UOL Notícias Internacional
 

24/11/2004

Eleição na Ucrânia ressalta tensões Leste-Oeste

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Moscou
Desde a guerra da Otan em Kosovo, ou talvez desde a própria Guerra Fria, as diferenças políticas entre a Rússia e o Ocidente não pareciam tão claras quanto nas eleições presidenciais disputadas da Ucrânia.

A Rússia e o próprio presidente Vladimir V. Putin deram forte apoio ao candidato que prometeu maiores relações com Moscou, Viktor F. Yanukovich. A Europa e os EUA apoiaram seu oponente, Viktor A. Yushchenko, apesar de mais sutilmente.

Mas não foi só isso. Os dois lados apresentaram opiniões diametralmente opostas do que ocorreu na Ucrânia, em um confronto que o Grupo Financeiro Unido, um banco de investimentos em Moscou, chamou de "estilo Guerra Fria".

Putin, por meio do porta-voz do Kremlin, chamou a eleição de "aberta e honesta". A União Européia, os EUA e a Organização de Segurança e Cooperação na Europa chamaram-na de tudo, menos disso.

O senador Richard G. Lugar, de Indiana, diretor do Comitê de Relações Exteriores do Senado, que levou uma delegação americana à Ucrânia, citou "um programa orquestrado de fraude e abuso eleitoral". Por outro lado, o presidente do Parlamento russo, Boris V. Gryzlov, cuja presença na Ucrânia sem dúvida tinha a intenção de contrabalançar a de Lugar, declarou que "a eleição foi tão democrática quanto qualquer outra".

O colapso do Pacto de Varsóvia e da própria União Soviética supostamente apagaria as velhas divisões da Europa. Por um tempo, de fato, as palavras Leste e Oeste pareciam levemente anacrônicas, na medida em que ex-repúblicas soviéticas e satélites da Europa Oriental adotaram a democracia, apesar de hesitantemente.

Cada vez mais, entretanto, uma nova divisão torna-se aparente, não tanto definida por ideologias políticas, mas por interesses políticos e econômicos competitivos e noções contraditórias do que a própria democracia representa.

Na Rússia de Putin, o uso de recursos do governo em nome de seus candidatos ou o controle do Estado sobre a mídia -dois fatores criticados pelos observadores internacionais na Ucrânia- são instrumentos aceitos da política. Assim como é o uso do prestígio pessoal do presidente, cuidadosamente preservado pelos canais estatais, para influenciar eleições, mesmo fora das fronteiras do país.

Putin infringiu o protocolo diplomático ao fazer campanha tão abertamente para Yanukovich, recebendo-o em Moscou e visitando a Ucrânia antes de cada turno das eleições. Imagine o que aconteceria se o presidente Vicente Fox, do México, fizesse campanha pelo presidente Bush, ou o inverso.

O presidente russo completamente destruiu o protocolo, na segunda-feira (22/11), ao congratular Yanukovich por uma vitória que seu oponente não tinha admitido e que até seu patrão, o presidente Leonid D. Kuchma, ainda não tinha oficializado.

Na terça-feira, o presidente Alexander G. Lukashenko, da Belarus, freqüentemente chamado de o último ditador da Europa, uniu-se a Putin em suas congratulações.

"Não queremos seus valores impostos sobre nós", disse Lukashenko, no início do mês, negando as críticas do Ocidente ao referendo presidencial de outubro, que efetivamente acabou com qualquer limite de tempo de seu cargo.

Masha Lipman, analista do instituto de pesquisa Centro Carnegie de Moscou, disse que as eleições na Ucrânia ressaltaram o "fosso de valores" entre a Rússia e a Belarus, de um lado, e o resto da Europa, do outro.

"O fato que a Rússia não se considera parte do Ocidente tornou-se muito explícito", disse ela na terça-feira.

Era inevitável que a Ucrânia se tornasse um campo de batalha.

Os candidatos deram visões fortemente divergentes sobre o futuro do país. Yanukovich prometeu continuar o legado de Kuchma, aprofundando as relações com a Rússia. Yushchenko passou uma imagem de liberal, de reformista democrático ansioso em romper o poder do Estado e em voltar-se para a Europa.

A distribuição de votos no segundo turno mostrou a região Leste do país, que fala russo, fortemente defendendo Yanukovich, e a capital e a região Oeste, mais "européias", fortemente por trás de Yushchenko. Uma nova linha divisória, portanto, parece correr em alguma parte a leste do Rio Dnieper.

Sergei A. Markov, diretor do Instituto de Estudos Políticos em Moscou, um dos muitos assessores russos da campanha de Yanukovich, disse em uma entrevista que a eleição não era uma disputa de idéias, mas de influência.

Na opinião da Rússia, a Ucrânia continua sendo parte vital do "exterior próximo", de ex-repúblicas soviéticas com profundos laços históricos, econômicos e, neste caso, culturais, lingüísticos e étnicos. Putin investiu esforço considerável para criar uma união política e econômica da Rússia com a Belarus, Ucrânia e Cazaquistão.

Markov negou as críticas ocidentais às eleições, dizendo que Yanukovich havia vencido honestamente. A Europa e os EUA protestaram simplesmente porque seu candidato favorito perdeu, disse ele.

Cada vez mais, porém, a Rússia e o Ocidente parecem estar tendo falando línguas diferentes. "Acho que pode haver uma nova Guerra Fria", disse Markov, "não por competição de interesses, mar por falta de comunicação."

Isso apenas se intensificou na terça-feira. Putin fazia a primeira visita de um chefe de Estado russo a Portugal. Ele chamou as críticas européias do resultado de "inadmissíveis" na ausência de resultados oficiais. A Ucrânia, ele acrescentou, "não precisa ser catequizada".

O ministro de relações exteriores da Rússia, em uma declaração na terça-feira à noite, disse que a Holanda, que atualmente detém a presidência da União Européia, estava fomentando as atividades ilegais da oposição ucraniana ao duvidar dos resultados. "Bruxelas esqueceu-se do princípio básico de democracia -respeito à vontade do povo", dizia a declaração. Candidatos representam opções de alianças estratégicas opostas Deborah Weinberg

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