UOL Notícias Internacional
 

25/11/2004

Ucrânia confirma eleição apesar dos protestos

The New York Times
C.J. Chivers

Em Kiev, Ucrânia
Desafiando os líderes ocidentais e em meio a uma crescente agitação popular nas ruas, o governo de Leonid D. Kuchma, o presidente em fim de mandato da Ucrânia, ignorou os relatos de amplas fraudes eleitorais e confirmou nesta quarta-feira (24/11) seu primeiro-ministro como presidente eleito.

A ação encerrou dois dias de indecisão na cúpula do governo ucraniano enquanto uma crise política se aprofundava, assim como sinalizou a decisão da liderança ucraniana em exercício de correr o risco de esfriar as relações com o Ocidente para se manter no poder.

O secretário de Estado, Colin L. Powell, disse nesta quarta que os Estados Unidos não consideram válidos os resultados da eleição. "Se o governo ucraniano não agir imediatamente e de forma responsável, haverá conseqüências em nosso relacionamento", disse Powell em uma coletiva de imprensa.

A confirmação oficial do resultado da eleição também intensificou as diferenças acentuadas entre o governo e sua fortalecida oposição, cujos simpatizantes compareceram a um imenso e agitado comício em meio à neve que caia perto do centro da capital, dizendo que continuarão resistindo ao que consideram como uma eleição roubada pelo governo.

Kiev estava crepitando de energia nesta quarta-feira, e mesmo no momento do passo assertivo e aparentemente calculado de Kuchma, seus riscos e o tamanho da oposição contra ela estavam evidentes.

Em uma tumultuada reunião na Comissão Eleitoral Central, enquanto o governo declarava o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich o vencedor do segundo turno presidencial no domingo, lhe dando 49,46% dos votos contra 46,61% para o candidato da oposição, Viktor A. Yushchenko, pessoas na câmara criticavam o anúncio dos resultados.

"Vocês responderão no tribunal!" gritou um homem ao chefe da comissão, Sergei Kivalov.

Tropas de choque da polícia se posicionaram do lado de fora atrás de um anel defensivo de caminhões-caçamba cheios de areia, assim como ônibus cheios de homens corpulentos e austeros de Donetsk, a região no Leste da Ucrânia de onde vem grande parte da atual classe governante. Os homens recém-chegados acenavam bandeiras azuis da campanha de Yanukovich e intimidavam os simpatizantes da oposição com sorrisos zombeteiros ameaçadores e, pelo menos em um caso, com ameaças.

Yushchenko, se dirigindo a dezenas de milhares de seus simpatizantes pouco antes de ser declarado oficialmente o perdedor, disse que os resultados da eleição foram fraudados a ponto de serem efetivamente um golpe. Ele prometeu continuar lutando pelo cargo executivo, e convocou o exército e a polícia a ignorarem as ordens para dispersar as manifestações com uso da força.

"Vocês sabem qual foi a escolha real do povo, vocês sabem o mal que está sendo feito diante dos seus olhos, vocês sabem que a lei está sendo violada", disse ele, elevando sua voz. "Vocês são responsáveis por manter a ordem: não voltem suas armas contra o povo!"

Observadores ocidentais da eleição e líderes ocidentais criticaram a eleição realizada aqui no domingo, dizendo que a documentação extensa de fraude organizada e o abuso dos poderes do Estado em benefício do primeiro-ministro mancharam seu resultado oficial e questionaram sua validade.

A Casa Branca pediu publicamente a Kuchma para que não validasse os resultados sem realizar uma ampla investigação e assegurar que a eleição foi limpa. Os líderes europeus fizeram o mesmo. Kuchma optou por ignorar os alertas e, após cinco dias de quase silêncio, ele e Yanukovich enviaram seus representantes para explicar a decisão.

Os porta-vozes eram alternadamente conciliatórios e confrontadores, talvez um reflexo da dificuldade de sua tarefa, dado que pela lei ucraniana os resultados não precisavam ser certificados até o início de dezembro e aumentavam os pedidos de investigação por parte do Ocidente.

Sergei Tyhypko, o gerente de campanha de Yanukovich, escolheu uma linha mais branda, sugerindo conciliação, dizendo que o presidente eleito estaria disposto a conversar com Yushchenko para discutir a reforma do governo. "Nós podemos dar certas garantias", disse ele. "Nós podemos conduzir reformas políticas, reduzir os direitos do presidente e dar mais voz ao Parlamento."

Oleksandra Kuzhel, um assessor de Yanukovich que atua como ligação com os empresários, adotou uma posição de confrontação, descrevendo Yushchenko como um executivo desorganizado e ineficaz que não tem direito ao cargo, e dizendo que os pedidos de Washington não são bem-vindos e são irrelevantes na vida política daqui.

"Eu gostaria muito de ver John Kerry como presidente dos Estados Unidos", disse Kuzhel. "Mas isto não significa que vou pedir aos Estados Unidos que façam isto acontecer."

Apesar do governo de Kuchma ter sido capaz de reunir um quórum na comissão eleitoral e aprovar seu resultado, assim como montar um esforço de relações públicas junto à mídia nacional e estrangeira, muito ainda permanece incerto.

Kiev está tomada por milhares de manifestações até o momento pacíficas de apoio a Yushchenko, e na tarde de quarta-feira, ao perceber que o governo agiu contra ele e ignorará seus pedidos de investigação, o candidato da oposição agiu preventivamente, aparecendo em um palco perante seus simpatizantes, na Praça da Independência.

Diante dele se encontrava um mar de pessoas, extasiadas, acenando as bandeiras laranjas que simbolizam sua campanha. A cada dia desde domingo, Yushchenko tem atraído mais pessoas à capital. A quarta-feira viu o maior público até o momento. Ele disse às pessoas que elas eram os heróis de sua época.

"Se vocês pudessem ver a si mesmas deste ponto, vocês perceberiam quão belas vocês são, quão fortes vocês são", ele começou, lhes assegurando que se encontravam no vértice da história, que "um muro já foi derrubado. Foi o muro entre a ditadura e a democracia".

A luta contra Kuchma e Yanukovich, ele disse, ainda não acabou, e pediu a elas que continuassem se manifestando. A multidão gritou em aprovação. Ele pediu por uma nova eleição, mas desta vez com regras mais rígidas para impedir abusos.

Enquanto o impasse continuava, Europa e Rússia divergiam acentuadamente em suas reações.

A Duma, a câmara baixa do Parlamento da Rússia, aprovou por unanimidade uma resolução condenando os simpatizantes de Yushchenko, se referindo às "ações ilegais da oposição radical" e alertando contra "trágicas conseqüências". A resolução considerou a eleição legítima, dando o apoio dos legisladores, assim como do presidente Vladimir V. Putin, a Yanukovich.

Mas na Europa, as principais autoridades criticaram os resultados anunciados como fraudulentos e intensificaram a pressão sobre a Ucrânia para a realização de uma recontagem, ou para investigação das acusações de Yushchenko de fraude.

O novo presidente da Comissão Européia, o órgão executivo da união, José Manuel Barroso de Portugal, alertou sobre conseqüências não especificadas caso não seja realizada "uma revisão objetiva, séria", segundo a agência de notícias "The Associated Press".

"É nosso dever dizer que não estamos satisfeitos com a forma como a eleição transcorreu", disse ele. Ele também disse que ela será tema de discussões com Putin em uma reunião com a União Européia em Haia, nesta quinta-feira (25).

O chanceler Gerhard Schroeder da Alemanha, que mantém relações calorosas com Putin, disse ao Parlamento alemão que concorda com a Organização de Segurança e Cooperação na Europa, que liderou uma das missões de observação aqui, de que "ocorreram enormes fraudes eleitorais".

O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Wlodzimierz Cimoszewicz, pediu a recontagem. Os representantes do país no Parlamento Europeu lideraram os pedidos por uma sessão de emergência para condenar a eleição.

O chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, disse: "Nós não aceitaremos eleições fraudulentas". Como os Estados Unidos, a união pediu para a Ucrânia não validar e nem anunciar os resultados, sem ser atendida. Solana alertou sobre a possibilidade de violência caso as acusações de fraude não sejam investigadas.

Os embaixadores da Otan discutiram a Ucrânia na quarta-feira. Lech Walesa, o ex-líder do Solidariedade na Polônia, disse estar preparado para viajar à Ucrânia para apoiar a reivindicação do poder pela oposição, se referindo ao "presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko".

Com o acúmulo de sinais de desaprovação internacional, as equipes de Kuchma e Yanukovich disseram que o governo não tem planos de romper relações com a Europa, e sugeriram que como parte do cálculo por trás da decisão de manter o curso para a posse de Yanukovich, eles esperam que surja um pragmatismo político e que os protestos passem com o tempo.

"A Ucrânia não pode desaparecer do região central da Europa", disse Sergei L. Vasilyev, o chefe do departamento de informação de Kuchma. "O Ocidente terá que aprender a aceitar o acordo com o novo presidente." Resultado é considerado fraudulento por observadores, EUA e UE George El Khouri Andolfato

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