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25/11/2004

Fundamentalistas fazem fortuna com intolerância

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
Se os liberais seculares dos Estados Unidos acham que a situação está difícil agora, esperam até a Segunda Vinda.

A série de romances "Deixados para trás" ("Left Behind"), campeã de vendas para o público adulto nos Estados Unidos, retrata com vigor um Jesus que volta para massacrar todos os que não são cristãos renascidos. Em todo mundo, hindus, muçulmanos, judeus e agnósticos, assim como muitos católicos romanos e cristãos unitários, estão destinados a arder no fogo eterno: "Jesus ergueu uma só mão por poucos centímetros e ...eles despencaram, gemendo e gritando".

Mas que cena mais edificante!

Se os árabes sauditas tivessem escrito uma versão islâmica dessa série de livros, nós estaríamos furiosamente pedindo que os muçulmanos sensíveis repudiassem tal cantilena de ódio. Então devemos manter nossa coerência a esse padrão.

Tanto Tim LaHaye como Jerry Jenkins, os co-autores da série, me enviaram e-mails (após eu ter escrito sobre a série "Deixados para Trás", em julho) para protestar, alegando que seus livros não "celebram" o extermínio de não-cristãos, mas que apenas estariam apresentando a dolorosa realidade contida nas Escrituras.

"Não podemos ler as escrituras de outra forma, só porque soaria exclusivista e nada politicamente correto", disse Jenkins em seu e-mail. "Essa é a nossa provação, trazer uma mensagem chocante e que provoca divisões, numa era de pluralidade e tolerância".

Tolinho que eu sou. Imagine, havia esquecido a passagem na Bíblia em que Jesus pretende fazer arder no fogo eterno qualquer um, do bom samaritano a Gandhi, só porque não foram cristãos renascidos.

Eu até aceito que Jenkins e LaHaye sejam sinceros. (Eles baseiam suas conclusões no livro 3 de João.) Mas eu já estive em mesquitas paquistanesas e iraquianas com fundamentalistas muçulmanos, e eles se defendem da mesma forma: estão apenas aplicando a palavra de Deus.

Bem, eu tenho escrito que o pessoal dos Estados azuis (que votaram em Kerry) deveria esnobar menos os fundamentalistas cristãos, e eu me dou conta que essa coluna irá parecer bem esnobe.

Mas se por um lado eu louvo bons trabalhos feitos pelos evangélicos --como o soberbo esforço de caridade feito em Darfur, no Sudão-- eu também irei condenar o que percebo como intolerância. Um diálogo sobre a fé deve remover tabus e discutir as diferenças abertamente. É isso o que a turma dos Estados azuis e o pessoal dos Estados vermelhos precisam fazer a respeito de religião e dos livros da série "Deixados para Trás".

Para começo de conversa, vale a pena assinalar que esses apocalípticos têm um histórico longo e ineficiente. Nos Estados Unidos, dezenas de milhares de seguidores de William Miller esperaram ansiosamente pela reaparição de Jesus no dia 22 de outubro de 1844. Alguns desses "milleristas" chegaram a doar todos os seus pertences, e a não-aparição foi chamada de "A Grande Decepção".

Em tempos mais recentes, o livro de não-ficção mais vendido nos Estados Unidos nos anos setenta foi "O Finado Grande Planeta Terra", de Hal Lindsey, que vendeu 18 milhões de cópias no mundo inteiro com suas predições sobre a Segunda Vinda. E um dos livros mais vendidos em 1988 foi um livreto chamado "88 Razões para o Grande Êxtase Ocorrer em 1988." Não aconteceu.

Mas estar enganado poucas vezes foi tão lucrativo.

Agora temos esse altamente rentável império financeiro dos "Deixados para Trás", cujo site simplesmente diz que os autores "acreditam que essa geração irá testemunhar o fim da história".

O site vende todos os desdobramentos possíveis para a série de livros "Deixados para Trás", incluindo protetores para telas de computador, um serviço que envia profecias regularmente para telefones celulares, versões dos livros para crianças, livros em áudio, versões em quadrinhos, vídeos, calendários, músicas e um clube com mensalidade de US$ 6,50. Isso não é mais religião; é gerenciamento da marca.

Se LaHaye e Jenkins honestamente acreditam que o fim do mundo parece iminente , por que não renunciam aos royalties? Por que não usam os milhões de dólares que lucraram para ajudar os pobres --e para aumentar suas próprias chances de irem para o céu?

Jenkins me disse que doa para caridade de 20% a 40% de tudo o que fatura, e isso é elogiável. Mas há muitos outros milhões de dólares por lá. LaHaye e Jenkins poderiam gastar menos tempo decifrando passagens obscuras do Livro das Revelações e mais tempo estudando a linguagem direta de Mateus, em 6:19, que diz "Não acumulem tesouros na terra em benefício próprio." Ou Mateus, em 19:21, onde Jesus adverte um homem rico: "Venda tudo o que tem e doe o dinheiro aos pobres... Será difícil para um homem rico entrar no Reino dos Céus".

Então eu desafio os autores para uma aposta: Se os acontecimentos descritos no Apocalipse chegarem nos próximos 10 anos, então eu doarei U$ 500 para a batalha contra o Anticristo; se não acontecer, vocês doarão U$ 500 para uma instituição de caridade da minha escolha, uma que combata a pobreza --e a intolerância.

Cavalheiros, fechamos a aposta? Autores de livros religiosos anunciam apocalipse e ganham dinheiro Marcelo Godoy

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