UOL Notícias Internacional
 

24/11/2004

Violência estimula suicídio entre índios latinos

The New York Times
Juan Forero

Em Riosucio, Colômbia
Aos 15 anos, Leida Salazar tinha acabado de aprender a andar de bicicleta, tomava conta dos seus irmãos mais novos e era uma das poucas extrovertidas entre um grupo de garotas indígenas recatadas. Mas há um ano, ela fez um laço com a sua saia, amarrou-o na estrutura de madeira do telhado da sua casa e se enforcou.

Uma nota que deixou ao pai revela os seu medo de que a guerra de guerrilha colombiana, alimentada pelo narcotráfico, engolisse a sua família, refugiada nesta aldeia paupérrima junto a dezenas de outras. Mas a morte da garota que externamente era feliz continua deixando perplexos os seus pais e os líderes da tribo indígena embera, na qual nunca fora registrado um caso de suicídio.

"Quando a tragédia ocorreu, achei que se devesse ao conflito", afirma Marino Salazar, 33, pai de Leida, sentado em um banco próximo ao quarto no qual a filha morreu. "Mas há outras crianças capazes de continuar suportando a situação".

Os emberas e três tribos próximas, wounaan, katio e chami, que caçam e pescam neste trecho de selvas densas e de incontáveis rios, no norte do país, presenciaram impotentes o suicídio de 15 jovens desde março de 2003, em sua maior parte garotas.

Considerando que há apenas 3.000 pessoas nas tribos, a taxa anual de suicídio chega a 500 por cada 100 mil pessoas. Em 2003, o índice médio de suicídio na Colômbia foi de 4,4 por 100 mil pessoas, segundo estatísticas do governo.

"Para nós, a morte de uma pessoa é como a perda de cem", lamenta Victor Carpio, um dos líderes wounaan.

O conflito na Colômbia, que já dura 40 anos, no qual os rebeldes enfrentam esquadrões da morte formados por elementos de extrema direita e o aparato estatal de segurança, é facilmente identificável como um motivo para os suicídios. Mas ele não é o único.

A modernidade invasiva, que traz problemas como a extração de madeira e as ocupações de terra, ameaça os emberas, que temem que a sua juventude derrotada esteja perdendo a identidade indígena que é a raiz da existência da tribo.

O mais problemático ainda é saber como lidar com um problema desses --os psiquiatras chamam isso de epidemia de suicídio-- em um clã de caçadores e coletores de produtos da selva que pouco compreendem as complexidades das desordens mentais e das suas ramificações, incluindo o suicídio.

"É um mistério e motivo de terrível preocupação para nós", diz Jorge Alzate, funcionário da representação local da Alta Comissão de Refugiados das Nações Unidas. "O problema é tentar determinar exatamente por que isso está ocorrendo".

A agência de refugiados da ONU, que há muito ajuda os nativos locais que foram desalojados de suas residências, criou um programa de assistência a fim de contribuir para a contenção dos suicídios.

O financiamento é destinado aos xamãs emberas, conhecidos como jaibanas, de forma que estes possam chegar a cabanas quase inacessíveis por meio de barco a motor para conduzir os rituais. Os professores precisam ser treinados para educarem seus alunos e descobrirem sinais preocupantes em jovens traumatizados pela guerra.

Os líderes emberas foram ainda mais longe, solicitando o auxílio de profissionais da área de saúde mental.

Mas enviar uma equipe de forasteiros a esta região perigosa é algo mais difícil do que parece. A Colômbia não conta com psicólogos treinados para lidar com grupos indígenas como os emberas, que possuem vários membros que mal falam espanhol e que não têm experiência nenhuma com os métodos terapêuticos ocidentais.

Tiziana Clerico, funcionária de comunicação da ONU e psicóloga, diz ainda que não se sabe se os habitantes de vilas remotas aceitariam o tratamento. "Aqui, a idéia pode parecer boa", diz Clerico, minutos após manter uma reunião com várias mulheres emberas em Riosucio, uma vila predominantemente afro-colombiana da província de Choco. "Mas a situação poderia ser diferente nas reservas".

Todos concordam que o que está em jogo não poderia ser mais importante. Os líderes emberas dizem cerca de 25 outros jovens tentaram o suicídio, gerando o temor intenso nas comunidades isoladas de que maus espíritos, em essência as almas não sepultadas dos mortos da guerra, estejam possuindo os jovens.

O suicídio é um fenômeno raro nas tribos indígenas latino-americanas que estão intactas e prosperando. Mas nos Estados Unidos, Canadá e em meio a alguns poucos grupos da América Latina, os índices de suicídio aumentaram nas tribos esmagadas pelo avanço do mundo moderno e que lutam pela sobrevivência.

No Brasil, os kaiowas, com cerca de 30 mil pessoas, viram centenas de jovens tirarem as próprias vidas nas últimas duas décadas, conforme a tribo lutava para manter os madeireiros e os fazendeiros fora das suas terras.

Na Colômbia, os guambianos, que vivem no sudoeste do país, enfrentaram uma onda de suicídios nos anos 70, durante a qual vários jovens se mataram bebendo veneno. E em 1997, os Uwas, uma tribo que habita a região próxima à fronteira com a Venezuela, atraíram a atenção mundial quando ameaçaram cometer suicídio em massa em um protesto bem sucedido para impedir a produção de petróleo.

"Esses são grupos que se deparam com um futuro sombrio", alerta Jeanne Jackson, antropóloga médica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts que estuda os índios colombianos desde 1968. "E a resposta a esse futuro não é apenas a migração para as áreas urbanas e o desaparecimento, mas algo de natureza bem mais patológica".

O suicídio está, é claro, relacionado a desordens mentais como a depressão e o uso de drogas, diz David Brent, psiquiatra de adolescentes da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh. "Mas a desintegração e a transição culturais podem minar os apoios e valores tradicionais que afetam a habilidade dos pais em criar os filhos, a auto-estima e a esperança no futuro, o que, por sua vez, pode precipitar esse tipo de problemas", adverte Brent.

Embora os textos científicos sobre o suicídio nas tribos latino-americanas sejam escassos, David Shaffer, professor de psiquiatria na Colômbia e especialista em suicídio de adolescentes, diz que não há paralelos entre as mortes dos emberas e os casos de suicídios múltiplos que estudou nos Estados Unidos.

Tão logo ocorra o primeiro suicídio, chamando a atenção de todos, aquilo que antes era tido como um comportamento inaceitável pode se transformar em uma opção para outros adolescentes que, por algum motivo, estão deprimidos, explica Shaffer.

Os emberas, cuja existência girava em torno da caça de macacos, veados e outros animais selvagens que eram abundantes na Floresta Amazônica, tiveram as suas vidas inexoravelmente alteradas.

No decorrer de uma viagem de cinco dias, os índios daqui de Riosucio --um vilarejo pobre que é cada vez mais habitado pelos emberas sem lar-- e de duas aldeias emberas remotas falaram à reportagem sobre as pressões sofridas por suas comunidades e sobre as mortes resultantes desse processo.

Alguns dizem que a idéia de suicídio deve ter surgido após quatro jovens índios de uma tribo adjacente, os arquias, se suicidarem entre 1998 e 2000. Depois, em um dia de dezembro de 2001, Nelson Guaseruca, que tinha pouco mais de 20 anos e que vivia na aldeia embera mais importante, a União Embera, entrou na floresta com o seu rifle de caça e se matou. O suicídio, aparentemente causado pela morte da sua mulher, foi o primeiro caso do gênero na tribo, segundo os anciões da vila.

Em 15 de março de 2003, uma garota embera de 12 anos se enforcou.

As mortes continuaram em 2003 e 2004. O último suicídio ocorreu em abril, mas os líderes indígenas dizem que desde então outros tentaram se matar, tendo sido salvos por parentes.

Carmen Casama, 19, conta como sentiu que "algo se apoderava dela", obrigando-a a se enforcar em uma árvore. O marido a encontrou inconsciente e desamarrou a corda. Uma outra garota, Yarledys Tocamo, 14, foi descoberta fazendo o laço com o qual se enforcaria.

"Ela teve algum tipo de ataque", conta sua mãe, Luz Angela Velásquez. "Ela gritava. E agia como se alguém estivesse querendo pegá-la. Outros jovens não tiveram tanta sorte e morreram".

Marvilia Marmolejo perdeu dois dos seus filhos em suicídios, Ketty Salazar, 15, e Yuber Salazar, 18. "Jamais pensei que isso pudesse ocorrer", lamenta, enquanto um grupo de pais preocupados escuta. "Tal coisa nunca aconteceu por aqui antes".

Em uma comunidade isolada na selva como União Embera --a vila possui 380 pessoas e teve cinco casos de suicídio-- as mortes são freqüentemente atribuídas a forças sobrenaturais.

"Ela estava bem, mas se apaixonou por um bruxo", diz Jose Dojirama, 45, referindo-se à irmã, Rosa Elena Jumi, 17, que se enforcou em abril em União Embera. "Ela o tratou mal, de forma que ele lhe disse: 'Ok, mas no fim das contas você vai se dar mal'".

Mas os líderes indígenas, com um pé na Colômbia moderna, reconhecem que o conflito, a pobreza e o desespero desempenham um papel no suicídio.

"Os jaibanas dizem que são os espíritos, mas ao olharmos para todos os fatores, poderia ser também a violência", afirma Arinson Salazar, 38, governador de União Embera.

O que este claro é que os emberas foram pressionados nos últimos 20 anos, e que o seu mundo se tornou menor. Colonos acabaram com certos animais da floresta, como a anta, que os emberas costumavam caçar, obrigando a tribo que outrora era nômade a formar comunidades permanentes. Eles se voltaram para a agricultura, uma atividade que ainda não dominam.

Os guerrilheiros e os grupos paramilitares trouxeram mais desordem, recrutando jovens membros da tribo. Os vastos cursos fluviais nos quais os emberas e outras tribos costumavam pescar se transformaram em rotas do tráfico de cocaína e armas. Centenas de índios foram expulsos de suas moradias originais pela guerra, e 30 emberas foram mortos desde 1996.

Para interromper o transporte de suprimentos para os guerrilheiros, o exército limita a quantidade de alimentos que pode ser enviada para as regiões onde vivem os emberas, o que gera racionamentos.

Expulsos das suas terras ou pressionados pela necessidade econômica, os jovens deixam as sua vilas e enfrentam um mundo no qual são incapazes de competir, diz Ciro Pineda, um antropólogo que morou em Choco por 20 anos. Vários embera não falam bem o espanhol, e são incapazes de ler ou escrever. Ao ingressarem no mundo mais vasto, eles descobrem rápida e dolorosamente as suas incapacidades.

"Eles se sentem tão perdidos que alguns dizem que vão se matar", afirma Pineda. "Eles se sentem pequenos. Perdem a auto-estima". A questão que atualmente se apresenta para a tribo é como evitar mais mortes. Vários dos emberas estão certos de que uma outra onda de suicídios vem por aí. Afinal, os jaibanas, ou xamãs, previram o fato.

Delia Casama, 53, uma embera que, graças ao financiamento da ONU está se reunindo com jovens para falar sobre as suas vidas, diz que o foco deve se concentrar na ênfase no bem. "Devemos retirar essa idéia que trazem dentro de si, de que não querem viver", afirma.

Em Riosucio, na sua humilde casa de madeira, Marino Salazar ainda está perplexo. A sua filha Leida parecia feliz, relembra, segurando uma foto de uma garota sorridente vestindo um vestido azul e uma camisa rosa.

Mesmo assim, ele diz ter seguido em frente pelo bem dos seus quatro outros filhos. Ele observa os observa atentamente.

"O que mais posso fazer?", diz ele. "Simplesmente tento conversar com os meus outros filhos". Há muitas mortes de jovens numa região devastada pela violência Danilo Fonseca

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