanto por eleitores do presidente Bush quanto de Kerry, parece que a preocupação sobre o declínio dos valores está se tornando outro ponto de polarização na política americana. Os eleitores de Bush apresentaram maior tendência de citá-la do que os eleitores de Kerry, e foi uma questão que teve peso particular no Sul e entre os freqüentadores regulares de igreja, eleitores rurais e mulheres.

Além disso, 70% dos eleitores de Kerry disseram estar mais preocupados com candidatos que "estão ligados demais à religião e líderes religiosos" do que líderes políticos que "não dão atenção suficiente" à religião, após uma campanha na qual Bush falou repetidas vezes em Deus e sua fé. Em comparação, 52% dos eleitores de Bush disseram estar mais preocupados com autoridades públicas que "não dão atenção suficiente à religião e líderes religiosos".

Ainda, em um importante contraste com a eleição de 2000, 82% dos entrevistados disseram que Bush venceu legitimamente em 2 de novembro. Pouco antes da eleição, 50% dos entrevistados consideravam a vitória de Bush sobre Al Gore em 2000 como legítima.

E mesmo após esta campanha tensa e cheia de insultos, 56% disseram estar otimistas com os próximos quatro anos de governo Bush. O índice de aprovação do presidente agora aumentou para 51%, o maior desde março.

A pesquisa Times/CBS News foi realizada entre quinta-feira e domingo (18 a 21 de novembro), após um período de três semanas em que alguns pesquisadores questionaram alguns dos resultados das pesquisas de boca-de-urna. A pesquisa nacional por telefone envolveu 855 adultos e apresenta margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.

De forma geral, a pesquisa sugere que o resultado da eleição reflete a posição da maioria dos americanos, que confia que Bush está mais apto a protegê-los contra futuros ataques terroristas, além de gostar mais dele do que de Kerry, do que qualquer grande apoio à suas políticas. Assim, o resultado lembra a situação encontrada por Ronald Reagan em 1980, quando derrotou Jimmy Carter.

Apesar de dois terços dos entrevistados terem dito que esperam que Bush indique juizes que votarão pela proibição do aborto, a maioria continua dizendo que deseja a prática continue legal como é agora, a posição defendida por Kerry, ou que seja legal mas sob limites mais estritos.

Os americanos disseram ser contra a mudança da Constituição para proibir o casamento gay, medida defendida por Bush nas últimas semanas de campanha. A maioria continua a apoiar ou o casamento gay ou algum tipo de reconhecimento legal para uniões entre gays.

O público parece ambivalente em relação ao que Bush identificou como sendo suas duas principais iniciativas domésticas para o segundo mandato: a reforma do sistema do Seguro Social e a reforma do código tributário, incluindo mais cortes de impostos.

Quanto ao código tributário, funcionários do governo estão discutindo propostas que, entre outras coisas, reduziriam o imposto de renda para os americanos de alta renda ao mesmo tempo em que eliminariam algumas deduções. Na pesquisa, mais de 6 em 10 entrevistados disseram que as pessoas com renda mais elevada deveriam pagar proporcionalmente mais imposto de renda; 3 entre 10 disseram que todas as faixas de renda deviam pagar o mesmo percentual.

Cerca de um terço dos entrevistados disse que as reduções de impostos aprovadas por Bush no primeiro mandato foram boas para a economia; mas quase um quinto disse que foram prejudiciais, e pouco abaixo da metade disse que as reduções de imposto fizeram pouca diferença.

"Eu não me importo com alguma redução de impostos, mas eu acho que os cortamos demais", disse Ron Clark, 63 anos, um republicano de Livingston, Montana, em uma entrevista pós-pesquisa. "Eu não sou contra tornar permanentes as atuais reduções, mas eu não acho que precisamos ir além do que já fomos, porque me preocupo com o déficit. Ele cresceu demais nos últimos dois anos."

No Seguro Social, 45% disseram que a proposta de permitir que as pessoas invistam sua parcela retida em contas privadas é uma má idéia; 49% disseram ser uma boa idéia. A pesquisa também encontrou pouca confiança entre os americanos de que Bush garantirá a futura solvência do programa: 51% disseram que Bush dificilmente "garantirá que os benefícios do Seguro Social estarão lá para pessoas como eu".

Entre os resultados contestados das pesquisas de boca-de-urna está o de que valores morais foram fundamentais para a determinação do resultado.

A pesquisa revelou que 22% dos entrevistados o consideraram o item mais importante para sua tomada de decisão. Pesquisadores contestaram a forma como foi apresentada a pergunta, porque foi apresentada como uma categoria geral, sem qualquer tipo de explicação, juntamente com uma lista de outros seis itens específicos, como Iraque e saúde.

Nesta pesquisa, quando foi permitido que fosse citada livremente a questão mais importante na decisão de voto, 6% escolheram valores morais, apesar de números menores terem citado questões como aborto e casamento gay. Em uma questão separada, na qual os eleitores tinham nove opções, 5% escolheram aborto, 4% escolheram pesquisa de célula-tronco e 2% escolheram casamento gay.

A principal questão foi economia e emprego, que foi citada por 29% dos pesquisados. Dito isto, não há dúvida de que os americanos estão cada vez mais insatisfeitos com a influência da cultura popular na vida diária, e isto teve uma influência significativa neste eleição. Quase dois terços dos pesquisados disseram que Hollywood está baixando o nível da cultura popular. E 70% disseram que todos os elementos da cultura popular --música, cinema e televisão-- estão baixando os padrões morais dos Estados Unidos.

Mas a pesquisa também revelou que os americanos estão divididos igualmente sobre se a televisão, o cinema e os livros estão incluindo temas e personagens gays demais.

A pesquisa e a entrevista subseqüente revelaram que os eleitores de Bush e os eleitores de Kerry estão em campos diferentes nestas questões, olhando uns para os outros com suspeita.

"Eu acho que eles são movidos pelo ódio, homofobia e acrimônia", disse Paul Cuthbertson, 53 anos, um democrata de Atlanta. "Os republicanos transformaram nos últimos anos a palavra 'liberal' em um palavrão, o que não é. Eu sou liberal e tenho orgulho disto. Este chamado ideal cristão de ser contra o casamento gay não é nem americano nem cristão. Eu acho que é antiamericano discriminar outros cidadãos, e Deus não pede aos cristãos para que sejam vigilantes, que punam pessoas que achem que Ele não gosta." Pat Gilbert, uma republicana de Battle Creek, Michigan, disse: "Os dois lados ficarão para sempre bem distantes".

"Eu estou certa de que há diferentes grupos de eleitores que votaram em Kerry, mas eu acho que eles acreditam mais na sociedade em geral --se você não está ferindo ninguém, então não há nenhum problema", disse ela, acrescentando: "Eu não acho que eles tenham um sistema firme de crença no qual basearem suas decisões. Ele varia de acordo com a moda. A longo prazo a sociedade se transformará em um caos".

Por 48% contra 40%, os entrevistados disseram acreditar que mais quatro anos de governo Bush mais dividirá a nação do que a unirá.

Devido a toda a atenção dada ao esforço de Bush para aumentar seu apoio entre os eleitores religiosos, 31% dos entrevistados disseram achar que os cristãos evangélicos têm influência demais sobre o governo. Em comparação, 66% disseram que acham que as grandes empresas têm influência demais sobre o governo.

A pesquisa refletiu o feito eleitoral da campanha de Bush neste ano. Ele venceu apesar de muitos americanos desaprovarem a forma como ele tem lidado com a economia, relações exteriores e a guerra no Iraque. Houve um ligeiro crescimento no número de americanos que acreditam que a nação nunca deveria ter ido ao Iraque. A maioria dos americanos continua acreditando que o país está seguindo na direção errada, historicamente um sinal de alerta para o presidente em exercício.

Finalmente, em uma notícia presumivelmente boa para um partido que está à procura de uma, os americanos atualmente tem uma melhor opinião em relação ao Partido Democrata do que o Republicano: 54% disseram ver os democratas de forma favorável, em comparação com 39% com visão desfavorável. Em comparação, 49% disseram ter uma visão favorável dos republicanos, com 46% tendo uma visão desfavorável.

*Colaborou Fred Backus. Presidente está conduzindo país na direção errada, aponta pesquisa George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host