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24/11/2004

Saga de "Alexandre" é história confusa e infantil

The New York Times
Manohla Dargis

Crítica do NYTimes
Chega um momento na carreira de muitos diretores em que são compelidos a contar a história de um grande homem, em cuja vida eles parecem ter visto um brilho de sua própria imagem.

Francis Ford Coppola teve Preston Tucker, o inovador do setor automotivo que tentou e não conseguiu desafiar Detroit, da mesma forma que o diretor fez com Hollywood. Martin Scorcese e Mel Gibson tiveram Jesus. Agora, Oliver Stone tem Alexandre o Grande, o tirano da Macedônia que atravessou o mundo antigo derramando sangue, sem nenhum objetivo óbvio além de fugir de sua mãe chata, pelo que sugere o filme confuso de Stone.

E que chata ela era! Olympias, interpretada com exagero por Angelina Jolie, era a mãe de todas as mães monstruosas, uma domesticadora de cobras cujo amor por seu único filho tinha o cheiro de uma paixão incestuosa e o tédio de uma implicância perpétua.

Para Alexandre --Colin Farrell, vencido em cena por uma tintura capilar epicamente ruim-- o enredo edipiano tem um pouco mais de substância por também amar seu pai, Philip, o inimigo mais odiado de Olympias e o Rei da Macedônia (Val Kilmer).

A luta entre Olympias e Philip, essas forças primordiais feminina e masculina, seria reproduzida tanto nos desejos bissexuais de Alexandre quanto em sua conquista predadora do Leste feminizado. Em outras palavras, Alexandre tornou-se seu pai para surpreender sua mãe.

O historiador grego Strabo escreveu que: "Os seguidores de Alexandre preferem o maravilhoso ao verdadeiro". E assim é com Stone, cujo Alexandre é um déspota psicologicamente podre, mas fundamentalmente decente. Nessa visão, sua conquista não é um fim em si mesmo, uma dominação ou puro derramamento de sangue, mas uma forma de colonização civilizadora.

Se o desejo de Alexandre de levar a cultura helênica aos assim chamados bárbaros brotava de seu coração ou de sua mente não vem ao caso, considerando sua carnificina trans-continental. Os europeus que dizimaram a Mesoamérica também eram sinceros.

Independentemente do que moveu Alexandre, o fato de Stone esforçar-se tanto para tirar o sangue do rosto de seu herói e mostrar suas lágrimas é um desapontamento, já que, em seus filmes anteriores, ele capturou brilhantemente a loucura frenética da violência.

A pobreza do roteiro de Stone, escrito com Christopher Kyle e Laeta Kalogridis, tem um efeito similarmente paliativo, já que coloca o sangue dos saques de Alexandre nas costas de Olympias. Desde os 20 anos, depois de suceder seu pai, Alexandre passa a vida fugindo da mãe.

Enquanto o jovem saqueador mata e escraviza povos do Egito à Índia, Stone repetidamente nos faz voltar a Olympias, envolta por cobras e castigando seu filho ausente com um sotaque irreconhecível, meio mãe judia, meio Natasha de "Rocky and Bullwinkle": "Você não escreve, não liga, por que não se casa com uma boa menina macedônia?" ou coisas parecidas. Desde que Joan Crawford enlouqueceu fazendo filmes B, no pôr-do-sol de sua carreira, raramente uma atriz conseguiu tamanho ridículo.

Stone sempre fez histórias sobre homens para quem uma vida comum é impossível, seja por acidente ou por escolha. Como contador de histórias, ele se habituou a personalidades extremas, o que durante os anos 90 combinou com um seu estilo visual, um dos mais alegremente expressivos do cinemão americano.

Os críticos do diretor tendem a se concentrar no conteúdo controverso de seus filmes (como em "JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar, presidentes americanos e assassinos, entre outros assuntos) e ocasionalmente diminuem seu trabalho pelos desvios que faz da inspiração histórica. Mas a verdade sobre os filmes de Stone nunca esteve na Casa Branca ou no Relatório da Comissão Warren, e sim na riqueza de seu imaginário, na energia de sua direção e na intensidade cheia de alma de seus atores.

Há momentos em "Alexandre" que mostram Stone em boa forma, inclusive em uma cena de batalha filmada da visão de um pássaro e a ternura dolorosa entre o ditador e sua amante, Hephaistion (Jared Leto, que tem a única atuação verossímil do filme), mas essas notas de graça são poucas e espaçadas.

Este é o filme mais caro e logisticamente complexo da carreira do diretor. Aparentemente, o esforço para matar tantas feras, desde elefantes até as estrelas do cinema e os homens do dinheiro, junto com as dores de cabeça que vêm com filmes de época, tirou o melhor dele. Certamente gerou o pior em termos de texto pueril, roteiro confuso, atuações chocantemente enganadas e uma história que não tem nenhuma das duas qualidades necessárias para filmes desse tipo, ser pop ou solene.

Já que nosso momento histórico é igualmente dividido entre puritanismo e lascívia, não surpreende que o interesse da mídia em "Alexandre" tenha se concentrado mais nas explorações sexuais do personagem do que em suas campanhas militares.

Os gregos antigos não tinham nossa concepção do homossexualismo derivada do século 19, mas certamente faziam sexo homossexual, especialmente entre homens e meninos. O que torna Alexander um pouco diferente não é seu desejo pelo mesmo sexo, mas que ele dormia com homens de sua idade.

É mérito de Stone não ter evitado os apetites bissexuais do personagem, apesar de não permitir que Leto se libere como fez Rosário Dawson, que faz a mulher selvagem de Alexander, Roxane. Novamente, na luz dos cômicos grunhidos e alvoroços do quarto de dormir de Alexander e Roxane deve-se falar da contenção da direção.

Assim como a biografia de Mary Renault, "The Nature of Alexander", Stone começa sua história com a morte do tirano, aos 32. Mas como essa não é uma morte comum e nem um diretor comum, Stone abre sua versão com uma menção consciente ao "Cidadão Kane".

Comparar seriamente a obra prima de Orson Welles com "Alexander" seria falta de gentileza com Stone, que fez grandes filmes e, espero, fará outros. Mesmo assim, vale observar que, enquanto "Cidadão Kane" é um retrato firme do desejo de poder de um homem monstruoso, "Alexander" suaviza a imagem de um monstro muito mais terrível.

Welles fez um retrato impiedoso de seu tirano e foi sujeito a retaliação sistemática de William Randolph Hearst, modelo da vida real de Kane. Além dos credores, o único a quem Stone tem que responder é a si mesmo.

A classificação é para maiores de 18 anos. O filme tem muitas cenas de guerra com sangue e carne viva, membros decepados e imagens de crueldade com os animais. Dawson também tira sua camisa, o que pode perturbar algumas pessoas de forma bastante diferente.

Alexandre

Dirigido por Oliver Stone; escrito por Stone, Christopher Kyle e Laeta Kalogridis; diretor de fotografia, Rodrigo Prieto; editado por Tom Nordberg e Yann Herve; música de Vangelis; produção artística, Jan Roelfs; produção executiva de Thomas Schühly, Jon Kilik, Iain Smith e Moritz Borman; lançado pela Warner Brothers Pictures. Duração: 173 minutos.

Elenco: Colin Farrell (Alexander), Angelina Jolie (Olympias), Val Kilmer (Philip), Anthony Hopkins (Ptolemy), Rosario Dawson (Roxane), Jared Leto (Hephaistion) e Christopher Plummer (Aristotle). Bissexualidade do tirano é única qualidade do filme de Oliver Stone Deborah Weinberg

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